Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 150 de 262

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Londres, 1968.

Meu retrato Flávio o pintou em 1945, o m eu, o de Guillén, o de Neruda. Pablo posou na Fazenda de Valinhos, em m atéria de artes plásticas era um tanto acadêm ico, ao ver o quadro pronto, com entou: não é um retrato, é uma natureza-morta. Arquiteto de proj etos discutidos no Brasil e no estrangeiro, Flávio construíra as prim eiras casas m odernas de São Paulo, no Pacaem bu, inventara a casa da Fazenda Capuava*, m aravilha, a im ensa porta de entrada. Com o m esm o entusiasm o se entregava à arte e às tarefas de fazendeiro, às colheitas de figos, à venda de leite na capital, forneci-lhe o nom e para a em presa leiteira, José e sua boa vaca. Reunia am igos em Capuava, hospedagem farta e alegre, serões de m úsica e bate-papo. Convidado, carregando o violão e a m aleta, Dorival Cay m m i desem barcou do carro, entrou na calçada que levava à porta do paraíso, deparou com a pianista Mercês da Silva Telles, alta, torneada, beleza grega, nua na piscina, doirando ao sol o corpo de estátua, Dorival largou m ala e violão, exclam ou: está pra mim!, com eçou a executar o passo do siri-boceta.

*Em Valinhos, a casa projetada em 1929 foi construída em 1938.

A experiência núm ero dois, a m assa ofendida, em desvario, a procissão de Corpus Christi desatinada atrás do hom em de chapéu na cabeça desafiando a lei da seita, a núm ero três foi o desfile do New Look no Viaduto do Chá. Nunca se soube qual a experiência núm ero um , será que J. Toledo, seu confidente, seu testam enteiro, no livro m onum ental que está preparando sobre Flávio vai nos revelar o segredo? Som ente ele sabe o código que perm ite abrir o cofre.

Antes que eu houvesse aparecido no cam po da liça para travar o com bate decisivo e conquistar a praça inexpugnável, Flávio cantou Zélia em plena rua, ela se dirigia à Light para pagar a luz, ele atrás no galanteio. Por um lado honesta, por outro j ovem , Zélia o desdenhou, não lhe correspondeu aos acenos, às palavras doces, achava-o velho e feio e, sendo com unista, definia-o burguês liberaloide, rico e maluco, enfim , um reacionário. Ainda bem , em certas horas a ideologia tem valor e vez.

Londres, 1968.

Macunaíma

Os devotos das cam inhadas no calçadão de Copacabana — Zélia é um deles e m e arrasta — j á possuem inclusive um j ornalzinho, redigido pelo doutor Cardoso*, m édico com tendência a literato, irm ão de m inha am iga Maria Cardoso. Ao ritm o da cam inhada, o j ornalista quer saber qual entre os nossos contemporâneos é ou foi o maior dos brasileiros. Essa m edida do m aior bole com m eus nervos, refiro dez ou quinze m aiores, de José Am érico de Alm eida a João Guim arães Rosa, para lem brar apenas dois escritores. Adm ira-se que eu não cite Getúlio, Eduardo Gom es, Mascarenhas de Morais, espanta-se ao ouvir alguns dos nom es por m im citados, por que Grande Otelo, m e pergunta. Entre os contem porâneos decerto existe brasileiro tão em inente quanto Grande Otelo, não duvido, nenhum porém m aior. Pequeno, m agro, feio, chegado à boêm ia, sem eira nem beira, o oposto do solene e do sensato, não sei de brasileiro m ais im portante, eu não vacilaria em dizer o m aior se tal m edida não m e parecesse absurda, errada, restritiva.

*Dr. Francisco Stolzer Cardoso, médico.

Em m il circunstâncias eu o vi único, sem igual, quero apenas recordar um a delas, im possível esquecê-la. Aconteceu em Londres quando da apresentação aos ingleses do film e de Joaquim Pedro*, adaptado do rom ance de Mário de Andrade, Macunaíma, com Otelo vivendo o herói sem nenhum caráter. Traj ando terno rosa-choque, colete e gravata borboleta, Grande Otelo, Macunaím a em carne e osso, im provisou, com verve, eloquência e erudição, discurso em língua inglesa para saudar o Lord May or da capital d Grã-Bretanha, num banquete de celebridades internacionais. Só vendo e ouvindo para crer. Grande Otelo, gênio.