Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 103 de 262

Páginas do PDF

Navegação de Cabotagem

Madri, 1966.

Esse prêm io nacional coroa a obra de um a tradutora excepcional, coroa igualm ente um devotam ento de todos os instantes, m uito devem os a Alice, bate-se por nós, ergue alto as bandeiras de nossa ficção e de nossa poesia. Eu a encontro às voltas com os pernas de Ferreira Gullar, após haver term inado a tradução Livro de Histórias do paj é da ilha de Itaparica, com padre João

Ubaldo. Não sabe apenas de seus traduzidos, sabe de todos os dem ais que valem a pena, é devota de Moacy r Scliar e de Márcio de Souza, de Fernando Sabino e de Inácio de Loy ola Brandão Quanto a m im , além da tradução de ao m enos m eia dúzia de rom ances, devo-lhe o livro de Conversations, m eu retrato de corpo inteiro na m oldura da am izade.

Autor feliz por ter tido tradutores da qualidade de Conrad Detrez, Jean Orecchioni, Georges Boisvert, Isabel Mey relles, a eles e a Alice devo m eu público de língua francesa. Jack Lang dá-m e a palavra, digo apenas que sou m elhor escritor nas traduções de Alice Raillard do que nos originais em língua portuguesa.

Madri, 1966.

Tudo azul

Preparo a viagem à Europa de toda a fam ília, Zélia, João Jorge, Palom a e eu: João voltou ao Brasil em 1952 falando tcheco com acento francês, tinha cinco anos de idade, Palom a nascera em Praga. Desej am os m ostrar a Europa a nossos filhos adolescentes, estabelecem os ao sabor das circunstâncias políticas um roteiro para excursão que durará os m eses das férias escolares. Obtive o visto espanhol que até então m e fora negado, em troca a entrada em Portugal m e foi recusada m ais um a vez, com pro passagens em pequeno navio cuj o porto de destino é Vigo, na Galícia, com escalas nas Canárias e em Lisboa. Dizia-se "os navios dos galegos" a esses barcos m odestos, quase fam iliares, pois neles em barcavam e deles desem barcavam os galegos da Bahia em visita a Pontevedra. Se a recusa portuguesa m e incom odava, não conhecer Portugal era um a das tristezas de m inha vida, derrotava-m e a im possibilidade de ir à França, não poder voltar a Paris, andar no Boul'Mich' com João, com o costum ávam os fazer, ele m enino: festej ou no Hotel Saint Michel seu prim eiro aniversário, não poder iniciar Palom a nas belezas da cidade tão am ada, m ostrar-lhe a Notre Dam e e o Louvre.

Lem brei-m e de que am igos m eus, Anna Seghers, Pietro Nenni, expulsos da França pelas m esm as razões que eu e Zélia pediam e obtinham visto de entrada quando necessitavam vir às reuniões do Movim ento da Paz; um visto especial, lim itado no tem po: no m áxim o quinze dias, e no espaço: circulação reduzida a determ inados lugares. Escrevi então um a carta a Guilherm e Figueiredo, ao tem po exercendo as funções de adido cultural na Em baixada do Brasil, um adido diferente: não fez do cargo m ordom ia, trabalhou pela difusão da cultura brasileira, não procurou traduzir e editar livro seu, e sim dos confrades.

Conhecia e era am igo de Guilherm e de toda a vida, ao m enos de toda a vida literária: creio ter sido dos prim eiros a saudar a estreia Ao rom ancista com artigo entusiasta quando da publicação de Trinta anos sem paisagem. Juntos lutam os contra o Estado Novo — luta que levara o pai de Guilherm e, general Euclides Figueiredo, à prisão por longos anos —, concordam os e discordam os nas reuniões e congressos da ABDE*, ele da esquerda dem ocrática, eu com unista, nossa am izade se reforçou nas diferenças. Visto com olhos de suspeita pelos sectários do pecê, Guilherm e era autor popularíssim o na União Soviética e nos países de dem ocracia popular, sua dram aturgia — As raposas e as uvas, Um Deus dormiu lá em casa, para citar apenas duas peças — triunfava nos teatros do m undo socialista, de Moscou a Pequim , de Praga a Sofia, de Varsóvia a Bucareste e Budapeste: os dem ais autores brasileiros não lhe chegavam aos pés em popularidade.

*Associação Brasileira de Escritores, fundada em 1944.

Escrevi carta a Guilherm e recordando m inha situação, infeliz sem direito a entrada e perm anência na França, Zélia em idênticas condições, referi-m e ao tal visto especial, pedi-lhe para se inform ar sobre o que devíam os fazer para recebê-lo. A resposta não tardou, além das explicações, a papelada que eu e Zélia deveríam os preencher solicitando os vistos excepcionais. Nosso pedido seria considerado pelas autoridades, Guilherm e acreditava que obteríam os quinze dias em Paris. Vibram os de entusiasm o ante a perspectiva de m ostrar Paris a Palom a, rever com João o Jardim do Luxem burgo: preenchem os a papelada, j untam os as fotos requeridas, botei o envelopão no correio para Guilherm e. Em barcaríam os para Vigo daí a quatro dias, pedi que ele, se a conseguis-se, rem etesse a autorização de entrada para a em baixada do Brasil em Madri.

Partim os com a decepção de não poder descer em Portugal, m as com a ilusão de visto francês, m esm o lim itado, um a coisa com pensava a outra. Em Lisboa recebem os a boa-nova: as autoridades lusas nos perm itiam desem barcar desde que m inha presença não fosse notícia na im prensa, as esperanças parisienses cresceram : o governo do general De Gaulle não haveria de ser m ais drástico do que o de Salazar.

Andam os a Galícia, seguim os de trem para Madri, na Em baixada encontrei telegram a de Guilherm e: tudo azul, pode vir tranquilo, só faltei desm aiar de em oção. Quinze dias depois, de autom óvel, chegávam os à fronteira da Espanha com a França, as crianças na m aior anim ação, Zélia e eu inquietos, tem endo o controle da polícia francesa. Apresentam os os passaportes, o policial os exam inou, pôs-lhes os carim bos de entrada, entram os. Em Paris, num restaurante de Les Halles, o Les Halles antigo, o de m ercado de alim entação, diante de um a perna de j avali e de um vinho tinto generoso, Guilherm e nos contou com o as coisas se passaram .

Recebidos os m ateriais que eu lhe m andara, os pedidos de visto, fora em pessoa levá-los à repartição com petente do Ministério do Interior, ou sej a, da polícia, e os entregara ao funcionário de serviço. Enquanto ele os protocolava e determ inava prazo para a resposta, Guilherm e, im pulsivo de natureza e de fam ília, foi se enchendo, acum ulando raiva, o sangue lhe subia à cabeça. Assim , quando o funcionário lhe estendeu as senhas com os núm eros dos processos, ele recusou recebê-las e pediu de volta a papelada. Segundo m e contou, desej ou rasgá-la ali m esm o nas fuças do m onsieur, tão indignado estava com a hum ilhação a que nos suj eitavam , a m im e a Zélia, as autoridades francesas, m as sentiu-se coibido devido à m issão diplom ática que exercia. Conhecendo-o com o o conheço, ainda hoj e m e pergunto se não será verdadeira a versão corrente, os papéis rasgados ali m esm o, ante o assom bro do senhor do m inistério.

De volta à casa, na rua Tilsitt — nom e de rua, título de rom ance de Guilherm e — ainda arfante de raiva, escreveu carta a André Malraux, Ministro da Cultura, expôs-lhe os fatos a partir da decisão do governo Jules Moche, tom ada e posta em execução em dezem bro de 1949, até a solicitação de visto especial, de apenas alguns dias com circulação lim itada: veja, caro Ministro, como é tratado na França um escritor brasileiro. Carta enviada, três dias depois Guilherm e é convocado ao Ministério das Relações Exteriores: no Quai d'Orsay lhe com unicam que haviam sido canceladas todas as m edidas tom adas contra m im e Zélia há dezesseis anos por um governo subm isso aos vaivéns da guerra fria.

