Navegação de Cabotagem
Paris, 1949.
*Barão de Itararé, Aparício Torelli (1895/1971), humorista.
Zélia deu aj uda decisiva, andou o Brasil de norte a sul, de leste a oeste angariando dinheiro, o j ornal viveu sem pre no verm elho, raros anúncios de editoras, nenhum a verba oficial, nem sequer o fam igerado ouro de Moscou. Os salários não passavam de abstrações para aqueles que form alm ente os deviam receber, outros não tinham nem m esm o prom essa de estipêndio. Oscar botou um bocado de dinheiro no j ornal, eu botei um pouco, m ais não tinha, trabalhávam os à m íngua sem perder o bom hum or, ninguém se deixou, m uito ao contrário.
O Paratodos significou tentativa, a única que eu conheço, de estabelecer livre e sadia convivência entre os intelectuais brasileiros, entre os criadores nos cam pos das letras e das artes. A época aj udava: governo de Juscelino, dem ocrático, desenvolvim entista, a fundação de Brasília e o crescim ento industrial, reinavam o otim ism o e a confiança entre a população, nunca m ais aconteceu.
Já que se fala em Brasília, aproveita-se para registrar que a nova capital foi obj eto da crítica e do com bate os m ais violentos Juscelino alvo de calúnia, insulto e negação: a quase totalidade dos intelectuais cariocas j untou-se contra a construção de Brasília num a guerra sem quartel, cruel, por vezes infam e. As m odas de então eram m ais cordiais que as de hoj e, m enor a baixaria. As m azelas, porém , da vida cultural j á proliferavam : os sabidos, os m esquinhos, os safardanas.
Paris, 1949.
Cidadão argentino
Nos corredores do Congresso Mundial da Paz, na sala Pley el, espanta-m e ver Miguel Otero Silva, venezuelano orgulhoso de sua cidadania, quase chovinista, declarar-se cidadão argentino, de Buenos Aires, ao fornecer nom e do hotel e núm ero da suíte à j ovem Marie de la Banlieu, m ilitante do pecê francês em trabalho voluntário, encantadíssim a com o cam arada latino-am ericano. Miguel Otero é charm oso quarentão, m achista com o devido, bem -falante, o acento hispânico torna ainda m ais sedutor o seu francês fluente.
Poeta e rom ancista, hom em político, líder com unista, senador, m ilionário, dono de cavalos de corrida, proprietário e diretor de El Nacional, um dos dois m aiores diários de Caracas, por que cargas-d'água o venezuelano ilustre se diz argentino?
— Cidadão argentino, Miguel? Desde quando?
— Desde que saio em viagem , apenas tom o o navio ou o avião revisto-m e com a nacionalidade argentina. Medida das m ais oportunas, aconselho-te a adotá-la.
— Oportuna? Por quê?
— Porque se te declaras argentino não pesarão sobre tua pátria e teus patrícios os ônus dos vexam es que causares, das tolices que disseres, das tonterias que praticares, dos erros, das gafes e do resto — acentua a palavra, y de lo demás, com o se quisesse dar-lhe significação especial.
— Que resto?
— Levas para a cam a nupcial um a preciosa, com o a que viste conversando com igo ainda agora, reparaste na elegância? Na hora da verdade fracassas, sobrevem a im potência, o fracasso fica por conta do argentino.