Navegação de Cabotagem
Bahia, 1966.
Juarez apareceu-m e na m aior frustração à porta da casa do Rio Verm elho, não quis entrar, não queria incom odar, não era de incom odar. Queria apenas m e agradecer o esforço feito para lhe obter a encom enda do painel, tudo fora por água abaixo inclusive o sonho do atelier, o diretor acabara de lhe inform ar da recusa do Governador, não gostara do proj eto e recusava trabalho a artista contestatário, saíra da lista do Centro por estar na lista negra dos gorilas. Não sendo de em prenhar pelos ouvidos, resolvi tirar a coisa a lim po:
— Antônio Carlos boicotou teu nom e? Não acredito.
Obriguei Juarez a entrar e a sentar-se, Eunice foi buscar-lhe um cafezinho, liguei o telefone para Ondina, pedi para falar com Antônio Carlos, m andaram -m e esperar, ouvi-lhe a voz e a pilhéria habitual, encurtei conversa, perguntei-lhe o que achara de ruim no proj eto de Juarez e por que m udara de opinião sobre o artista. Que história é essa de proj eto? — pediu explicação, expliquei: o fulano lá do Centro disse que recusaste o proj eto e riscaste da lista o nom e de Juarez. Toninho tem pavio curto:
— Não vi o proj eto, pensava que ainda não o havia term inado, não cortei o nom e de ninguém , são esses cagões que se borram de m edo, não se atrevem a assinar contrato com alguém que esteve preso. Um bando de capados, é o que m ais tem . Diga ao Juarez que estej a hoj e às quatorze horas — eram dez da m anhã — no Centro, sem falta, para assinar o contrato. Se houver qualquer dificuldade que ele m e telefone.
Não houve dificuldade, os cagões tinham m ais m edo de Antônio Carlos do que do SNI*, assinaram . Toninho pode ter defeitos, todos tem os, m as não é hom em de se encagaçar. Bem haj a, com o dizia na terrinha o m ondrongo seu avô, lá dele.
*Serviço Nacional de Informações, uma das várias polícias políticas.
Bahia, 1966.
Giovanni
Era m anhãzinha, apressados Mirabeau e eu saltam os do carro, entram os na clínica, no quarto Jacy * e o m édico, aproxim am o-nos da cam a, o olhar de Giovanni nos localiza, ardente, logo a luz foge-lhe da retina, esperara nossa chegada para m orrer.
*Jacy, mulher de Giovanni Guimarães.
Am igos desde a infância, nos conhecêram os no Colégio Antônio Vieira dos padres j esuítas, nos com eços dos anos vinte, j untos havíam os convivido e m ilitado: nas redações, na Aliança Nacional Libertadora, no Partido — m em bros Giovanni e eu, Mirabeau sim patizante — nas pistas de dança do Tabaris, nas m esas de j ogo do Palace, nas casas e nos seios das putas, j untos os três e m ais alguns fiéis da am izade, Vadinho entre eles. Giovanni esperara que nós chegássem os para m orrer, nós lhe trazíam os a vida inteira, a baderna, a gargalhada, o bom hum or contagiante, o deboche, a lealdade, a decência e a ternura: o boêm io inveterado fizera-se pai de fam ília tranquilo. Na hora da m orte, ao pé do leito de Giovanni Guim arães, nosso parceiro, nosso chapa, nosso com panheiro e cam arada, nosso irm ão m abaça, Mirabeau e eu depositam os a alegria de viver. O dia que com eça j á não será igual ao de ontem quando na porta do edifício o despedim os, ia passar o fim da sem ana na fazenda — latifundiário explorador, lhe atiram os ao rosto, ele dobrou a gargalhada, a sua — de lá retornou na coragem e nos braços de Jacy, o coração ferido, esperou que chegássem os para m orrer.