Navegação de Cabotagem
Sagres, 1976.
Good
Desem barcam os da carrinha, tom o da m ão de Palom a, avançam os pelo espaço am plo diante do m ar do Infante Dom Henrique, m ar das descobertas, oceano. O resto da fam ília vem m ais atrás na anim ação da conversa.
Gordíssim o, nunca estive tão gordo, no verão de turism o visto berm udas, cam isa do Havaí, flores verm elhas e azuis, sandálias exibindo o dedão do pé, boné de m arinheiro, ianque em férias. No cam inho um a barraca de guloseim as, frutas secas, nozes, avelãs, am êndoas, tâm aras, tanta coisa de apetite. Paro a adm irar, o dono do negócio m e encara interessado, na esperança de boa venda, m ondrongo retaco, parrudo, m eia-idade. Tiro um figo do m onte, m ordo, saboreio, escapa-m e um suspiro. O vendedor acom panha com os olhos a m astigação do norte-am ericano em sua frente: a pança e a gula.
— Good? — Pergunta-m e em seu inglês com erciante.
— Good! — Repito, afirm ativo.
Em torno riem com o diálogo, riem ainda m ais quando ele m e m ede de alto a baixo:
— Estás gordito, hem , fílho-da-puta?
O riso nos assalta, a Palom a e a m im , por pouco não m e engasgo. Palom a, contida a gargalhada, com enta alto:
— Ele pensa que és am ericano, pai!
— Ai que são brasileiros! — Gem e o vendedor.
Encom endo quilos de frutas secas, figos, avelãs, tâm aras de m inha paixão. Leitores se aproxim am , caneta em punho, pedem autógrafos, o dono da barraca não sabe para onde se virar:
— Ai que o gaj o é artista de cinem a!
Mar Negro, 1992.
A rainha mãe e o generalíssimo
Sandálias do deserto, atravesso as páginas do Velho Testam ento no cortej o do rei David, os Salm os cantam a grandeza do Generalíssim o. Sonho confuso e agitado, se desdobra em pesadelo, na noite de breu o navio enfrenta águas picadas do Mar Negro, procedente de Odessa, no rum o de Yalta.
Ontem aqui era a União Soviética, superpotência, superpátria de centenas de m ilhões espalhados nos cinco continentes, das capitais à derradeira ilha da Oceania. Quando foi, ninguém m ais sabe, perdeu-se a m em ória, lêem -se versões contraditórias nos com pêndios dos historiadores, circulam lendas na boca do povo. Decerto aconteceu no com eço dos tem pos, pois no Cântico dos Cânticos o Rei Salom ão com para a m agnitude das ancas da Rainha de Sabá à bigodeira do Generalíssim o.
Naquele tem po que de repente se apagou, em sala de Palácio desta cidade de Yalta — na costa do Mar Morto ou às m argens do Eufrates? — se reuniram em conferência o generalíssim o Josef Stalin e dois outros senhores, am bos de língua inglesa, dividiram o m undo, cada qual abocanhou seu naco, haviam -no conquistado nos cam pos de batalha.
Foi na hora precisa da divisão, a solenidade soleníssim a fez o inglês Churchill sorrir sarcástico, quando — naquele preciso instante, antes do anúncio do tratado, o im previsto aconteceu e o sonho perdeu o conteúdo de testem unho da história para se transform ar em am argura e queixa: a cena inteira dom inada pela m aj estade (intem pestiva) de Luz da Serra a m e acusar de ingrato e m au am igo. Não chegava da Bahia pois estávam os na Bahia, para ser exato constato que estávam os no hall do Teatro Castro Alves. O que fora fazer ali não m e recordo, ia perguntar ao diretor Orlando Sena, não tive tem po, Luz m e interpelou:
— Estás chegando ao fim desse m alfadado livro que, se não é de m em órias, de que diabo é? e ainda não falaste sobre m im , não te referiste aos m eus. Por m im e por Walter não ligo a m ínim a, m as por que esqueces os m eninos? Nessas páginas rabiscadas em teu português capenga, sem regra de gram ática, onde sobej am galicism os, em que língua tu escreves, m ãe de Deus!, nelas ainda não li o nom e festej ado do com positor Walter Queiroz Júnior, no entanto dizes apreciar as m elodias que ele cria ao violão: o sam ba, a m archa, a m odinha — que reles am igo m e saíste! Faltar a m im , te esqueces que sustentei teu nom e na praça pública da contestação, na feira das m esquinharias, quando te negaram pão e água, faltar logo a m im , tua chapa Luz da Serra.
Debato-m e no sonho, reaj o contra o libelo e a dúvida, os ritos da am izade são sagrados para m im :
— Ai, Luz, não m e digas m au am igo, não o sou. Ainda não coloquei ponto final nos apontam entos, lem branças de coisas e pessoas, leitura para fam iliares e com parsas. Som os com parsas, tu e eu, aqui inscrevo teu nom e e o de Walter m ais um a vez te proclam o a m ãe por excelência, m ãe excelsa, de teu ventre nasceram a bailarina e o pintor, la m am m a de Waltinho Queiroz, com positor que, adolescente, estreou nas paradas de sucesso com m eu voto, te lem bras, Luz da Serra Queiroz? No j úri da m úsica popular baiana, voto de pouca valia, o m eu, m as os de Cay m m i, Cy va, Coqueij o, Manuel Veiga proclam aram o nom e de teu filho. Com positor da adm iração de Mareei Cam us, eu o constato ligado a m eu trabalho de escritor, m usicou o film e do francês sobre os pastores da noite da Bahia. O sam ba de sua criação entra-m e casa adentro vindo da rua onde o povão o canta no carnaval do Bloco do Jacu: do alto do trio elétrico, Waltinho com anda a folia.
Se vieste m e lem brar, perdeste teu tem po, com o poderia esquecer a Rainha Mãe? Antes de saber de ti e de tua picardia, soube de teu cunhado José, fom os colegas de Colégio no Ypiranga, com panheiros e adversários nos arraiais da subliteratura, nos xingávam os e nos negávam os naqueles idos de 1928, José era de nós todos o m ais m oço, apenas com pletara 15 anos, publicou um rom ance, virou celebridade, Carlos Chiacchio* colocou Queiroz Júnior nas alturas, sua glória nos regalou a todos, fom os todos reconhecidos, recebem os carteira de escritor, de Brício de Abreu a Ay dano do Couto Ferraz, guerreiros pés rapados.
*Carlos Chiacchio (1884/1947), crítico literário de A Tarde.
Onde estás, Luz da Serra, que j á não te vej o na sala da Conferência de Yalta? Quem eu vej o passar, altissonante, é o deputado Uly sses Guim arães, vai apressado:
— A Presidência está vaga, Roosevelt m orreu, vou ocupá-la, m e cabe de direito.
Churchill se opõe, o Generalíssim o alisa os punhos da espada, Uly sses se precipita. Molotov tom a da palavra, pede silêncio, lê o papelório, a ata da divisão do m undo: o Brasil e a m etade do planeta Terra couberam aos norte-am ericanos; Cabo Verde, Angola, Moçam bique e a outra m etade quase inteira com põem o m apa verm elho das colônias soviéticas; do que sobrou, o Portugal de Oliveira Salazar persiste inglês, restou para os franceses a Argélia em convulsão — ainda hoj e em convulsão. A dividir, som ente o universo: a Lua, Marte, Vênus e Júpiter, o sistem a solar, a Via Láctea, a disputa se dará na guerra fria das estrelas.