Navegação de Cabotagem
Paris, 1949.
Albert Camus
Posso dizer que conheci Albert Cam us? Um a única vez o vi, quase de relance, ele saía da sala de Claude Gallim ard, na editora, eu entrava, fom os apresentados, fitei-o boquiaberto, ele m e sorriu, apertam o-nos as m ãos, não voltei a vê-lo, aconteceu em fins de 1949.
Não lhe agradeci sequer o artigo que dez anos antes escrevera saudando o lançam ento da edição francesa de Jubiabá, devo ter passado por presunçoso ou descortês m as com o fazê-lo se eu não sabia da existência daquele texto? Som ente em 1989 dele vim a tom ar conhecim ento, pude lê-lo e sentir-m e grato. Im agino com o m e teria exacerbado a vaidade se o houvesse lido em 1939 quando foi publicado.
Roger Grenier que m e dá a honra de sua estim a, especialista dos estudos sobre Cam us, tendo vindo nos visitar, recordou o artigo, espantou-se ao saber que eu não o conhecia, m andou-m e cópia fotostática. Só então entendi o sorriso de Albert Cam us quando nos vim os por um instante na porta do gabinete de Claude Gallim ard.
Praga, natal de 1953.
Solidão
O m eu clim a não é solidão. Sou da convivência, gosto de estar com as pessoas, conversar e rir, sou de natureza solidária. Sei no entanto o que a solidão significa, por m ais de um a vez nela m ergulhei, m e senti sozinho, abandonado, o coração trespassado de anseios e de saudade, na desolação, no deserto, nada existe de pior.
Viera de Viena para Praga de autom óvel, cadeias nas rodas do carro, m archa lenta sobre a neve, pensei que não chegaríam os, enfim chegam os. De Praga deveria ir de avião a Copenhague, tinha passagem na Scandinavian Airlines para o Rio de Janeiro, onde chegaria a tem po de passar o Natal em casa, com os m eus. O inverno, de rigor incom um , fechara o aeroporto de Praga, nada a fazer senão esperar.
Na véspera de Natal, perdida a esperança de alcançar o Rio para a ceia e a confraternização, sou inform ado ao m eio-dia, na recepção do Hotel Alcron, que será posto no m eu quarto um prato com frios, pois o restaurante não funcionará para o j antar, tam pouco qualquer outro serviço: noite de natal, noite em que as fam ílias se reúnem .
Canso-m e de ler, a cabeça longe, saio para a rua, desço a Praça de Venceslau, vazia, não há viva alm a nem corpo vivo, ninguém , absolutam ente ninguém , os hotéis fechados, os bares, as cervej arias, estou sozinho, eu e som ente eu na noite de Natal em Praga. Percorro as ruas, chego à Praça Velha sem encontrar vivente, sequer um cão vadio, um gato vagabundo. E os am igos? São m uitos m as não m e atrevi a incom odar nenhum , estão com os fam iliares, celebrando.
A neve cai, o frio m e atravessa, avantesm a em Praga, penso nos m eus, o coração pesado, aprendo a solidão de um a vez e para sem pre.