Navegação de Cabotagem
Luanda, 1979.
*Annik Thebia-Melsan, diplomata francesa, foi adida cultural no Brasil
No sem inário com o tem a "literatura e cana-de-açúcar" onde falei sobre José Am érico de Alm eida e José Lins do Rego, encontro pessoas, o rom ancista Xavier d'Orville, o professor Em ile Eadie, que recordam a passagem do m oço baiano, m oço ainda hoj e, os cabelos brancos, a cadência da m úsica, a sabedoria do povo. Gregório de Matos, Aim é Césaire, Léopold Senghor, Gabriel d'Arboussier, Jacques Roum ain*, Lim a Barreto, Jacques Alexis*, Nicolás Guillén, René Depestre, Henri Lopes*, Dorival Cay m m i, Gilberto Gil, quantos e quantos m ais, inum eráveis, m úsicos, poetas, rom ancistas — Sim one Schwarz-Barte, por exem plo, para citar um a m ulher, que rom ancista! —, m ulataria sem igual na força da criação, na originalidade da m istura.
*Jacques Roumain (1907/1944), escritor haitiano.
*Jacques Stephen Alexis (1921/ 1961), escritor haitiano.
*Henri Lopes, escritor congolês.
Luanda, 1979.
Novela de televisão
Convidado de Agostinho Neto não o encontro durante a estada em Angola, m anda-m e recado por Antônio Jacinto*, está de partida para Moscou onde vai se operar, e não regressa, sua m orte com ove o povo. Na difícil situação em que Angola se encontra, o poeta presidente era fator de confiança, é triste o aspecto do país, a fom e se instala.
*Antônio Jacinto, poeta angolano.
Com o se estivesse na Bahia percorro Luanda de ponta a ponta, nem em Luanda nem em Lisboa m e sinto fora da Bahia, som os angolanos e portugueses ao m esm o tem po, m isturados. Viaj o pelo interior, não vou longe, a guerra civil não perm ite andanças m aiores, m as posso constatar aqui e ali os m ales da ideologia, repetidos. Na cooperativa socialista em que foi transform ado o im enso latifúndio — terá havido de fato algum a m udança ou m udou apenas o rótulo, o patrão? — cooperadores benévolos vindos da Bulgária em nom e do internacionalism o proletário não conseguem conviver nem congraçar-se, enquanto os angolanos convivem às m aravilhas e se congraçam com técnicos brasileiros de em presas que ali estão para ganhar dinheiro. No hotel onde nos hospedam em Luanda, o diretor, cam arada iugoslavo m andado para aj udar o socialism o afro, é um príncipe loiro, solidariedade superior, distante e fria.
— E os cubanos? — pergunta-m e em Lisboa Fernando Nam ora: — São populares?
— Não m e pareceu.
— Os cham ados libertadores nunca o são — reafirm a o rom ancista. — Entre libertador e conquistador a distância é pequena, não cabe um passo de soldado.
Os cam aradas angolanos levam -m e ao bairro proletário por excelência, o muceque operário, dizem de boca cheia, para um encontro com quadros e m ilitantes, com parece m uita gente. Espero ter de discutir política, falar do Brasil, das inj ustiças sociais, da ditadura m ilitar, de problem as do socialism o, busco preparar-m e. Ao contrário do esperado, à exceção de duas ou três perguntas de dirigentes destinadas a dirigir o debate, não o dirigem , as dem ais, de hom ens, m ulheres, j ovens em grande m aioria, se reportam à novela de televisão adaptada de Gabriela, Cravo e Canela que vem de ser dada na cadeia oficial e única.