Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 257 de 262

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Navegação de Cabotagem

Porto Alegre, 1966.

Com eçara a cair um a chuva fina, bem agasalhado no Couraçado Potenkin, m eu casaco russo, peram bulei sem destino até altas horas, ria sozinho pensando no tira sob a chuva e o frio, passava de um a da m adrugada quando regressei ao hotel, cansado e exultante. Da portaria, ao receber a chave, avistei o hom em da gabardine parado na entrada, à espera de ver-m e tom ar o elevador. Quase lhe acenei adeus pensando que não m ais o encontraria, engano: na m anhã seguinte quando m e dirigi ao ônibus que levaria os passageiros de volta ao aeroporto, lá estava ele, na calçada. Ocupou um lugar no fundo do veículo, acom panhou-m e até a sala de trânsito, não sei se fora dorm ir em casa ou se passara a noite no hall do hotel m al sentado na cadeira incôm oda. No ônibus espirrava, ossos do ofício.

Assim decorreu aquela noite quando o acaso decretou a greve dos tripulantes da SAS para que as portas da cidade m e fossem abertas e eu pudesse sentir a atm osfera, o hálito, entrever a beleza, tocar o m istério e a vida de Lisboa. Com a m esm a em oção com que se toca pela prim eira vez corpo de m ulher desej ada e proibida.

Porto Alegre, 1966.

Os burros

Partim os em viagem pelo sul do país, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande, pelo sul do continente, Uruguai, Argentina, Paraguai, a fam ília toda no possante Veraneio do qual ainda hoj e Aurélio tem saudade: carro igual, doutor, nunca m ais. Participa da excursão nossa com adre Norm a Sam paio, viaj ar com Norm a é festa constante, o riso encurta a estrada.

Em Porto Alegre vam os visitar Erico Veríssim o, Mafalda reúne am igos, oferece de com er e de beber; conversam os recordações de um tem po em que, j ovens autores, com eçávam os a ganhar público. Fui dos prim eiros a saudar Erico, a proclam ar-lhe o talento em artigo de j ornal, ele viera de publicar Clarissa. Hóspede dele e de Mafalda, logo depois de Luis Fernando* ter nascido, nós o apelidam os de João, parecia João e não Luis Fernando, com o term inou por se afirm ar, para orgulho dos pais e de uns quantos tios. Quando Erico, em 1935, ganhou o Prêm io Graça Aranha com Caminhos Cruzados, era m eu hóspede no Rio. Depois perm anecem os durante anos os dois únicos escritores brasileiros a viver de direitos autorais, hoj e som os vários, felizm ente.

*Luis Fernando Veríssimo, escritor.

Certos críticos, quase sempre os mesmos, alguns sérios e amargos, outros brilhantes e salafrários, nunca nos perdoaram o público que nossos livros conquistaram, nos malharam a vida inteira. Comentamos, Erico e eu, nossa polêmica fortuna crítica. Erico, riso tranquilo no rosto de índio, taxativo:

— Eles nos acham muito burros, Jorge.

Depois dubitativo:

— Quem sabe, somos?

Até ouço dizer que a velhice é boa coisa, tem encantos, prazeres, eu pergunto quais. Saber um pouco mais, ser menos limitado, menos preconceituoso? De que adianta se a vida já se vai e a experiência não serve a nada nem servirá a outrem, experiência não se herda, não se doa em testamento.

A quantas misérias o homem se vê sujeito quando a idade pesa e o passo se faz trôpego, vacilante. Sem sequer falar na solidão, a que tantos estão condenados na velhice, basta pensar no desencontro entre o desejo e a competência nas comarcas do leito: o desejo embacia os olhos, queima o peito, desce aos quimbas e os quimbas pururucas cumprem mal o seu dever, se é que o cumprem.

O douto descobrirá no ocaso da vida o prazer mais refinado, o mais sutil, servirá de consolo e de deleite, leio nos livros da sabedoria. Mirabeau, um sábio, vive na saudade: aqueles tem pos — recorda-se, recorda-me — em que a gente era capaz de dar três e quatro sem tirar o pau de dentro.Recordar aqueles tempos, será esse o prazer de que se fala?