Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 241 de 262

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Montreux, 1988.

— Não, m ãe. Este é dom Clem ente, é padre.

Dom Clem ente se distancia na varanda, Lalu duvida:

— Padre? Não parece.

— Foi ele quem rezou a m issa de m ês do velho.

— Ele rezou a m issa de João? Chi... Então tem de m andar celebrar outra porque essa não valeu.

Montreux, 1988.

A máfia

Em Montreux encontro Alfredo Bini**, m eu velho cúm plice de cinem a e farsa, som os m em bros do Júri do Festival de Cinem a Eletrônico em com panhia dos m etteurs-en-scène Bertrand Labrusse, Marina Goldovskay a e Nagisa Oshim a, o do Império dos sentidos — Bini propõe que o j aponês faça dem onstração pública de cenas da película fam osa, com bom hum or Oshim a prom ete um strip-tease, é pessoa de boa convivência.

**Bini, produtor de cinema italiano.

A soviética Goldovskay a e Fan Siao Ping, produtora radicada em Hong-Kong, se apaixonam por película j aponesa, paisagens film adas com com petência, irresistível debulhar de lágrim as, rom antism o. Bini e eu preferim os um com ercial da Fiat, no gênero é obra-prim a. Evidente a inclinação da m aioria do j úri para conceder o Grande Prêm io à película dos suspiros, a russa conta nos dedos os com prom issos, arrota vitória antes de tem po, não levou a sério a dupla Bini-Am ado, im batível em tais desafios. Além do Grande Prêm io existem prêm ios por categoria: ficção, docum entário, propaganda, m usical, invertem os a ordem de votação, com eçam os pelos prêm ios das categorias, por unanim idade o nipônico das paisagens lindas é proclam ado vencedor na categoria ficção, por j á ter sido escolhido o declaram os fora da com petição para o Grande Prêm io, a ele e aos dem ais prem iados: o com ercial da Fiat concorre sem com petidor que possa am eaçá-lo, abiscoita a láurea. A soviética não consegue entender o passe de m ágica, até hoj e não encontrou explicação para o sucedido: o filme japonês contava com a maioria absoluta como se explica que o comercial italiano tenha levado a palma? Me pergunta, m ando-a a Bini, Bini escuta e sorri: que m ulher no m undo resiste ao sorriso de Alfredo Bini? Não sei de nenhum a, quem souber m e diga.

Em hora da saudade, Alfredo m e diz: precisam os inventar um a produção baseada em rom ance teu para que eu possa voltar ao Brasil, é tudo que desej o, rim os recordando ocorrências passadas durante a tentativa de colocar de pé a produção de film es baseados em livros m eus, Bini quer assegurar os direitos para cinem a de m eu próxim o rom ance: vou tratar de pôr de pé a produção, fique descansado.

Nada teve ele a ver, no entanto, com o telefonem a de Dino de Laurentis* nos m eados da década de cinquenta, quer saber quais os m eus rom ances livres para o cinem a, está de viagem para a Venezuela, vai film ar a vida de Bolívar, j á que se encontrará na Am érica do Sul daria um salto no Brasil para rodar film e inspirado em história m inha, a ideia m e em polga, forneço títulos, De Laurentis vai escolher um deles, voltará a telefonar, nunca m ais telefonou, decerto descobriu a tem po que a distância a separar Caracas do Rio de Janeiro não é tão curta com o a que separa Rom a de Paris.

*Dino de Laurentis, produtor de cinema italiano.

Tam pouco teve Bini a ver com o proj eto de De Sica de film ar o conto do com andante Vasco Moscoso de Aragão com roteiro de Zavattini*, o proj eto ficou nas conversas e nos telefonem as — o que os produtores italianos gastam em telefone daria para financiar film e brasileiro. Falando no Capitão de Longo Curso, festej arei em breve vinte anos de relacionam ento com Anthony Quinn e de seu proj eto de film agem , a história de Vasco Moscoso o fascina, para levá-lo a cabo associou-se com a Warner Brothers, proprietária dos direitos de cinem a do rom ance. Anuncia vindas à Bahia, m arca encontro, esquece de avisar que suspendeu a viagem . A indústria do cinem a é especial, não se rege pelas m esm as leis que as dem ais.

