Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 110 de 262

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Moscou, 1951.

As reedições de meus livros saem iguais às primeiras, apenas as gralhas vão em constante aumento, Paloma, que os andou relendo para saber o que os personagens comem, me informa que os erros gráficos se contam por milhares. Tampouco jamais buli nas dedicatórias, também elas são datadas — mesmo em se tratando de pessoas a quem deixei de estimar nem assim lhes retirei o nome da oferenda mesmo se retirei o indivíduo do meu bem-querer. Refiro-me, é claro, às edições brasileiras, as traduções escapam a meu controle. Lá estão os nomes todos, um a um — quando escrevi o livro estimava ou admirava o fulano a quem o dediquei, se depois ele se revelou calhorda, o nome permanece na dedicatória datando a escrita e a ingenuidade do autor.

Moscou, 1951.

Carta

Com cuidado extrem o, Fedor Keliin abre a pasta de couro, retira a de papelão, de entre as folhas de papel alm aço que o protegem extrai o m anuscrito am arelado, bem inestim ável, relíquia: carta de Máxim o Gorki de punho e letra.

A Fedor Keliin m uito deveram as literaturas de línguas portuguesa e espanhola, hispanista histórico traduziu e divulgou na URSS autores da península ibérica e da Am érica Latina. Houve quem o criticasse por colocar m étrica e rim a nos poem as de versos livres de Neruda — em russo sou êmulo de Puskin, gracej a Pablo —, a verdade é que o bom Keliin se bateu por nossas letras j unto às editoras e às revistas literárias. Nos idos de trinta se batia por Eça de Queiroz sem obter êxito, as editoras fechavam as portas ao rom ancista português.

Exibe-m e a cada, vej o a letra de Gorki no alfabeto cirílico, o russo é autor de m inha devoção, com ele aprendi a am ar os vagabundos, devorei-lhe os contos, os rom ances, o teatro, na prim eira viagem à União Soviética corria a ver Bas-Fond declam ado em língua de gringo com unista, só faltei chorar. Keliin m e conta o episódio da carta que lhe deu a vitória na pelej a com o sectarism o dos editores.

Eça havia sido traduzido nos com eços do século, um único livro, depois da Revolução de Outubro não voltara às livrarias. Os originais da tradução de O crime do Padre Amaro sob o sovaco, Keliin ia de editora em editora. Desesperava-se quando Gorki retornou da Itália e passou a com andar a vida literária, decidiu escrever-lhe expondo o problem a, pedindo sua intervenção j unto às editoras. Não esperava resposta, intervenção talvez, arriscar não custa. Recebeu resposta, aquela carta que ufano m e m ostrava no quarto do Hotel Metropol.

Aponta-m e com o dedo um a linha, traduz a frase de Gorki sobre o autor de Os Maias: Eça de Queiroz é um dos cumes do romance mundial. É preciso dizer que não dem orou a aparecer nas livrarias a tradução de O crime do Padre Amaro?. Logo seguida pela de A relíquia, Keliin não costum ava dorm ir no ponto.

Fedor Keliin recolhe o m anuscrito entre as folhas de papel alm aço, coloca-o na pasta de papelão que guarda na velha pasta de couro, trazida da Espanha, lá estivera, no front de Madri, durante a guerra.

Rio de Janeiro, 1961.