Navegação de Cabotagem
Paris, 1949.
Educação sentimental
João Jorge chegou a Paris com quatro m eses de idade, em língua francesa aprendeu a balbuciar as prim eiras palavras, por m uitos anos conservou o acento, o erre carregado.
Vasco Prado* vinha buscá-lo no hotel, colocava-o no colo, atrás do guidom , lá se ia João na bicicleta do escultor pelas ruas de Paris na prim avera: adorava Vasco e a bicicleta.
Adorava tam bém um zazou**, nam orado de la bonne alsaciana que se ocupava dele enquanto Zélia estava nas aulas da Sorbonne ou em tarefas do Partido. No Jardim de Luxem burgo, bonne e zazou se encontravam , saíam em purrando o carrinho polonês, de m adeira: João, nele sentado, os olhos vivos, aprendia a geografia da Rive Gauche.
Não apenas a geografia, pois o passeio se interrom pia no sixièm e*** diante do prédio onde o zazou habitava pequeno quarto. O carrinho posto ao lado da cam a de solteiro, sob os olhos vivíssim os do m enino, o casal percorria os largos cam inhos, as estreitas vielas da fornicação, em grande estilo, ao estilo dos existencialistas contestatários da sociedade burguesa. O zazou j urava por Sartre, a alsaciana suspirava em alem ão, João Jorge aprendia.
*Vasco Prado, escultor.
**zazou—jovem que se distinguiu pela paixão pelo jazz e pelos trajes excêntricos, em Paris de pós-guerra.
***sixième arrondissement — bairro de Paris.
Paris, 1991.
Fuga
Fugi do Brasil no m ês de agosto para não ver Mirabeau Sam paio* andar para a m orte, sorrindo, a reviver, no adorm ecim ento a que está reduzido, as histórias que am ava contar, repetindo-as a qualquer pretexto ou sem pretexto algum , relem brando, em ocionando-se, exaltando-se: sum a de m inha frente senão te m ato, seu filho-da-puta! Quase podem os acom panhar nos sorrisos, nos esgares, nos estrem ecim entos, os lances da narrativa que nos é fam iliar, a Cary bé* e a m im . Das visitas que lhe fazem os, saím os com os olhos úm idos, Zélia em lágrim as. Vou-m e em bora, não aguento m ais, boto distância, deixo a m orte do outro lado do oceano.