Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 42 de 262

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Ilhéus, 1924.

*Alfred Knopf (1892/1984), editor norte-americano.

No apartam ento tríplex de Elspith e Hans Juda*, em Londres, um grande óleo de Cândido Portinari, oferecido por Assis Chateaubriand de quem os Juda são conselheiros para a aquisição de pintura inglesa — as peças que com põem a preciosa coleção que se encontra no Museu de Feira de Santana, bem conservada ao que m e dizem , foram por eles escolhidas.

*Hans Juda e Elspith, jornalista inglês e sua mulher, crítica de arte.

Além do quadro de Portinari, um a igrej inha baiana do naïf Cardoso e Silva, m eu am igo Cardosinho, figura na sala de visitas dos Juda, colocada entre um a tela de Leger e um a de Chagall, fico indócil ao vê-la: no m eio de tantas soberbias a igrej inha de São Lázaro não desm erece, não faz feio.

 

Ilhéus, 1924.

 

Os coronéis do cacau

Na roda dos notáveis, no cais do porto, no m ercado do peixe, na estação do trem , eu os acom panho, espio e ouço, eu os aprendo, aos coronéis do cacau. Não contam bravatas, preferem os casos bem -hum orados.

Na saga de m atar e m orrer conquistaram a terra virgem , desbravaram a m ata, com andaram j agunços, plantaram as árvores dos frutos de ouro, ergueram cidades, sem earam cruzes nos cam inhos abertos pelas tropas de burros, nos atalhos das tocaias. Minha m ãe Eulália dorm ia com a repetição sob o travesseiro, o m arido, coronel João Am ado de Faria, ausente, nos rum os da guerra, à frente dos cabras. Da coragem indôm ita nasceu a civilização grapiúna (os poetas, os ficcionistas, tantos), batida sobre o sangue derram ado. Os coronéis do cacau, eu os aprendo, irão ser m eus personagens nas histórias de espantar.

Menino xereta, acom panho m eu pai, m eu tio Álvaro Am ado, dois coronéis, um sério, trabalhador, o outro ladino, aventureiro. Ouço, vej o, m e educo com o com padre Braz Dam ásio, com Basílio de Oliveira, Sinhô Badaró, Adonias Aguiar, Misael Tavares, Dom ingos Maron. Os árabes são m uitos, vieram do oriente, os turcos de Ilhéus e Itabuna, os Maron e os Medauar. Os negros são raros m as existem : com o esquecer o negro José Nique, herói de m inha infância, cercado na m ata, baleado, rom pendo o cerco, chegando de m adrugada lavado em sangue à casa da fazenda de m eu pai? A m aior parte, inum erável confraria de sergipanos, nação provinda da pobreza do Estado vizinho. Alguns poucos se gabam de sangue europeu, quem sabe sangue azul, nobreza e fidalguia. O coronel Ram iro Berbert de Castro — pai de Dem ostinho*, o cam peão do porto, tio-avô de Zé Berbert**, dele o cronista herdou a verve e a inventiva, os repentes — orgulha-se da ascendência francesa, o nom e dos Berbert nos pergam inhos dos corsários.

*Demósthenes Berbert de Castro (1913/1987), fazendeiro, homem político.

*José Augusto Berbert de Castro, jornalista.

Na viração da tarde, na som bra das am endoeiras, em frente ao palacete dos Berbert, o coronel Ram iro conta suas andanças na capital de onde acaba de chegar. Grande fazendeiro, riquíssim o, um tanto canguinha, a idade j á lhe pesa no andar, se reflete na voz, m as a anim ação não cede, o coronel não se entrega. Fornece aos ouvintes, seus iguais, notícia fresca de interesse público: vem de ser instalada na cidade da Bahia, no Largo do Teatro, no alto da Ladeira da Montanha, pensão de luxo, raparigas de truz. Funciona sob a direção competente de madame recém-chegada de Paris via Rio de Janeiro, atende por Madame La Chatte. Erudito em term os fesceninos aprendidos com as putas francesas, o Coronel ilustra a ignorância grapiúna:

— Chatte em francês quer dizer boceta.

