Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 95 de 262

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Paris, 1948.

A aposta

Encontro Picasso na entrada do edifício, tom am os o eleva-dor, agradeço-lhe a presença, sorri: agradecer por quê se sou am igo de Pablo? O gabinete de Aragon* no Ce Soir está com o sem pre repleto de literatos, a turm a de Les Lettres Françaises ali se encontra diariam ente para receber as bênçãos, ouvir os pareceres de Sua Santidade o Papa Louis, abraço Pierre Daix e Claude Morgan, confraternizo com o grego André Kedros às voltas com as provas de seu prim eiro rom ance, Un navire en pleine ville.

*Louis Aragon (1897/1982), poeta francês, na época diretor do vespertino Ce Soir.

Representantes dos pecês do Chile, da Argentina e do Brasil nos reunim os com Aragon e Picasso para estudar e tom ar m edidas em defesa de Pablo Neruda, vítim a de perseguição desencadeada no Chile: expulso do Senado, posto na clandestinidade, sob am eaça de prisão, faz-se necessário protestar. Decidim os o envio im ediato de telegram a a Videla* responsabilizando-o pelo que pudesse vir a suceder ao poeta, reclam ando para ele garantias de vida e plena liberdade. Telegram a a ser assinado pelos grandes da cultura francesa, capaz de im pressionar os políticos chilenos. Os com unas latino-am ericanos residentes em Paris colherão as assinaturas, redigim os o texto, libelo acusatório, pauta de exigências, estabelecem os lista de personalidades a serem procuradas.

*Gabriel Gonzalez Videla, Presidente do Chile de 1946 a 1952.

Cito o nom e de Jean-Paul Sartre, causo escândalo, os de Les Lettres Françaises riem em m inha cara, pisei nos calos de Aragon que se enfurece: Sartre, um inim igo, jamais assinará. Naquele m om ento as relações do filósofo existencialista com o Partido Com unista da França eram péssim as, xingavam -se com ferocidade e com petência. Ouso discordar de Aragon, afirm o o contrário: considero possível obter-se a assinatura do filósofo pois, acom panhando a atuação de Sartre, com provo que, m esm o em divergência com os com unistas, j am ais assum e posições reacionárias. Aragon range os dentes, acusa-m e de nada entender de política, sou um inconsequente, cobre Sartre de im propérios, a firm eza de Louis nas posições de Partido atinge a grosseria, diria que m e olha com raiva se não fosse com desprezo. Mantenho-m e firm e, proponho-m e a ir pessoalm ente buscar a assinatura do renegado e a de Sim one*, aposto que vou consegui-las. Aragon, ainda sarcástico porém m ais calm o, aceita a aposta: nem assinatura nem m eia assinatura, quanto m ais as duas: vá se quiser, receberá um não redondo, em pagamento da aposta espero ouvir a autocrítica do camarada. Existencialism o e autocrítica, m odas da época.

*Simone de Beauvoir.

Eu estivera com Jean-Paul Sartre um a única vez, na sede da editora que então publicava seu teatro e lançara a tradução de Terras do Sem Fim. Ao ser-m e apresentado, foi m ais que cortês, disse-m e ter lido o Terras e ter gostado, nadei em m ar de rosas, a vaidade levou-m e a acreditar. Igual a todo o m undo literário, eu sabia de hábitos de Sartre, dos alm oços no Lipp onde ele e Sim one tinham m esa cativa, lá apareci com a cópia do telegram a, Sartre m e reconheceu, m ais um m otivo da vangloria, expliquei-lhe os percalços de Neruda, m ostrei-lhe o texto da m ensagem a Videla, pedi-m e a assinatura e a de Sim one. Não houve a m enor hesitação, Sartre assinou, Sim one tam bém , agradeci, só faltei beij ar-lhes as m ãos, m e toquei envolto em j úbilo: não havia nas ruas de Paris àquela hora literato m ais feliz.