Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 111 de 262

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Navegação de Cabotagem

Paris, 1992.

Boatos

Eduardo Portella e eu agitam os a vida política e intelectual através da coluna (lidíssim a) de José Mauro Gonçalves* na Última Hora de Sam uel Wainer. Inventam os sucessos, atribuím os proposições, frases e ditos a figuras de relevo, m andam os brasa Nada, no entanto, irrefletido e gratuito, cada nota que pom os em circulação tem razão de ser, nosso obj etivo é a dem ocracia.

*José Mauro Gonçalves, jornalista.

Propalam os a candidatura de Augusto Frederico Schm idt a senador por Sergipe, os políticos sergipanos entram em crise, pom os na boca de Barbosa Lim a Sobrinho, pessoa de nossa adm iração, frase de espírito a propósito de Jânio e Juscelino, a frase faz sucesso, nós a escutam os repetir nas rádios, na televisão. Ouvido por um a rádio Barbosa Lim a nega a autoria da frase, m as a elogia: não é minha mas é boa. A cada m anhã alim entam os a coluna de José Mauro de inform ações, autênticas todas: se não o eram passam a ser.

Na luta contra os m ilicos, após a renúncia de Jânio, em defesa da posse de João Goulart, dias de incertezas e am eaças, bolávam os e espalhávam os boatos, tudo quanto pudesse prej udicar os golpistas, transm itíam os por telefone, circulavam , acontecia-nos recebê-los de volta. Num com eço de noite, Eduardo m e telefona, a excitação na voz:

— Acabam de m e telefonar de Brasília, sabes o que acontece? Desentendim ento entre os generais... Ouça...

Revela-m e detalhes do desacordo entre os chefes m ilitares. Notícia sensacional e, sobretudo, de fonte fidedigna.

— Não te entusiasm es, Eduardo, tu te esqueces que esse boato nós o inventam os hoj e de m anhã. Voltou enriquecido, é norm al. Mas a fonte fidedigna som os nós, tu e eu.

Paris, 1992.

Os direitos humanos

Assino a carta para Madam e Weil*; m em bro do Júri, na poderei com parecer à reunião onde serão escolhidos os contem plados com o Prix de Ia Mém oire, concedidos anualm ente pela Fondation France Liberte. Estam os de partida para Zurique, Zélia e eu, vam os participar de encontro com leitores no quadro de um a prom oção sobre a cultura brasileira. Penaliza-m e não estar presente, em ocasiões anteriores dei m eu voto à Fundação da Ilha de Gorée, ao organism o que defende os direitos do povo curdo, diariam ente violados no Iraque, na Turquia, à Am nesty International, o trabalho realizado pela Am nesty parece-m e digno do m aior apreço sobretudo pela isenção — talvez por isso m esm o nem sem pre é reconhecido.

*Eva Weil, Presidente do Júri do Prix de la Mémoire.

Por falar em prêm ios, considero as contingências que os cercam , penso em inj ustiças e em erros, m e pergunto, tenho vontade de perguntar em altos brados: por que ainda não foi concedido a Danielle Mitterrand o Prêm io Nobel da Paz? Ninguém o m erece tanto, ela é hoj e o sím bolo dos direitos hum anos, de sua defesa intransigente. A Presidente da Fondation France Liberte é exem plo e incentivo, onde quer que se erga a bandeira dos direitos negados e agredidos, lá se encontra a com batente de dedicação sem fronteiras e sem lim ites. Onde estão os parlam entares da Noruega que não lhe outorgam a láurea do bom com bate?

De Danielle Mitterrand se poderia dizer, para nom eá-la, que se trata da esposa de François Mitterrand, um dos poucos estadistas contem porâneos, em nossos dias som ente Mihail Gorbachev possui sua estatura, prim eira dam a da França cuj os destinos seu m arido preside, não é pouca coisa. Eu direi porém que ela é não apenas a m ulher do Presidente da República, Madam e Mitterrand — ela é isso e m uito m ais: é Danielle Mitterrand, não passeia pelas capitais em visita oficial, viaj a em defesa da liberdade, não se alim enta com as gaiatices, os desfiles de m oda, a fofocagem que são o prato de cada refeição das prim eiras-dam as das cortes republicanas. Não se exibe no palco das ilum inuras sociais, é a defensora dos direitos hum anos nas arenas da luta, do protesto, da solidariedade. Mais que a esposa do Presidente, é a com panheira do socialista, do europeu Mitterrand, François e Danielle se com pletam .