Para Nelson Schaun, intelectual m axim alista, adm itido na roda em consideração à cultura, chatte quer dizer gata, de boceta não sabia.

— Pois fique sabendo.

Estando na Bahia, inform ado da inauguração do Nid d'Am our — ninho de am or, traduz o j ornalista Schaun, dando o troco —, o coronel Ram iro com parece ao evento. Foi entrando na sala repleta de m ulheres, foi anunciando com a altanaria dos coronéis do cacau:

— Boa noite, m eninas. Sou o coronel Pedro Catalão, de Ilhéus. O coronel Pedro Catalão, de Ilhéus, figura de legenda nas pensões de putas, nos castelos, célebre pela riqueza e pelo fausto, pela prodigalidade, acendia o charuto usando notas de quinhentos m il-réis em lugar de fósforos. Quarentão, ainda j ovem se com parado ao coronel Ram iro Berbert, garboso, elegante, traj es cortados no Rio de Janeiro, sem pre na estica, os bigodes em ponta, o topete no cabelo, as botas de m ontar e o rebenque de prata, Pedro Catalão, o ai-Jesus do m ulherio. Perdulário, seus excessos engordavam nas fofocas das com adres, nas cadeiras dos barbeiros, nas rodas de conversa. O raparigal em peso, em Ilhéus, em Itabuna, em Água Preta, na capital, sem excetuar um a que fosse, sonha com a cam a de Pedro Catalão, forrada de notas de quinhentos, sem falar na tesão: dava três ou quatro, um a atrás da outra, aquele garanhão — aprendo esses particulares nas ruas de Ilhéus, quando m enino. Eduardo Catalão, filho do coronel, futuro Ministro da Agricultura de João Goulart, foi m eu colega na escola de dona Guilherm ina, sua irm ã Maria Alice, criança linda, m inha prim eira nam orada, casou com um general, cada vez m ais linda.

Coronel Ram iro Berbert tendo se proclam ado o coronel Pedro Catalão, viu-se rodeado de m ulheres-dam as, francesas, polacas, argentinas e um a negra que, pelo volum e da bunda, ele pensou nacional e era senegalesa, falava língua enrolada. Madam e La Chatte só faltou pôr-se de j oelhos para lam ber-lhe as botas, as raparigas desfilaram um a a um a diante do m ilionário, a caftina inform ava especialidades refinadas de boceta, boca e cu. De preço não se falou, com unicar a tabela da casa ao coronel Catalão pior que ofensa seria gafe colossal. Pedro Catalão pagava sem pre o duplo quando não o triplo das tabelas, sem precisar conhecê-las.

— Escolhi duas m oçoilas, um a francesa, a outra polaca. A polaca era tão loira que m agoava a vista, a francesa era ruiva, as ruivas têm parte com o cão. Cheguei a pensar na negra, deixei para outra oportunidade. Passei a noite com as duas, elas se desdobraram em com petência, cada qual m ais viciada, faziam de um tudo, a francesa propôs usar um chicotinho, achei dem ais. Eu rindo por dentro, passando pelo com padre Pedro, um pagode.

Coronel Ram iro Berbert percorre a assistência com o olhar arteiro, vê o m enino ao lado do pai no reino dos céus, ouvinte j ubiloso:

— É teu filho, João Am ado? Ouvi dizer que é inteligente, quem sai aos seus não degenera. — Prossegue o relato: — Atravessei a noite na caçoada de ser com padre Catalão. De m anhã, na despedida, m eti a m ão no bolso, puxei a carteira e a abri na vista das gringas, carteira recheada de notas de quinhentos. Para troçar com o com padre Catalão, tirei um a de cem m il-réis, botei em cim a da cam a para elas dividirem entre as duas, fui em bora, Ficaram sem fala, sem ação: na faina a noite inteira com o coronel Pedro Catalão, cada um a esperava pelo m enos duas pelegas de quinhentos, um conto de réis, daí pra m ais. E para com pletar a caçoada...