Navegação de Cabotagem
Bahia, 1956.
Eis que o cortej o atinge o fim , a população de Vilarinho das Furnas rem onta a serra, os últim os a partir levam o caixão de defunto que transportava os m ortos para o cem itério: um único caixão, bastava para todos.
Bahia, 1956.
O proxeneta
Acerto com m inha am iga Maria de São Pedro*, m ãos de fada no tem pero das m oquecas, alm oço de arrom ba para convidados portugueses, escritores presentes às Jornada Luso-Brasileiras. O restaurante de Maria de São Pedro situa-se no velho Mercado Modelo, o prim eiro, o verdadeiro, atende saveiristas, com erciários, a fam a da cozinha de m inha com adre ainda não se espalhara, três ou quatro intelectuais o frequentam os: Wilson Lins, Odorico Tavares, Godofredo Filho, eu próprio. Assim com eçou a celebridade, hoj e o restaurante que ostenta o nom e da grande cozinheira, no novo Mercado, é atração turística. Não desonra o antigo: Luiz Dom ingos, filho de Maria de São Pedro, obá de Xangô, cultua os orixás e zela pela m em ória daquela que foi m estra m aior na arte da cozinha.
*Maria de São Pedro dos Santos (1901/1958).
Proponho a Maria fechar o restaurante ao público a partir das treze horas, quando a freguesia habitual j á foi servida, para receber m eus convidados. Tirante o pintor Cícero Dias, que realiza exposição retrospectiva no Museu de Arte Moderna — no hall do Teatro Castro Alves —, os outros com ensais são portugueses ilustres: Joaquim Paço d'Arcos e Maria da Graça, sua esposa, João Gaspar Sim ões e Isabel da Nóbrega, na ocasião m arido e m ulher, Jorge de Sena, Adolfo Casais Monteiro, Urbano Tavares Rodrigues, não m e lem bro de todos, coubem os apertados num a Kom bi. Alm oço de alta qualidade, o esplendor da cozinha baiana, do arroz de haussá ao efó, do vatapá à m oqueca de siri m ole, do caruru à galinha de xinxim , ao quitandê, os m ondrongos lam beram os beiços, a conversa decorreu cordial, apesar de se encontrarem à m esa adversários políticos, inim igos de m orte. Tarefa ingente, eu reunira figuras ligadas ao governo português e opositores ferozes do salazarism o. Sendo eu próprio opositor feroz, não discrim inei: j am ais discrim inei fosse quem fosse por pensar dessa ou daquela m aneira. Tudo correu bem , pois eram educados uns e outros e a Bahia é a pátria da convivência e do com edim ento.
Na volta para o hotel m andei o chofer parar a Kom bi por um m om ento na Ladeira da Montanha diante dos castelos ali estabelecidos, nas portas e j anelas putas sem inuas pautavam os dentes, acenaram convites. Inform ei aos nobres congressistas de além -m ar:
— Aqui se localiza, com o vêem , parte do m eretrício da cidade, existem castelos tam bém na Praça da Sé, na Ladeira de São Francisco, e até na Barra Avenida, castelos de luxo, preços salgados. Esses daqui não são tão caros, no Pelourinho e na Carne Seca estão os barateiros.
Atentos, portugueses e portuguesas ouviam em silêncio m inha dissertação sobre o m eretrício da cidade. Sério, com penetrado, apontei o fam oso puteiro de Mãezinha, onde exerciam francesas, portenhas e m ulatas nacionais: baixando a voz, revelei: