Navegação de Cabotagem
Bahia, 1968.
O papagaio devasso
Na leitura de j ornais brasileiros nos dias atuais, agrada-m e o avanço da liberdade de linguagem , os palavrões deixaram de existir, quer dizer deixaram de ser considerados com o tais. Os vocábulos ditos cabeludos j á não passam de palavras norm ais, desaparecido o preconceito que os discrim inava, a censura que os proibia.
Não era assim até há bem pouco tem po, a im prensa levava em conta a pudicícia dos leitores, a falsidade, a hipocrisia, m ais ainda a reprovação de órgãos da sociedade, as restrições religiosas. Vej o em m inha frente Odorico Tavares erguer os braços para fazer m ais eloquente o protesto contra a linguagem do cronista Guido Guerra, literato noviço que ele acolhera nas colunas respeitáveis do Diário de Notícias: esse sujeito quer fechar o meu jornal! Guido usara num a crônica a palavra porreta, expressão correntia na boca dos baianos, vetada nas páginas das gazetas.
Apesar dos esporros e am eaças — mando-o embora, este é um jornal sério — Guido persistia no uso e abuso de term os e locuções pouco católicas, ganhara o apelido de papagaio devasso pela crueza do estilo, fazia sucesso j unto aos leitores. Esse im prudente aparecera com seu j eito canhoto nas rodas literárias, feio, despenteado, as calças am eaçando desabar, abria cam inho a toque de caixa, a golpes de tacape, verve e ousadia. Eu acudira, nem sei por quê, a um a tarde de autógrafos, o dito cuj o lançava seu prim eiro livro, de crônicas. Apostei no neófito, acontece-m e fazê-lo, não tenho tido m otivo de arrependim ento: poucas vezes dei a m ão à palm atória, quase não errei nas previsões. Guido correspondeu à aposta, o cronista cresceu, dele nasceram o contista e o rom ancista: quando assina novo lançam ento em livraria de Dem ê*, a fila se estende rua afora.
No Diário de Notícias o m undo vinha abaixo, Odorico anunciava a dem issão do réprobo. Não dem itia, não passava do esporro, dos gritos, das am eaças, Guido deixava o gabinete prom etendo para não cum prir, o poeta Tavares cochichava: o bandido tem talento, as crônicas levam graça, até Gersina* gosta.
*Dmeval Chaves, livreiro.
*Gersina, mulher de Odorico Tavares.
Nova York, 1979.
Portinari
Em casa de Julie e Harry Belafonte j antam os em fam ília: os pais de Julie, a irm ã de Harry. Alfredo Machado está conosco. Harry m e diz: depois do jantar quero te mostrar uma coisa, uma surpresa, vais gostar.
Encontram os os Belafonte nos quatro cantos do m undo. Com Georges Moustaki vam os j antar com eles em Paris, antes do concerto de Harry no Oly m pia, um a apoteose. Em com panhia de Gregory Peck vam os, pelas ruas de Havana, os Belafonte e nós. Num a festa de iniciação em casa de santeria Zélia, presente com Julie e Harry, cham a a atenção para o fato de que os iniciandos, iaôs de prim eiro santo, são quase todos brancos. Em Cuba com o no Brasil o candom blé deixou de ser seita de negros para tornar-religião popular onde as raças se confundem , por vezes as classes sociais. Na Bahia latifundiários, banqueiros e políticos frequentam as casas de santo, em época de eleição os ebós se sucedem , os carregos de Exu, as m andingas de Xangô. Houve ultim am ente sensível abertura nas restrições cubanas às crenças de origem fetichista. Quando em 1962 estivem os pela prim eira vez na ilha de Fidel, a santeria era perseguida e proibida, agora é tolerada.