Navegação de Cabotagem
Bahia, 1991.
Parece-m e absurdo, inacreditável, inaceitável, que no fim do século XX um escritor estej a encerrado em esconderij o, sob a proteção da polícia, proscrito da sociedade, condenado à m orte por um a seita no exercício da discrim inação religiosa, pela inquisição xiíta, com o aval do governo do Irã. Penso que a com unidade internacional dos criadores de literatura, arte e ciência não tem estado à altura do protesto que tal situação exige. Nem um único escritor pode se m anter indiferente a essa agressão sem m edida ao direito de criar, à liberdade de pensam ento e de expressão. Aquele que não protestar, que não exigir que a am eaça de m orte que pesa sobre Salm an Rushdie sej a retirada, está faltando ao seu dever, o m ais elem entar. O direito de criar corre perigo, a própria existência da literatura está sob am eaça.
Bahia, 1991.
Eunice
O escritor estreante entra sala adentro, originais em punho, estou trabalhando m as que j eito senão atender? Recebo os originais para leitura, prefácio, recom endação a editor — prom eto e, pior ainda, faço. Todos os dias se repete a circunstância, rouba-m e o tem po e o ânim o para escrever, fico possesso, cham o Eunice às falas, ela trabalha conosco vai para vinte anos, nesta casa do Rio Verm elho seus cabelos pratearam , não lhe diria em pregada, e, sim , am iga.
Igual a m eu pai só sei falar gritando, assusto as pessoas, até hoj e Zélia não se habituou — faço um esforço, baixo a voz para reclam ar:
— Eunice, eu não lhe pedi para dizer que não estou em casa?
O sorriso de Eunice, o autêntico sorriso angelical:
— Um m oço tão sim pático, não tive coragem de bater a porta na cara dele...
Quando m e vê deveras furioso, Eunice confessa:
— Não sei m entir, m e dá um nó na garganta.
Pela porta de Eunice entra quem chega à m inha procura: o repórter, a equipe de televisão, o conselheiro econôm ico, o rapaz da esquina, o chato de galochas, os m eninos em confusão e arrelia que querem autógrafo de Dorival Cay m m i quando não é de Vinícius de Moraes, a filha-de-santo, o ecologista da Lagoa do Abaeté, o pintor naïf, o poeta m arginal e a récua de turistas. Am eaço Eunice:
— Se não trabalho, com o vou pagar teu ordenado? Terei de te m andar em bora.
— Pode m andar, se quiser, só que eu não vou. Não é preciso m e pagar.
Batem à porta, Eunice vai abrir.
Quero aqui consignar, para subscrevê-la, frase de Romain Rolland*, o humanista de Jean-Christophe, datada de 1927: j e ne reconnais a aucune m inorité, a aucun hom m e, le droit de contraindre un peuple, fut-ce à ce que l'on croit son bien, par des m oy ens atroces. É isso aí.
*Romain Rolland (1866/1944), escritor francês.
Bahia, 1981.
A festa de Carybé
Em com panhia de Guga*, vou a Antônio Carlos, governador do Estado, conversar a propósito de edição do livro de aquarelas de Cary bé sobre os orixás africanos no candom blé da Bahia, livro fundam ental. Vazios os cofres da Universidade, Guga m e propusera sairm os de visita aos banqueiros, pedinchando verbas. Vam os prim eiro a Toninho, eu lhe disse, ir aos banqueiros sem falar com ele é ofendê-lo. Assim é, conheço Antônio Carlos de cor e salteado, eu o sei desde rapazola.
*Luiz Fernando Macedo Costa (1925/1984), médico, então reitor da UFBA.
Não só o conheço, gosto dele, gosto das pessoas tanto pelas qualidades quanto pelos defeitos. No caso de Toninho, ele é a Bahia, cara e entranhas, ou sej a, o sim e o não. No político e adm inistrador duas coisas sobretudo m e seduzem : a sua qualidade intrínseca de baiano, Toninho é baiano antes de tudo, e seu perm anente interesse pela cultura, com provado, verdadeiro. Referi duas qualidades, tem m uitas outras, os defeitos não preciso dizer, a parte da m ídia que não gosta dele, porcentagem considerável, os estam pa a cada dia nas páginas dos j ornais: malvadeza, reacionarismo, sócio da Tevê Globo e outros etceteras, na catilinária existem pouca verdade e m uita baixaria.
Antônio Carlos está acabando de alm oçar, ver Aríete — sofrida, contida, am ável, perfeita, com posta só de qualidades — é um prêm io. Cary bé vai cum prir setenta anos, digo a Toninho, dos quais m ais de trinta recriando a Bahia, nosso povo, nossa vida, nosso m istério, tudo isso está no livro dos orixás que chegaram da África nos porões dos navios negreiros e aqui se batizaram . Falam os do proj eto de edição, a Universidade não tem tostão, eu obtivera um m ilhão com Herberto Salles**, Guga quer pedir o resto aos banqueiros, Toninho m e interrom pe a ladainha:
**Herberto Salles, na época diretor do Instituto Nacional do Livro.
— Banco a edição. — Serve-se da goiabada com m oderação, em nenhum m om ento deixa de ser o político, sabe de cada gesto retirar o lucro: — Lançarem os a edição num a cerim ônia solene no palácio, convidarem os os senadores, deputados...
Interrom po eu:
— Cerim ônia solene no Palácio? Para Cary bé? Nada disso. Festa popular no Pelourinho com o povo da Bahia.
Deleitado, Antônio concorda, tens razão: mais vale o povo do que os políticos.
Noutro lugar não poderia acontecer festa assim , apanágio da Bahia, quinze m il pessoas ali se reuniram , no Largo do Pelourinho, para festej ar os setenta anos de um coestaduano que nasceu noutro país. Fui entrevistado pela televisão, recordei que Cary bé, a quem o povo hom enageava em canto e dança, não era nem político nem banqueiro, nem m ilionário nem senhor de terras, nem general nem cardeal, apenas um artista, nada m ais, o povo am a os artistas.
A festa foi presidida por Mãe Menininha do Gantois, quando fui convidá-la os parentes, os m édicos, os notáveis do Axé m anifestaram dúvidas, a saúde da venerável não lhe perm itia excessos, discutiram , vi a coisa em m aus lençóis. Menininha acom panhava em silêncio a discussão, abriu a boca, declarou:
— Vou sim senhor, seu Cary bé m erece.
Antônio Carlos entregou à m ãe-de-santo o prim eiro exem plar da edição do grande livro, arte e docum ento, as aquarelas realizadas ao longo da travessia do pintor pelo m istério da Bahia. Nana Cay m m i iniciou a festa cantando a Oração para Mãe Menininha com posta por Dorival, obá de Xangô. A dança das filhas-de-santo, Cary bé é um encantado: as cantigas de Oxóssi para saudar o filho do rei das m atas. O j ogo de capoeira-angola, Cam afeu e Cobra Verde executam m eias-luas, rabos-de-arraia, Cary bé aprendeu a brincadeira com Pastinha e Valdem ar, foi parceiro de Traíra e de m estre Bim ba, os afoxés desfilam , Cary bé é vice-presidente vitalício dos Filhos de Gandhi: sentada num sofá de vim e, Menininha aplaude.