Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 69 de 262

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Rio de Janeiro, 1960.

Será verdade? Sendo de caráter duvidoso, devo confessar que guardo da j ovem ex-prim eira-dam a, form osura m aior, elegância de tacos altos fulgindo ao sol do crepúsculo no hall do hotel, dela guardo viva lem brança — eu e os leitores de A Tarde, da Bahia — ainda lhe concedo a cam a presidencial por m ais pudico sej a o m andatário. Não o sei anacoreta nem capado, e Dana é um pedaço de m au cam inho, encruzilhada de Exu, passo perdido, o m istério que a envolve ainda não foi de todo desvendado, ainda aguardo o fim do enredo, que m eu am igo Dan Haulica m e per doe, m eu caráter é suspeitoso.

Rio de Janeiro, 1960.

 

Litígio

João Gilberto* ao telefone, aflito: — Jorginho, recebi um a convocação do j uiz para estar em São Paulo na quinta-feira, não posso ir, tenho program a de rádio, preciso de um advogado que m e represente. Você conhece todo m undo em São Paulo m e arranj e um , que sej a bom .

*João Gilberto, cantor e compositor.

Durante apresentação na capital paulista, Joãozinho desentendeu-se com um colega, rebentou o violão na cabeça do fulano, corre processo na j ustiça, o cantor da bossa-nova não sabe para onde se virar.

Prom eto cuidar do assunto, ligo para Luiz Coelho* em São Paulo, além de escritor de bons livros policiais, o único no Brasil, não sei de outro, Luiz é advogado de banca prestigiosa e boa-praça. Conto-lhe das peripécias de Joãozinho com o violão e de suas agonias j urídicas, no outro lado do interurbano Luiz escuta, ao cabo e ao fim responde:

*Luiz Coelho (1911/1975), escritor e advogado.

— Estou a par, m as infelizm ente não vou poder representar o João Gilberto. Vou te dar o nom e de três colegas, todos os três de prim eira ordem , qualquer deles ficará feliz de cuidar do caso — fornece nom es, endereços, telefones, horários: praça boníssim a, am igo prestim oso, Luiz Coelho.

Resta-m e um a pergunta e a faço:

— Tu não podes por quê? Vais viaj ar?

— Não, nada disso. É que sou o advogado da outra parte.

Rio de Janeiro, 1961.

Anticolonialismo

Ainda m uito j ovem , m as j á de extrem a com petência, Eduardo Portella viu-se nom eado presidente (ou diretor, não im porta: o chefão) do Instituto Afro-Asiático que Jânio Quadros acabara de criar. O Instituto foi um dos principais sustentáculos da política externa que Jânio buscou im plantar, rom pendo com a tradicional subm issão do Itam araty às ordens do Departam ento de Estado norte-am ericano: a política externa do Brasil era traçada em Washington. Eleito Presidente da República, Jânio Quadros, m aluco e visionário, rom peu com essa hum ilhante tradição, em sua m esa trabalho viam -se os retratos de Nasser, Nehru e Tito, o Brasil passou a figurar no m apa do terceiro m undo. Já é tem po de fazer-se j ustiça a aspectos positivos do governo de Jânio que significaram a ruptura com hábitos e posturas atrasados, retrógrados, com a m entalidade colonial dos governantes. Por essas e outras foi corrido do poder: a renúncia não passou da tentativa de sacudir a nação, levantar o povo para im pedir a deposição j á decidida nos quartéis, pelos m ilitares, de acordo com a em baixada dos Estados Unidos.

O Instituto Afro-Asiático significou tam bém o abandono do apoio do governo brasileiro, irrestrito, a Salazar e à ação colonialista do governo português, o reconhecim ento da guerra de libertação travada em Angola, Moçam bique, Guiné-Bissau. Pela prim eira vez órgão oficial do governo brasileiro ousou contestar o colonialism o lusitano. Entre outras m edidas revolucionárias — em prego o adj etivo em seu sentido m aior e não na esquerdizante lim itação ideológica —, tom adas pelo Instituto, vale a pena citar o fato de ter trazido ao Brasil um a delegação de guerrilheiros angolanos: com o golpe de 1964 foram presos e torturados, se não m e engano estava entre eles o poeta Costa Andrade.

Alguns nom es de conselheiros e funcionários do Instituto bastam para identificar-lhe a capacidade e os rum os: Josué de Castro, Maria Yeda Linhares, Fernando Henrique Cardoso, Cândido Mendes, Clarice Lispector, Jam es Am ado, José Mauro Gonçalves, nom es que dispensam com entários. Portella criou im portante coleção de livros, puxo pela m em ória, cito alguns títulos: Dois Caminhos da Revolução Africana, de Moacy r Werneck de Castro, Nacionalismo e Desenvolvimento, de Cândido Mendes, Contos Negros do Brasil, de Deoscóredes Maxim iliano dos Santos

— esse autor de nom e tão esdrúxulo outro não é senão o m estre Didi, dos candom blés da Bahia, filho de sangue de m ãe Senhora, venerável iy alorixá.

Com sua disposição para o estudo e para a adm inistração da cultura, Eduardo Portella não só trouxe para a m esa dos debates os problem as da África e da Ásia com o aj udou a traçar os cam inhos da política africana no Brasil. Com seu livro África, colônias e cúmplices deu-lhe régua e com passo. Sob sua direção, a revista Tempo Brasileiro divulgou ideias, definiu problem as, colaborou para a tom ada de posição de inúm eros intelectuais.

Portella, apenas nom eado, com a seriedade que o caracteriza, buscou de im ediato atualizar-se a respeito da realidade afro-asiática capacitar-se. Foi à livraria dos irm ãos Zahar, Jorge e Ernesto, e ali deixou encom enda sem tam anho: ensaios, estudos, rom ances, volum es de poesia, de Senghor a Césaire, passando por d'Arboussier, cartas geográficas, m apas-m úndi, livros de arte, um a biblioteca, em penhou os salários de um ano, fatura im ensa. Ernesto Zahar prom eteu urgência, ainda assim a carga preciosa dem orou a chegar ao Rio, consignada de Londres onde o correspondente dos Zahar havia reunido o m aterial procedente de Dakar e Tóquio, Lisboa e Luanda, Pequim e Hong Kong, Colom bo e Adis-Abeba e por aí vai.

Afinal chegou, um a dúzia de caixões de variadas dim ensões. Avisado, Portella correu à livraria, talão de cheque em punho, cam ionete para transportar as Áfricas, a árabe e a negra, as Ásias pegando fogo, recolheu m apas, álbuns de arte, o rom ance, a poesia, a livralhada, pagou a nota, um a fortuna. Arruinado e contente, tocou-se para casa. Antes m esm o de com eçar a abrir os caixões buscou-m e pelo telefone para alardear a boa-nova, foi m e encontrar na Livraria São José:

— Jorge, os livros...

— Eduardo? Te procurava feito doido. Já sabes ou não? O governo caiu, Jânio renunciou, os gorilas am eaçam não dar posse a Jango, a confusão é geral...

Do outro lado da linha, a voz m urcha de Portella: