Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 98 de 262

Páginas do PDF

Navegação de Cabotagem

Rio de Janeiro, 1935.

— Me diga, cam arada, é verdade que Gabriela m orreu num desastre de cam inhão?

O interesse dos presentes se refere às figuras da novela, seus destinos, para os que aqui a assistiram não existem lim ites entre a realidade e a ficção. Nossa acom panhante, irm ã do Ministro da Defesa, quer saber de Zélia se Mundinho Falcão e Gerusa, personagens, tinham se casado após o térm ino da transm issão. Zélia m e acusa de ter im pedido o m atrim ônio, suj eito m ais ruim .

Contam -m e que para m anter a pureza ideológica das m assas, a proj eção de cada capítulo era precedida e sucedida por um com entário a cargo de teórico do com itê central alertando sobre desvios e incorreções no conteúdo do enlatado. O com entário posterior durou pouco, deixaram de fazê-lo ao constatar que, ao fim do capítulo, os assistentes desligavam im ediatam ente os aparelhos. Os anteriores duraram até o últim o episódio, denunciando as im purezas da obra: os telespectadores, no receio de perder o com eço do capítulo, aturavam a aula de m arxism o-leninism o, preço a pagar.

Rio de Janeiro, 1935.

O funcionário público

Secretário de Educação do Distrito Federal na adm inistração de Pedro Ernesto, Anísio Teixeira m e convida para seu gabinete, um conto de réis por m ês, ordenado bem -vindo, sou pai de fam ília, m ulher e filha.

Com eço a trabalhar, trabalho m aneiro, cuido da agenda de Anísio, represento-o em alm oços, eis que acontece a quartelada de novem bro. Othales Marcondes leva Anísio de autom óvel para São Paulo a tem po de evitar a prisão do secretário dem issionário, lim po as gavetas do gabinete, caio fora antes da chegada da polícia.

Funcionário público pela prim eira e últim a vez, não com pleto um m ês no cargo, não dá sequer para receber o ordenado.

São João de Meriti, 1946.

A rede de casal

A casa, sim ples e agradável, situava-se no alto de pequena colina, a chácara toda m edia vinte e um m il m etros quadrados cobertos por oitocentas laranj eiras. Pés de toranj as de duas ou três variedades, lim eiras, lim oeiros, pés de fruta-pão, sapotizeiros, goiabeira, m angueiras, m am oeiros com pletavam o pom ar. Um a louca criação de aves — galinhas de raças, patuassus, gansos, m arrecos — anim ava o Pej i de Oxóssi, nosso esconderij o, situado entre Caxias e São João de Meriti, no Estado do Rio. Nele Zélia e eu curtim os enfim nossa lua-de-m el.

Vivíam os j untos desde j ulho de 1945, m as não nos sobrara tem po para nam orar tanto quanto desej aríam os: eu dirigia o quotidiano paulista do Partido Com unista, o Hoje, tarefa que tom ava a m aior parte de m eu tem po, Zélia se revelara im batível ativista da Com issão de Finanças. Com o se fosse pouco, a cam panha eleitoral com eçara. Candidato a deputado federal, eu saía nos fins de tarde para com ícios noturnos no interior, chegava pela m adrugada. Resolvem os transferir a lua-de-m el para depois das lições.

As eleições realizaram -se em novem bro, deputado eleito deixei com a direção do Partido m inha carta de renúncia, partim os de viagem eu e Zélia. Viagem de núpcias, j á era tem po. Apenas com eçávam os a sentir o sabor da lua-de-m el, passáram os alguns dias no Rio Grande do Sul, na chácara de Henrique Scliar, estávam os no Uruguai, devíam os ir a Buenos Aires, quando chegou telegram a urgente de Prestes reclam ando m inha presença no Rio daí a três dias. Com una enquadrado, tom ei o prim eiro avião para o Brasil, Zélia com igo, ansioso para saber o m otivo da intem pestiva convocação.

Outro não era que o de tom ar posse da cadeira de deputado. Ora, eu condicionara a aceitação de m inha candidatura — escritor j á bastante popular, m eu nom e traria votos para a legenda do Partido — à garantia de que, se eleito, renunciaria ao m andato dando lugar à convocação do suplente. Queria retornar a m eu trabalho literário, j á bastante com prom etido pela atividade de m ilitante. Recordei a Prestes o com prom isso assum ido pela direção. Antes de viaj ar entregara a Arruda Câm ara o docum ento de renúncia. Prestes estava a par, salientou que fora ele quem levara a direção a adm itir a m inha exigência — podia um m ilitante por acaso fazer naquele então qualquer exigência, j usta, m ínim a, fosse qual fosse, ao Partido? Por isso m esm o sentia-se no direito de apelar para m inha consciência de com unista responsável: que iriam dizer aqueles eleitores que tinham votado em m im , sobretudo os não-com unistas, se eu não assum isse? Iriam acusar o Partido de ter usado m eu nom e para obter votos, estratagem a suj o, m alandragem , os inim igos se aproveitariam para fazer a m aior exploração e por aí afora, aquela argum entação. Propôs-m e assum ir o m andato por três m eses e então efetivar a renúncia. Três m eses, nem um dia a m ais, assegurou-m e Prestes.

Resolvem os não alugar apartam ento no Rio onde certam ente o Partido m e sobrecarregaria de tarefas, além das decorrentes do trabalho parlam entar, e ocuparia o tem po de Zélia, a Com issão Nacional de Finanças am eaçava requisitá-la. Na intenção de escrever um rom ance j á am adurecido na cabeça, Seara Vermelha, preferi ficar o m ais longe possível do Com itê Central. Assim adquirim os o sítio de laranj eiras e nele vivem os durante ano e m eio: um caseiro bastava para cuidar das plantações e das aves: as aves m erecem capítulo à parte. Nina, sua filha, se ocupava da casa.

O casal húngaro que plantara o terreno e elevara a casa tinha o gosto europeu do conforto e, ao lado da vivenda, à som bra das árvores, construíra um a espécie de pátio, local de lazer, sítio de repouso. Enredadeiras subiam pelos pilares de alvenaria, flores explodiam em cada recanto, m esa rústica onde pousar pratos e copos, garrafas, sobre as laj es do chão espreguiçadeiras estendidas, penduradas dos galhos das m angueiras redes cearenses, brancas e am plas, de varandas bordadas, redes de casal. Assim era o Pej i de Oxóssi, pequeno paraíso.

Ali transam os, indóceis, adoidados, nossa tão adiada lua-de-m el. Zélia parecia um a m enina; o alem ão, nosso vizinho, pensava que ela fosse m inha filha, aliás passei a vida ouvindo a m esm a repetida pergunta sobre Zélia: é sua filha?

Acordava cedíssim o, trabalhava no rom ance boa parte da m anhã, por vezes a ele voltava à noite — ah, o bom tem po em que varava a noite batucando na m áquina cenas e capítulos. Após o alm oço, às treze horas, tom ava um carro de aluguel, contratado por m ês para m e levar e trazer do Pej i a Caxias — os dez por cento dos proventos de deputado que o Partido m e deixava davam exatos para pagar essa condução: eu devia viver de m eus direitos autorais, segundo a direção. Em Caxias em barcava no ônibus que m e depositava na Praça Mauá, daí trotava até o Palácio Tiradentes onde funcionava a Assem bleia Nacional Constituinte form ada pela Câm ara e pelo Senado reunidos. A sessão com eçava às quatorze horas, eu assistia, participava — extrem am ente ativo na Com issão de Educação e Cultura —, quando os trabalhos se encerravam fazia o cam inho de volta, em geral chegava em casa entre sete e oito horas da noite. Por vezes, em dias de sessão noturna, não tinha hora de chegar.