Não apenas nós tivem os perm issão de voltar à França e de am á-la de corpo presente — todos os dem ais a quem na m esm a ocasião foram negadas perm anência e entrada em território francês tiveram seus direitos restabelecidos e entre eles se encontravam Pablo Neruda, Mário Schem berg, Carlos Scliar, Ana Stela Schic, Jacques Danon, vinte outros, pelo m enos.

Em certa ocasião, não podendo m ais suportar o exílio das ruas de Paris, Neruda entrara de autom óvel pela fronteira da Suíça, não lhe pediram o passaporte, feliz da vida hospedou-se em casa de am igos no subúrbio, de onde foi retirado pela polícia dois dias depois e colocado na m esm a fronteira com a Suíça. Tam bém Carlos Scliar, convidado ao vernissage de exposição de nossa am iga Vieira da Silva tom ou o avião — tanto tem po passado, m ais de dez anos, im aginou term inadas as restrições —, desem barcou no aeroporto de Paris, entregou o passaporte, o policial consultou o livrinho, aquele, viu-lhe o nom e, quiseram em barcá-lo de volta para o Brasil no prim eiro vôo, Carlitos teve a m aior dificuldade em obter que o deixassem seguir para a Bélgica. Conform e se com prova não som os apenas nós, Zélia e eu, que devem os o privilégio da França a Guilherm e Figueiredo e a André Malraux.

Tudo azul, ainda bem : obrigado, am igo e com panheiro, m erci, Guilherm e Figueiredo.

Tantas vezes passei diante da casa de Jacques Prévert na Cite Vernon, nas proximidades do Moulin Rouge, sinto pena de não ter tocado à porta: Jacques, sou eu, venho do Brasil, sei teus versos, escuta: "jamais d'été jamais d'hiver/jamais d'automne ni de printemps/ simplement le beau temps tout le temps", uma estrofe de Barbara: "quelle connerie la guerre", é epígrafe de romance meu, temos o mesmo horror à guerra, o mesmo amor à gente simples. Os presunçosos, os fátuos, os cheios-de-si não amam teus versos, são incapazes da poesia. Faltou-me coragem de chamar-lhe à porta, o medo de incomodar, de ser intruso.

Pensei em ir ver Erskine Caldwell* ao sabê-lo em Paris a caminho da Bulgária. Venho de longe, lhe diria, em 1937, em Nova York, assisti a A Estrada do Tabaco, depois vi o filme de John Ford, devorei os teus romances, acho que nos parecemos ao contemplar o campo e recriar a vida como o pequeno pode se parecer com o grande Igual a ti eu desejei que os países tivessem um Ministério da Paz em vez de um Ministério da Guerra como ocorre para desgraça dos povos. Além do receio de molestas não tive ânimo de roubar tempo ao romancista, é curto o tempo de criar e de viver.

*Erskine Caldwell (1903/1987), escritor norte-americano.

Eu estava em Moscou quando os escritores festejaram os oitenta e cinco anos de Serafimovitch. Torrente de ferro foi um dos primeiros romances soviéticos que eu li, e que romance! Desejei me incorporar ao grupo de confrades russos que ia cumprimentá-lo, não quis passar por intrometido, perdi a ocasião de conhecer alguém que me influenciara.

Por medo, por pudor, por timidez, deixei de expressar minha admiração, dizer de minha estima, de meu amor fraterno a tantos de quem fui devoto, invade-me o desgosto. No caso de André Malraux, porém, meu sentimento é de remorso, pois dele eu era devedor, jamais pude lhe dizer de minha gratidão. Admirava-o desde a juventude, da leitura de La Condition Humaine, há cenas do romance que se me gravaram na cabeça, ainda hoje as vejo como numa tela de cinema, penso que li toda sua obra de ficção, de Les Conquérants a L'Espoir.