Navegação de Cabotagem
Bahia, 1970. Os hippies
Os seguranças
Na rua deserta, passa de um a hora da m adrugada, Alfredo Machado se assusta ao não ver os hom ens da segurança: onde estão eles? Um apenas, aj uda o chofer a abrir as portas da lim usine negra, o carro oficial do presidente da República de Portugal. Acabam os de j antar com o Presidente Eanes no apartam ento de José Carlos de Vasconcelos, além dos donos da casa, Alfredo, Zélia e eu. Alfredão nunca viu um a coisa dessas, acostum ado ao exército de seguranças fardados e à paisana que protegem no Brasil os passos dos gorilas alçados à Presidência — um presidente em exercício e sua esposa, protegidos apenas por um segurança. É que, ao contrário dos gorilas, não precisam de proteção das arm as, têm a estim a do povo.
Para nós não é novidade, j á tínham os testem unhado o absurdo quando o casal Manuel Telles convidou Maria Manuela e Antônio Ram alho Eanes — ele cum pria o prim eiro m andato — para um alm oço conosco e m ais Jam es Am ado e Antônio Celestino no Hotel do Guincho. Na hora m arcada estávam os no portão à espera, com o m anda o protocolo, um fusca se aproxim a, na direção o Presidente da República de Portugal, desce, oferece a m ão à esposa, Maria Manuela, de segurança nem rastro.
Nesse tem po o presidente não era de m uito rir talvez porque, tendo assum ido responsabilidades ainda j ovem , desej asse afirm ar a seriedade. Ao deixar a Presidência, dois m andatos de cinco anos cada um , aprendeu o gosto de rir com Calasans Neto, m estre na m atéria, quem ainda não ouviu a história da baleia que ele conta é um infeliz — ou talvez um privilegiado, pois vai ouvi-la pela prim eira vez, eu j á a ouvi m ais de cinquenta.
Durante longo tem po Alfredo ainda se espantava: o Presidente e a Prim eira-Dam a vindos de j antar em casa am iga, um único segurança para acom panhá-los. Alfredo se deparara de repente com a dem ocracia na m adrugada portuguesa, no Brasil era a noite dos m ilicos.
Bahia, 1970. Os hippies
Na porta, as duas m oças, adolescentes lindas e im undas. Apesar das calças lees desbotadas, com rasgões, o t-shirt com a palavra de ordem : faça o amor, não faça a guerra, as sandálias de cangaceiro, m esm o para hippies estavam por dem ais suj as. A que m e tratava por m eu tio explicou que acabavam de sair da cadeia: a polícia dera um a batida sem aviso prévio na capital latino-am ericana do m ovim ento hippie, situada na praia de Arem bepe, subúrbio da cidade da Bahia, encanara centenas de j ovens (e alguns idosos boas-vidas). Eu sabia do acontecido, recebera telefonem as de am igos do Rio e de São Paulo, Fernando, Sam uca*, Helena, Miécio, Chico Barbosa, pedindo m inha intervenção para libertar filhas insurrectas, ativistas da revolução sexual. Convido as m oças: entrem por favor.
*Samuel Wainer.
— Tio, o carnaval com eça daqui a quatro dias, a gente queria assistir, então vim pedir ao tio que nos deixasse acam par por um a sem ana em seu j ardim , passado o carnaval a gente pira.
— Acam par no j ardim ?
— Só até a quarta-feira de cinzas, tio.
Tinha direito a m e cham ar de tio, os pais eram am igos queridos, m eus com padres, eu batizara a irm ã cadete, m enor de cinco ou sete anos, ainda não tinha idade para m ilitar nas hostes da boa causa, m as j á era sim patizante, disse-m e a m ais velha quando pedi notícias da afilhada. Considerei o pedido com sim patia, busquei encontrar solução que preservasse o j ardim e atendesse o carnaval, a súplica m e sensibilizara. Encontrei a solução antes que as duas revolucionárias do sexo escolhessem local onde arm ar a tenda no j ardim . Existiam dezenas de hoteizinhos m ais ou m enos fam iliares, a Avenida Sete estava repleta desses albergues acanhados, porém baratos, eu conhecia o dono de um deles, sergipano, prim o de Nelson de Araúj o, ao vir residir na Bahia o contista ali se hospedara, de graça é claro. Mandei que as m eninas se sentassem , Zélia providenciou xícaras de café com leite e as sobras da m esa m atinal: cuscuz de puba, fruta-pão, fatias-de-parida, devoraram , a com ida do xilindró era parca e ruim de gosto.