Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 172 de 262

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Paris, 1991.

Até hoje não aprendi a empregar corretamente os verbos — retificar e ratificar — tenho de parar e pensar antes de usá-los.

Paris, 1991.

Monteiro Lobato

Desde que, há alguns anos, encontrei num buquinista volum e da tradução francesa de Urupês, toda vez que sigo pelos diversos cais do Sena procuro outro exem plar para com ele presentear um am igo francês interessado em bons autores brasileirios. Até agora busca inútil, não perco a esperança.

Em m inha opinião de leitor, o escritor principal do Brasil na década de vinte não foi nenhum dos papas do m odernism o e, sim , Monteiro Lobato. Refiro-m e ao contista de Urupês e de Cidades Mortas, prosa m oderna (despida dos tiques m odernistas), recriação am orosa e contundente de certa sociedade brasileira da época — dessa sociedade tudo que resta hoj e são os contos de Lobato.

Monteiro Lobato não participou do m ovim ento m odernista e até se posicionou contra num fam oso artigo de crítica à não m enos fam osa exposição de pintura de Anita Malfatti* aí pelos idos de 1918. Artigo feroz onde Lobato, pintor acadêm ico de fim de sem ana, classificou a artista de prostituta ou coisa que o valha — a baixaria da crítica brasileira é antiga. Não foi, contudo, essa posição conservadora que determ inou o esquecim ento atual da obra do contista. O escritor Monteiro Lobato foi vítim a de outro segm ento de sua vasta produção literária, o dos livros infantis, popularíssim os. A série do Sítio do Pica-pau Amarelo com Pedrinho, Narizinho, a boneca Em ília, o Marquês de Rabicó, Dona Benta, a negra Anastácia obteve um sucesso tal, tão descom unal (perdura até hoj e, segundo m e dizem ) que escondeu o outro Lobato, o m aior.

*Anita Malfatti (1889/1964), pintora.

De sua obra de literatura infantil não sou apreciador, por vários m otivos. Mas que grande, que extraordinário contista, agradável de ler-se (sei que atualm ente o fato de um livro ser agradável de ler-se não significa virtude e, sim , defeito), cheio de graça, pleno de hum or, de conhecim ento da vida e do povo brasileiros!

Aproveito para anotar o reconhecim ento que devo a Lobato: antes de nos term os conhecido pessoalm ente, o m estre paulista saiu do sério ao ler Mar Morto, em 1936: exaltou-se, fez-m e elogio tão grande com o j am ais voltei a receber.

Pequim, 1952.

Ópera de Pequim

Logo na prim eira noite de Pequim , deslum brados, Rosa e Nicolás Guillén, Zélia e eu fom os levados ao teatro para assistir à representação de um a ópera m ilenar — tudo na China é m ilenar, o recente tem quinhentos anos. A ópera de Pequim assistida in locum em nada se parece com o espetáculo circense, em geral de alta qualidade, que percorre o m undo sob o m esm o nom e. Na China é peça de teatro, texto poético, m úsica estridente, o povo adora. Na sala repleta, os espectadores bebem chá, com em bananas, chupam tangerinas, m ascam sem entes de abóbora e am endoins enquanto os atores evoluem no palco. Para nós tudo é novidade e encanto.

Naqueles idos eu arm ava as piores m olecagens aos m eus am igos, algum as divertidas, outras de m au gosto, quem conviveu com igo foi vítim a. Assim o fiz na noite da ópera de Pequim ao ver Nicolás e Rosa em desespero querendo saber o que se passava no palco, o intérprete deles, um velho senhor, m orto de cansaço, adorm ecera antes da peça com eçar. Abriu os olhos com o ruído da orquestra, m as logo voltou a dorm ir, a m úsica o em balava (sic), deu-nos trabalho acordá-lo no final do espetáculo.

Nicolás e Rosa ficaram na m inha dependência, eu lhes repetia em espanhol o que Liu, nosso intérprete, m eu e de Zélia, nos traduzia em francês, aliás não repetia nada do que Liu dizia — inventava outra história, e que história! Da m ais baixa pornografia. A ópera contava da guerra que o Im perador levava a cabo, com o apoio decisivo da Favorita, para desbaratar os inim igos que tentavam destroná-lo, exércitos se enfrentavam , um a epopeia. Na m inha versão o Im perador decidira vingar-se das traições da Favorita, ninfom aníaca que transava com uns e outros, sobretudo com afetado m alandrim , escriba do palácio. O dito cuj o adentrara a cena executando o passo do j ovem letrado — no teatro chinês reconhece-se a profissão do personagem pelo passo peculiar a cada um — que adotei de im ediato: tentei im itá-lo enquanto estive na China, sem êxito apreciável.

Vingança à altura dos chifres im periais: m andou entregar a adúltera aos cortesãos que a quisessem possuir, a bacanal se desenrolou no palco. Não contente, colocou-a à disposição da soldadesca, por fim o arrem ate da cópula da Favorita com os cavalos. A ausência de cenários, absoluta, tudo no faz-de-conta, facilitava m inha trapaçaria, em buste absurdo, inacreditável.

Inacreditável, Nicolás, porém , acreditava, eu lhe sussurrava devassidões, ele se assom brava, Rosa, de ouvido atento, deixava escapar exclam ações, oh! hein? ah! Dios! Zélia continha-se para não rir, durou horas — a representação de qualquer ópera de Pequim dura horas, é preciso ter paciência de chinês para aguentar.

Ainda recordo um a passagem : após desm ascarar e m andar prender o prim eiro-m inistro conspirador, a Favorita entra em cena num palanquim de faz-de-conta, transportada aos om bros dos criados, fatigada deita-se em cim a dos coxins a descansar. Na m inha versão erótica a Favorita, após ter sido estuprada por um batalhão de soldados, atira-se sem im orta sobre as alm ofadas. Pobrecita, disse Rosa, que horror, exclam ou Nicolás. No faz-de-conta da entrada em cena dos cavalos, atingiu-se o cúm ulo da em oção: os cavalos vão traçá-la, com uniquei aos com padres estarrecidos. Quadro m ovim entado e feérico, o dos cavalos disparados cruzando o palco, entre a Favorita e o Im perador, sem pre no faz-de-conta da dança e dos ouropéis, prestava-se a qualquer interpretação.

Decorridos alguns dias fom os recebidos, os quatro, na União dos Escritores Chineses, encontro com os m aiorais da literatura e das artes, do teatro e do cinem a, com os ideólogos do Partido. Falam os sobre Cuba e Brasil, Nicolás declam ou em espanhol, tudo bem , gentilezas, elogios a granel, solidariedade revolucionária, para finalizar os com panheiros chineses pediram que opinássem os sobre o que nos era dado ver na República Popular da China, j ovem nação socialista — estávam os em fevereiro de 1952, Mao assum ira o poder em fins de 1949. Sobretudo critiquem os erros, assim nos aj udarão a corrigi-los.

Línguas de louvor as nossas: tudo a aplaudir, nada a criticar. Nicolás, porém , atendendo à solicitação feita, reclam ou um esclarecim ento: não entendia por que punham em cena num teatro de Pequim ópera com o aquela a que assistira, por que m otivo? O ideólogo explicou que realm ente o conteúdo da ópera era um tanto quanto feudal, o argum ento situava-se em passado distante, am ores de Im perador e Favorita, a guerra pelo poder absoluto, m as que fazer se o povo não podia passar sem as óperas, espetáculo tradicional e popular? Com o ainda não tinham obras novas, de conteúdo socialista, viam -se obrigados a apresentar as do tem po do feudalism o.