Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 223 de 262

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Navegação de Cabotagem

Dakar, 1979.

*Dodik e Gwen Jegou, ceramista e escultor franceses.

Tom o um táxi, são setenta quilôm etros de estrada, o chofer não garante chegar antes do trem a Saint-Malo: se for trem parador — existem três estações entre Rennes e Saint-Malo —, é bem possível, se for direto não conseguiremos. Era direto, na gare não estava m ais ninguém , consegui recuperar m aleta, bolsas e boné deixados sobre os bancos. Sobrecarregado pergunto a um chofer se sabe onde fica, no entrem uros, o atelier dos Jegou, ele sabe, Dodik e Gwen têm presença m arcante na região, vai m e conduzir. Acaba de m e anunciar que estam os perto quando vej o e reconheço a fachada do hotel onde nos hospedáram os dois anos antes, eu e Zélia. Mando o chofer parar, pago o devido, retiro as bolsas, a m aleta, apresento-m e na portaria, pergunto pelos sum idos. Sim , ali se encontravam hospedados, reservas feitas por Dodik, a recepcionista liga para o quarto, Zélia atende recupero a nam orada, reencontro o casal de am igos, divertem -se com m eu relato, dépechez-vous. No trem , Calá j á se divertira às pam pas, declarara: Raoni* abandonou a tribo. Quem quiser viaj ar em riso e bom hum or deve viaj ar em com panhia de Calá.

*Chefe indígena muito em vista na ocasião.

Da aventura resultou um a dúvida, ainda persiste. O hotel próxim o ao atelier de Dodik e Gwen, não era o m esm o em que tínham os nos hospedado na estada anterior, situavam -se em lados opostos da cidade, como eu adivinhara que eles ali estavam? Discuto, não aceito a afirm ação do hotel não ser o m esm o onde nos hospedáram os, trata-se de gozação, m as diante do testem unho de Dodik sou obrigado a acreditar em Zélia. Recuso, porém , com determ inação, atribuir à casualidade m inha certeza, reles tentativa de m e desm oralizar. Casualidade, um a ova! Prem onição, não tentem enfraquecer ainda m ais m inha posição j á um tanto quanto abalada pela perda do trem .

Naquele m esm o dia Auta Rosa percorreu de ponta a ponta, de alto a baixo e vice-versa, o Mont Saint-Michel, conversou com o Arcanj o Miguel, viu o poço sem fundo onde o Dem ônio foi precipitado, concordou com o Maire: trata-se da oitava maravilha do mundo. Por gratidão aj uda-m e a roubar um guardanapo no restaurante.

Para Praga viaj am os de autom óvel, João Jorge ao volante, não houve troca de trem (ou de pneu) nem desencontro. O m enino Jesus agradeceu a visita de Auta Rosa, deitou-lhe a bênção, revim os a Mala Strana, esticam os até Dobris, no Zam ek m ergulham os no passado, tom ei da m ão de Zélia nas alam edas do j ardim , na sala de j ogo reencontram os Drda, Jofika e Antonin Pelc*, Marie Puim anova**. A em oção encurtou o tem po, João Jorge na avidez de recuperar a infância, Auta Rosa e Calá no alvoroço da descoberta, no fascínio da cidade, não tive condições de utilizar, de pôr em evidência os poderes de adivinho. Adem ais, não se deve abusar.

*Antonin Pelc, artista plástico tcheco, Jofika, sua mulher.

**Marie Puimanova, escritora tcheca.

Dakar, 1979.

Íle de Gorée

Xavier d'Orville* leva-nos à Íle de Gorée, na véspera ao j antar conversáram os com Senghor sobre o tráfico de escravos, o nom e Senghor é corruptela da palavra senhor, de língua portuguesa.