Navegação de Cabotagem
São Paulo, 1972.
O concorrente
No dia do lançam ento de Tereza Batista Cansada de Guerra, em São Paulo, recebo convite para ir à m esm a hora a outra tarde de autógrafos: o livro se intitula Um cão uivando para a lua, o nom e do autor é Antônio Torres, nada m e diz. Trata-se de um estreante.
Por se tratar de estreante e baiano decido passar na livraria onde m eu concorrente se exibirá antes de ir para a Siciliano autografar o rom ance de Tereza. Está com igo Calasans Neto que cavou na m adeira vinte e cinco talhas para ilustrar a história da m oça sertanej a, o livro é tanto dele quanto m eu. Por ele fiquei sabendo que Torres é baiano, do sertão com o Tereza, e boa-praça. Não o encontram os, bom brasileiro im pontual, chegará com atraso, eu sou pontual, tenho pressa, hora m arcada, com pro um exem plar do Cão e o deixo com pedido de autógrafo e votos de sucesso na carreira. Leio o rom ance ao recebê-lo, descubro um rom ancista e tanto, aposto em Antônio Torres.
Aposto bem , aquele prim eiro livro é o com eço de um a das obras m ais realizadas do m oderno rom ance brasileiro. No decorrer de vinte anos, dos uivos do cão às aventuras de um táxi em partida para Viena, passando por Esta Terra, um clássico que se im pôs em não sei quantas línguas, o m oço sertanej o m ostrou-se digno concorrente. Fizem o-nos am igos, ele j á o era de Cala, de My riam Fraga, de Guido Guerra. Am igos m eus, de outras plagas, tam bém apostaram no j ovem Torres: Alice Raillard, Tom Colchie, a alem ã Ray -Gude Mertin, fiéis da literatura brasileira em busca de novos valores. Não por acaso Severo Sarduy * escolheu Um táxi para Viena d'Áustria com o prim eiro lançam ento brasileiro em sua coleção na Gallim ard, Nouvelle Croix du Sud.
*Severo Sarduy, escritor cubano.
Vinte anos de trabalho, outro dia Antônio m e escreveu:
— Só agora com o Táxi m e sinto um escritor profissional.
Custa trabalho e tem po, exige paciência, força de vontade. Os que pensam que é fácil se estrepam .
Rio de Janeiro, 1983.
Le troubadour et le prestidigitateur
Revej o Yves Montand na recepção oferecida em sua honra pela Air France no Rio de Janeiro e volto a m e conturbar com a pergunta que então m e fez e a resposta que ele próprio deu, um a opinião apenas, coisa à-toa na aparência, para m im significou prem onição.
Não sei sobre o que teriam conversado, na m astigação do Peru, na degustação dos vinhos, o troubadour francês e o hom em de letras brasileiro — m ineiro, vale acentuar, a referência pode ser im portante na solução do enigm a. Apontando Otto Lara Resende que se evolava, sim se evolava para as bandas da cozinha, Montand indagou com o se de antem ão conhecesse a verdade: Qui est ce Monsieur?Un écrivain, je sais, mais plus que ça, bien sûr. Sem esperar m inha resposta, com pletou: un prestidigitateur, c'est ça! Olham os, Otto Lara j á não era, se esfum ara.
Levo um soco no peito ao ouvir a notícia da m orte de Yves Montand, estam os em Paris, não faz um a sem ana Zélia m e cham ou, venha correndo, para vê-lo na televisão. Yves j ubiloso em Saint-Paul-de-Vence trazendo pela m ão o filho de três anos. De novo Zélia m e cham a, a voz dorida, a m á notícia: fere-m e a violência da m orte inesperada, ficam os em silêncio, envoltos na tristeza.