Navegação de Cabotagem
Taipa, 1970.
Em Rangoon chovia sem parar, nossos agasalhos na bagagem perdida, fartos de debater o assunto criam os m ulta em dinheiro para quem se referisse a las valijas, Pablo fugia ao pagam ento referindo-se a las inombrables, eu pendurava-m e ao telefone tentando contactar o cônsul brasileiro de Calcutá, j am ais consegui com pletar a ligação. Nas ruas, acreditando-nos norte-am ericanos, os nacionalistas exaltados nos insultavam , nos am eaçavam , o que devíam os fazer? Apanhar sem revidar, aplaudindo a surra anti-im perialista ou nos j untarm os a eles na m anifestação subversiva correndo perigo de cadeia birm anesa?
Em Rangoon com em oram os o dois de j ulho, data da independência da Bahia e do aniversário de Zélia. Para os festej os, Pablo escreveu um poem a, só m e recordo do prim eiro verso: En este Rangoon de mierda...
Aproveito a bagagem desaparecida — perdida para sempre, pensei na ocasião, na China a recuperamos mês e meio depois de tê-la abandonado em Madras, como foi parar em Pequim até hoje não sei, milagres acontecem até nos países comunistas, Buda é grande e Mao é seu profeta — aproveito a arrumação das bolsas de viagem no atropelo da alfândega hindu para revelar de público, com veemência e asco, minha repulsa a duas peças do vestuário feminino.
Os peitorais, que horror! Podem designá-los com o nome que ferirem — os pomposos: corpete, porta-seios, os graciosos: corpinho, sutiã — para mim esses panos que as mulheres amarram no peito para esconder e deformar os seios são peitorais medievais e na maioria feios. Mesmo os pequeninos, leves, finos, bonitinhos, de filo e renda que mais mostram do que escondem, mesmo esses destinados à prática da sacanagem marcam e alteram o viço dos seios, desfiguram e enfeiam Os seios devem viver soltos sob o vestido, a blusa, a bata — ah, o vislumbre dos seios negros no decote da bata das baianas vendedoras de acarajé, gostosura maior do tabuleiro — por que ter vergonha dos seios, escondê-los como se fossem deformações, obscenidades? Soltos sob o vestido, ainda mais desejáveis do que na exibição do topless.
Que dizer, então, das monstruosas cintas de borracha que as mulheres usam para comprimir, reduzir, esmagar a bunda no desejo de aparentar o visual de esqueleto — os ossos estão em moda, moda mais burra, quem gosta de osso é cachorro já dizia seu Ernesto, pai de Zélia, amante da boa carne. As tais cintas, sucessoras dos cintos de castidade da Idade Média, deformam, maltratam, magoam a parte mais formosa e delicada da anatomia feminina. Refiro-me à bunda em seu conjunto, em sua complexidade, com as riquezas que contém na frente e atrás, em cima e embaixo, não preciso enumerá-las. Tenho por essas cintas de borracha, ou do que sejam, mais do que aversão, tenho repugnância, são medonhas e, ademais, cheiram mal — nunca cheirei nenhuma, mas estou convencido de que fedem. Mulher metida numa dessas cintas vira robô, avantesma, quem teve curiosidade de ver, ficou sabendo.
Devia-se votar uma lei nos parlamentos do mundo proibindo por anti-higiênico e antiestético o uso de sutiã e de cintas, lanço meu grito de guerra: liberdade para os seios e as bundas, basta de opressão! A beleza deve ser exibida, não há por que escondê-la, dela se envergonhar. Encabeço um manifesto de repúdio aos peitorais e às cintas de borracha (e similares) — já conto com três assinaturas além da minha: a de Carybé, a de René Depestre e a de meu genro Pedro Costa, pessoas as três de reconhecido bom gosto.
Taipa, 1970.
O busto