Navegação de Cabotagem
Bahia, 1973.
— Parece que o cam arada Hikm et não aprecia Pierre Loti, está a acusá-lo de suj o agente im perialista, diz que ele não entendeu nada da Turquia e do povo turco, um renegado.
Olha para nós em busca de explicação, j á não sabe o que pensar, onde e com o situar o escritor francês: na adm iração paterna ou ao adm irar Loti estará com etendo pecado contra a religião do m arxism o-leninism o? Os olhos arregalados, a m ão cobrindo a boca.
Yachar Kem al desata em riso m as logo se contém , diz que Satva é um personagem de romance na trama das ideologias, por que não a coloco num livro: pura, ingênua, leal, invadida pela dúvida, dram ática. Tom a de m inha m ão: somos todos personagens, meu irmão.
Bahia, 1973.
Toninho
A construção do Centro Adm inistrativo avança em ritm o veloz, alguns dos prédios que acolherão as secretarias do governo encontram -se em vias de conclusão, Jenner Augusto e eu visitam os o canteiro de obras a convite do governador Antônio Carlos Magalhães, ele nos explica a im portância e o significado do Centro. A urbe vai sair dos lim ites históricos, vai se estender em direção a Itapuã, crescerá na orla m arítim a, a velha cidade do Salvador da Bahia de todos os Santos, capital da colônia, m odorrenta se transform ará na capital dinâm ica de um Estado industrial. O governador traça o futuro — pagará a pena?, m e pergunto.
Chegado às artes plásticas, possui um a senhora coleção, as m ás línguas espalham que as m elhores peças foram recebidas de presente, possa ser, com o se diz aqui, Toninho pretende colocar painel de artista baiano em cada um dos edifícios, decorar salas e gabinetes com óleos, aquarelas, desenhos, desej a que sua adm inistração decorra sob o signo da arte, pede-nos, a Jenner e a m im , que o aj udem os no proj eto. Aceitam os a prebenda, parece-nos válida por todos os m otivos: inclusive por bem -vinda às finanças sem pre parcas dos artistas.
Para com eço de conversa proponho a Antônio Carlos que a realização do grande painel destinado ao plenário da Assem bleia Legislativa do Estado sej a confiada a Carlos Bastos, o convite valerá com o reparação ao pintor, vítim a de discrim inação e preconceito por parte do clero do Rio de Janeiro. Haviam -lhe encom endado dois m urais para a igrej a do Parque da Cidade, Carlos pôs-se ao trabalho e, com o j á fizera em outras obras, deu o rosto dos am igos aos personagens, vestiu com traj es bíblicos pessoas de sua adm iração e sua estim a: nas paredes da igrej a estam os Di Cavalcanti, Dj anira, Pele, Vinícius de Moraes, eu próprio. Caetano Veloso é Jesus, Betânia encarna a Virgem Maria, Gal Costa é Maria Madalena. Os padrecos não gostaram , um deles escreveu artigo no Jornal do Brasil, denúncia dirigida à censura m ilitar: inadm issível blasfêm ia tais pinturas, com o tolerar nas paredes de tem plo católico, transm udados em anj os do Senhor, um negro j ogador de futebol e um escriba subversivo e pornográfico, referia-se a Pele e a m im , o alcaguete de batina estam pava nossos nom es na pasquinada.
Toninho aprovou a sugestão, Carlos Bastos voltou a residir na Bahia, ergueu casa na Pedra do Sal, som os vizinhos na fim bria do oceano, vizinhos iguais a ele e a Altam ir* estão por se inventar. Para o plenário da Assem bleia, Carlos executou painel m onum ental em fibra de vidro, o m aior do Brasil, em tam anho, em beleza não se com para. O tem a escolhido foi a procissão de Bom Jesus dos Navegantes, realiza-se na baía de Todos os Santos a cada prim eiro de j aneiro. O golfo coalhado de em barcações: saveiros, barcos a m otor, veleiros, barcaças, navios da Baiana, iates, ferry-boats, acom panham a im agem do santo protetor dos navegantes até a entrada da barra onde com eça o m ar Atlântico. Vinda de sua igrej a em Mar Grande, a im agem pernoita na igrej a da Conceição da Praia, Jesus em visita à Maria, sua m ãe, na versão dos reverendos, Oxalá em visita a Yem anj á, sua m ulher, na devoção das iy alorixás.
*Altamir Galimberti, artista plástico.
A ideia de Antônio Carlos era em barcar na galeota e nos barcos as personalidades intelectuais m ais em evidência na vida baiana, entre as quais ele próprio pois Toninho é m eu colega na Academ ia de Letras da Bahia e entre os egrégios não faz feio, herdou de Magalhães Neto, seu pai, a erudição e as letras — quanto aos epigram as, o pai era m estre na especialidade, os substituiu pelas frases de efeito, virulentas.
Aconteceu, é com preensível, um a correria de políticos e de notáveis: secretários de governo, desem bargadores, cônegos, coronéis, nobreza e clero, classes arm adas: todos queriam lugar nas em barcações, Carlos só faltou endoidar, os penetras chegavam de retrato em punho, diziam -se enviados pelo Governador. O painel, m aj estoso bem da cidade e do povo, enquanto esteve na sala de sessões foi atração para os habitantes e para os turistas em visitação.
Coube-m e organizar a relação dos privilegiados com direito a figurar na procissão, suj eitei-a a Toninho, reunião a sós, exam inou cada um dos nom es, acom panhava-os às vezes de um com entário ácido, num dente do siso esconde na boca gotas de vitríolo. Aqui e ali a constatação de um inim igo político no cais de em barque a m eu convite, para Toninho um introm etido, gratifica-o com um adj etivo córneo m as não lhe discute o direito à procissão. Vetou apenas um nom e de form a estrita: esse não, tenha paciência, é meu inimigo pessoal, fala mal de mim pelas esquinas, me trata de energúmeno.
Vetava Zitelm an Oliva, desem barcava-o aos xingos, se pudesse o afogaria nas im ediações de Itaparica. Zitelm an, diretor de j ornal, diretor de banco, m em bro do Tribunal de Contas e da Academ ia de Letras, articulista, de presença m arcante na vida cultural, com o ignorá-lo, deixá-lo em terra a chuchar o dedo?
Im possível ignorar o que existe e acontece, contestei o veto. Se Zitelm an não figurar no cortej o do Senhor dos Navegantes não será ele a ficar m alvisto, será Antônio Carlos, o governador: retirou Zitelman da procissão porque não gosta dele, só é intelectual de barco, a vela ou a motor, quem é amigo do chefão, aos desafetos demite da cultura, e por aí fui, argum entando, Toninho só ouvindo, por fim deu a m ão à palm atória:
— Tu tens razão, não sou m esquinho, dizem -m e vingativo sou apenas brioso, não engulo insultos. Deixe o suj eito no barco tom ara que o barco vire e ele se afogue.
Assim Zitelm an em barcou e acom panhou a procissão, o barco não virou, ele não se afogou, desapareceu com o todos nós, os outros passageiros, inclusive Antônio Carlos, quando o fogo consum iu o painel de Carlos Bastos, deixando a cidade ainda m ais pobre.
Vam os m udar a Bahia, esse o slogan da cam panha de 1986 quando da eleição do sucessor de João Durval Carneiro na governadoria, disputavam -na as correntes que apoiavam o governador em exercício e o cacique Antônio Carlos, e as que faziam violenta oposição ao governador, m ais ainda ao cacique. Num a e noutra form ação se m isturavam centro, esquerda e direita, o positivo e o negativo, o bom e o ruim , o inteligente e o burro, m as em hora de disputa política a burrice sem pre predom ina. Na oposição — vai ganhar as eleições, será governo — a m istura degenera em m ixórdia espantosa, vai de hom ens de talento, cidadãos íntegros, Waldir Pires, o poeta Capinan, ao que existe de m ais atrasado e reacionário. De m ãos dadas, os decentes e os salafrários, em coro altissonante, prom etem m udar a Bahia.
Ora, a verdade m anda dizer e reconhecer: quem m udou a Bahia foi Antônio Carlos Magalhães. Prim eiro a urbe, quando Prefeito. Acanhado burgo de província, em suas m ãos de adm inistrador virou a m etrópole que aí está. Rasgou avenidas, assentou bairros, construiu esgotos, não existiam , obra im popular, não traz votos, realizou reform as, retirou a cidade do m arasm o e a fez de novo e outra. Se m elhor para viver, não sei, pois sou de natural refratário aos grandes centros, prezo as cidades pequenas, por isso gosto de Paris, conglom erado de cidadezinhas, todas elas fascinantes, m as essa é outra história.
Governador (por três vezes) m udou o Estado: de agrícola e retrógrado transform ou-o em industrial e progressista, é preciso ser cego para não ver. Quem m udou a Bahia foi Antônio Carlos, todos sabem , inclusive os que o negam , com batem , querem acabar com ele: ferocidade e ódio. No político discutido, Toninho é a própria polêm ica, estim o sobretudo duas coisas: o sentim ento da Bahia que ele traz nas veias, entranhado sob a pele, e o am or à cultura que, j á o disse, herdou do pai, Magalhães Neto (autor de um epigram a m e gozando, pena não sabê-lo de m em ória para transcrevê-lo aqui).
Na relação dos artistas que deviam realizar painéis, colocar esculturas, quadros nas paredes, nos j ardins, nas salas do Centro Adm inistrativo, coloco o nom e de Juarez Paraíso, professor da Escola de Belas-Artes, desenhista, gravador, pintor, agitador cultural: figura na lista de pleno direito por se tratar de um dos principais artistas brasileiros, nada fica a dever aos dem ais, é um m estre. Mas é igualm ente personalidade difícil, esbarra, choca-se com outros artistas, inclusive é m alvisto pelos donos do poder, pelos m ilicos naquele então no auge da repressão. Por afirm ativo e m alcriado, Juarez cultivava desafetos nas áreas do elogio m útuo, o feto não pesava na balança da decisão do Governador a respeito de seu nom e, era o de m enos. O de m ais era a ação política, acusado de subversão Juarez acabara de sair de um a cadeia de m eses. Na im possibilidade de ocultar-lhe a posição de m ilitante de esquerda, ao propor-lhe o nom e castiguei nos elogios ao artista: para m im dos prim eiros da Bahia, eu o situo entre os principais.
— Não precisas exagerar na louvação — interrom peu-m e o m anda-chuva —, conheço e aprecio a obra de Juarez, quanto à cadeia não fui eu quem o prendeu, não discrim ino, bem o sabes.
Ficou acertado de pedra e cal que Juarez faria o painel para a Secretaria da Agricultura. Magro Pedro Archanj o no film e de Nelson Pereira dos Santos — o do m eu rom ance é gordo —, Juarez vivia na ocasião apertos de dinheiro com o sem pre viveu o personagem que encarnou, desej ava m ontar um atelier, faltava-lhe verba, a encom enda do Estado chegava na hora certa, m ão na roda. Na Escola de Belas-Artes Juarez m isturava ensino e criação por lhe faltar espaço seu, exclusivo, onde cavar a m adeira, m isturar as tintas, m alhar o ferro em brasa, o contrato prom etido ia-lhe fornecer a grana para o terreno em Itapuã onde arm ar a tenda. Elaborou o proj eto do painel, dos m ais belos, diferente de todos os dem ais na m atéria e na concepção, enviou-o à autoridade com petente, a autoridade com petente ao ver a assinatura perseguida engasgou-se, enfurnou o proj eto na gaveta das rej eições, os m ilicos aplaudiriam a decisão — quem sabe pensava estar prestando um favor a Toninho nem sem pre atento a tais detalhes. Os contratos iam sendo assinados com a rapidez exigida por Antônio Carlos para gáudio dos artistas que se punham ao trabalho, na Secretaria de Planej am ento j á se podiam adm irar a m atriz de Calasans Neto, no painel em m adeira a cidade da Bahia, e a escultura de Mário Cravo, A tentação de Santo Antônio, resgatada do abandono à chuva e ao tem po no j ardim do atelier. Cary bé trabalhava a parede da Secretaria de Finanças, Hansen Bahia a do quartel da Briosa Floriano a do prédio da Secretaria de Energia, Transporte e Com unicação, só o contrato de Juarez não se estabelecia. Pela m anhã e pela tarde o artista ia à repartição saber da encagaçada autoridade com petente a decisão sobre o contrato, volte amanhã lhe dizia a secretária ocupada em pintar as unhas, o doutor não está. Juarez foi se enchendo se encheu, dispôs-se a m andar recado ao diretor pela m oça das unhas cor de lacre: diga a ele para enfiar o contrato no rabo, não volto mais aqui, m as ao chegar ao local do crim e deparou com o fulano em vias de se esconder, não houve tem po, Juarez deu-lhe dois gritos. O cara se ofendeu, m eteu-se em brios: já que tanto quer saber lhe digo que o Governador não gostou de seu projeto e o recusou, fez mais, riscou seu nome da lista, até logo, passe bem.