Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 138 de 262

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Paris, 1986.

Diziam -no m entiroso, acusação inj usta. As histórias fantasm agóricas que contava ele as vivera todas em suas cinquenta sete reencarnações, as com provadas. Algum as desastradas, abom ináveis. O m au ladrão, na cruz ao lado de Jesus, não era outro senão ele. Reencarnara na pele do cardeal Pierre Cochon, o patife que, vendido aos ingleses, condenou Joana d'Arc à fogueira. La Pucelle d'Orleans, m esm o depois da canonização, santa de altar, não o perdoou, não lhe dava trégua, continuava a persegui. Io na ânsia de vingar-se. Em certa ocasião tentou m atá-lo, quase m ata a m im e a Cam afeu de Oxóssi quando, na com panhia de Cardosinho, íam os a um alm oço no Mercado, não fosse Aurélio o volante que é, teríam os desencarnado. A Donzela surgiu a cavalo, de lança em punho, envergando a arm adura, saíra de um a nuvem , investiu. Atropelou o autom óvel, quis transpassar com a lança o pescoço de Cardoso Cochon, errou por pouco, quando m e dei conta o pintor estava estendido no chão do veículo, escondendo o rosto, pedindo perdão.

Teve igualm ente reencarnações da m elhor qualidade, foi profeta, secretário de Moisés gravou as tábuas da lei, erem ita no deserto, o poeta Om ar Kay aan e o tribuno Danton. A reencarnação perfeita, a m ais feliz, deu-se no Ceará no século passado: nasceu j um ento lerdo e pacífico, propriedade do Cônego Alencar, o pai do rom ancista de Iracema, no lom bo o conduzia da Igrej a para a casa da com adre, trabalho m aneiro, capim farto, boa vida.

Soldado português, em Itaparica, na guerra contra os holandeses, padre católico devasso, parceiro de Gregório de Matos na pândega com as putas, senhor de engenho e de escravos, escravo m alê, chefe de m otim . Várias vezes o acom panhei a visitar túm ulo seu no pequeno cem itério da Igrej a do Pilar: ali Cardosinho estava enterrado ou sej a Pedro Miguel Tibiriçá, herói da Independência. Capitão no Batalhão dos Periquitos, sob as ordens do general Pierre Labatut, m orreu em com bate nas aforas da cidade da Bahia.

Cardosinho aponta-m e os desenhos gravados no m árm ore da lápide: repare na reprodução da assinatura, a letra é igual à minha, veja o formato do rosto, traços iguais aos meus, eu era valente e bonitão. Narra peripécias, a travessia bélica do recôncavo, a febre nacionalista que o levou a m udar o nom e — deixou de assinar-se Perdigão para ser Tibiriçá —, am ores com fidalgas e m ucam as, ri a risada de hem iplégico, feliz da vida eterna.

Paris, 1986.

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