*Cesare Zavattini (1902/1989), roteirista italiano.

O prim eiro a adaptar rom ance m eu para cinem a italiano foi Sérgio Am idei, a produção seria de Carlo Ponti com Sofia Loren no rol de Lívia, o proj eto não se realizou apesar de Bini não estar m etido na produção. Tam bém não lhe cabe culpa em m inhas aventuras com Rosselini, o pai — teve participação no proj eto do filho, Renzo, m as vam os por partes, respeitando os direitos dos m ais velhos com ecem os com Roberto, o grande, o m agnífico, o inesquecível, não apenas por se tratar do autor de Roma, Cidade Aberta m as tam bém por ser aquela m aravilha de pessoa.

Telefonem a de Roberto Rosselini, trocam os lem branças de Rom a, recordações, nos conhecem os de há m uito, o m otivo da cham ada é com unicar-m e sua decisão de film ar Jubiabá, quer saber se os direitos de cinem a estão livres, estão, sim , respondo, então o produtor vai te enviar um contrato, anuncia-m e dólares às dezenas de m ilhares, a em oção desata-m e os intestinos, Rosselini chegará ao Rio daí a quinze dias para os trabalhos de locação e para discutir o roteiro, voltará a telefonar para dar o núm ero do vôo e a data exata. Voltou a telefonar cinco anos depois, deu a data exata e o núm ero do vôo m as esquecera por com pleto o assunto da film agem de Jubiabá, vinha para fazer um film e em episódios sobre o Brasil com o o que fizera sobre a índia, obtinha sucesso nas salas de cinem a: conto contigo, m e disse.

Conto contigo, e com o! Fez-m e escrever em quinze dias onze histórias diferentes para os onze episódios do film e, passados em onze cidades: Rio, São Paulo, Bahia, Fortaleza, Manaus, Porto Alegre, Ilhéus — um a história ligada ao cacau —, Blum enau, Goiânia, Santos e São Luís do Maranhão, cada um a com tem a e Personagens específicos, a loucura. Hospedara-se no Copacabana Palace, em frente de nosso edifício na Rodolfo Dantas, tom ava o café-da-m anhã, vinha ao trabalho, trabalhei com o um escravo. Sem falar que, a partir de certa hora, com eçavam a chegar os am igos, o apartam ento se enchia, rolava o uísque, Di Cavalcanti, Sam uel Wainer, Adolfo Celi. Rosselini atacava ao m esm o tem po as duas linhas de trabalho: a redação do cenário e a criação de um grupo de m agnatas brasileiros para a co-produção, Sam uel traçava planos, telefonava a capitalistas, rolavam no gabinete cifras de m ilhões. A lida e o pagode: a invenção dos contos, os alm oços, os j antares, as boates, foram quinze dias de arrocho e pândega.

Term inadas as histórias, roteiro concluído, iniciadas as negociações com os banqueiros nacionais, Roberto disse até logo: vou a Roma terminar de pôr de pé a produção, volto em seguida com a equipe, nunca m ais voltou. Quem veio, anos depois, foi seu filho Renzo, veio com Bini, tratava-se de Tieta.

Bini j á viera antes em com panhia de Franco Cristaldi*, velho am igo m eu, eu o conhecera j ovem produtor quando naqueles antanhos sonhei em Rom a ser cineasta, sonho triturado na m ilitância partidária. Vieram Franco e Alfredo com prar-m e os direitos de Tereza Batista por cinco anos, com praram e até pagaram : por fim depois de tantos anos eu vi a cor de dólares italianos. Ouvindo-m e relatar as contingências anteriores, gratuitas, Bini arrotou riqueza e correção: comigo é assim, pão pão queijo queijo.

*Franco Cristaldi, produtor italiano.

Já não estava Franco casado com Carla Sim onetti, tendo produzido um film e estrelado por Zeude Aray a, negra abissínia de beleza para dar e vender, apaixonou-se perdidam ente e para sem pre, fez de Zeude esposa e estrela, seria a Tereza da película. Estiveram na Bahia, exibi Zeude no Mercado Modelo, foi aprovada com louvor e gula para o papel pelos bebedores do caldo de lam breta com cachaça — afrodisíaco de prim eira —, Zeude nada ficava a dever em m atéria de beleza à personagem , e de afrodisíaco bastava ela própria: Zeude m aravilha!

Term inados os cinco anos do contrato, Bini deslocou-se da China onde film ava com Cristaldi a película sobre Marco Polo, veio encontrar-m e em Lisboa, por m ais cinco anos os com padres com praram -m e os direitos, pagaram -m e corretam ente, pão pão, queijo queijo, repetiu Alfredo. A pretexto de m ontar a produção, no decorrer daqueles dez anos, Bini, o produtor, esteve diversas vezes na Bahia. Mais que um a festa, sua presença era um festival, não se inventou ainda ninguém m ais agradável do que Alfredo Bini. Os dez anos se esgotaram , o film e não chegou a ser iniciado, m as o que nos divertim os daria um livro.

Não tendo m ais Tereza Batista, Bini passou-se para Tieta, foi quando desem barcou com Renzo Rosselini, anunciando para os dias próxim os a chegada de Lina Wertm uller. Enquanto a aguardava, Bini se j untou de cam a e m esa, na prática esposou j udia j ovem e graciosa, cuj o m arido, m archand de tableau, encerrara seu negócio de arte na Bahia para abrir galeria em São Paulo, queria enricar m uito e depressa com o sucedera com Valdem ar Szaniecki, seu conterrâneo de raça e religiões, am bos ortodoxos, am bos ogans de candom blé. Abandonou a boazuda sem dinheiro a cuidar dos filhos, Bini a conheceu no banho de m ar, italiano bel'uom o, fam oso cineasta, ela se encantou, precisava de consolo, ele se propôs, era de bom consolo, ela não aceitou subir ao quarto do hotel, não pegava bem , m as o convidou para j antar no lar vazio, casa de viúva em luto. Bini levou vinho alem ão por falta de m arca italiana no m ercado, hospedou-se com a abandonada durante o resto da estada na Bahia, usava pela m anhã pij am a do m archand, durante a noite não precisava, os j ogos de cam a ele e a form osa os praticavam em pêlo. Encontrou-a triste e deprim ida, logo lhe voltaram o riso e a euforia, quanto ao lar, quando ele chegou, estava em total desorganização, um a bagunça, as crianças m al-educadas, pouco afeitas ao estado, cobradores à porta exigindo pagam ento de contas em atraso. Bini pôs tudo nos eixos, a casa ficou um brinco, não por acaso era produtor de film es, discutiu com os credores e os convenceu a esperar com paciência e esperança a volta do m archand, os bolsos recheados de dinheiro ganho em São Paulo, botou os m eninos a fazer banca, deu uns cascudos no m ais velho, puxou a orelha do sardento para lhes ensinar obediência, no terceiro dia os m eninos j á lhe pediam a bênção. Em curso intensivo, aulas pela m anhã, à tarde e durante toda a noite, doutorou a dam a em variadas m atérias da boa brincadeira, ela só conhecia o bê-a-bá sionista, deixou-a em ponto de bala, apta a festej ar com o devido a volta do m arido.

Lina Wertm uller chegou à Pedra do Sal pela m ão de Bini, Zélia e eu a recebem os de braços abertos, adorávam os seus film es. Ela trazia pronto o roteiro adaptado de m eu rom ance, pela prim eira vez Lina ia film ar história alheia, até então som ente rodara argum ento seu. Mostrou-m e o m anuscrito, colocou-o sobre a estante: quero que leias e me digas. Lina ia partir em viagem , o sertão da Bahia, o estado de Sergipe, as cidades de Aracaj u e de Estância, a praia de Mangue Seco, ia ver os locais, tratar com a gente, encher-se de Brasil, assim m e disse e acreditei. Agradeci e recusei o convite para acom panhá-la no teco-teco alugado por Bini para sobrevoar cam pos, praias e povoados a baixa altura. Quanto ao roteiro, adiei a leitura para a volta de Lina, sei quanto é falsa e deform ada a visão que os intelectuais europeus fazem do Brasil, conhecem de ouvir dizer, em geral de ouvir dizer ideológico, m aniqueísta.