Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 128 de 262

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Bahia, 1974.

Lendo o Diário do Entardecer, vej o que Josué, em conversa com Juscelino, antes da eleição, lhe ensinara o que repetiu a um j ornalista, tem pos depois: para obter vinte votos acadêm icos é im prescindível contar com vinte e seis, ao m enos. Juscelino cultivava o otim ism o, esperou a quase unanim idade, decepcionou-se com a derrota, contou, com o voto certo, votos que não teve.

Um a tarde, eu estava no Rio, Juscelino veio m e ver, fofocar a eleição, deleitável tarefa de candidatos e acadêm icos. Acabam de chegar de João Pessoa, fora visitar José Am érico: vai votar em mim, m e disse, satisfeito.

— Tem certeza?

— Absoluta. Quando Presidente fiz-lhe favor de m onta, referente a seu filho m ilitar. Ontem , ao visitá-lo, ele recordou o fato, declarou-se m eu devedor.

— Ele lhe disse que sufragaria seu nom e?

— E era preciso? Não disse, m as é óbvio.

Eu sabia que José Am érico, pessoa cara a m eu coração de am igo, tão grande brasileiro, ia votar em Bernardo Elis, com prom isso que vinha da eleição anterior. Tom ei do telefone, liguei para a Paraíba, falei com o m estre de A bagaceira. Confirm ou-m e que votaria em Bernardão, prom etera, cum priria. Fazia-o constrangido, pois devia inesquecível favor a Juscelino, não podia, porém , faltar à palavra em penhada. Outros, vários outros deixaram de votar em Kubitschek pressionados pelos gorilas para quem a derrota do ex-Presidente, civil e dem ocrata, tornara-se ponto de honra. Eleição m ais vergonhosa do que essa só a que derrotou Santiago Dantas*, logo após o golpe de 1964 — antes do golpe Santiago estava m ais que eleito, o m edo leva a m isérias, a baixezas: o m edo e as gorj etas.

*Santiago Dantas, (1911/1964), jurista e político.

Bahia, 1974.

Jornalismo

Edwaldo Pacote* tom ou a peito a novela Gabriela, da Globo, a prim eira adaptada de rom ance m eu: encom endou a Aldem ir Martins e a Cary bé um a exposição de "gabrielas" para m arcar o acontecim ento. Aldem ir fez os desenhos sob os créditos, im agens do nordeste que de logo m arcaram a qualidade da realização.

*Edwaldo Pacote, jornalista, homem de televisão.

Infatigável, Pacote vem à Bahia com unicar-m e que a Globo decidiu entregar o papel título a um a j ovem com ediante praticam ente desconhecida, seu nom e é Sônia Braga. Não a conheço nem de figura nem de nom e, nunca a vi em pessoa, nem na televisão Veja Vila Sésam o, um programa infantil, aconselha-me, ela aparece num segundo papel, verá que é uma boa atriz. Quanto à figura Pacote exibe-m e revista onde Sônia posa nua, m agnificência. Propõe-m e fazer a apresentação da Gabriela à im prensa na casa do Rio Verm elho, com a presença de j ornalistas do Rio e de São Paulo, Recife e Porto Alegre, assim conhecerei Sônia pessoalm ente. Marca a data, Zélia determ inará com es e bebes.

O prim eiro a chegar para o encontro é Gilberto Mansur, j ornalista de São Paulo, para m im um ilustre desconhecido. Recebo-o com cortesia, ele, no curioso hábito dos repórteres brasileiros, de causar im pacto, atira-m e com um a pergunta à cara, antes m esm o de servir-se do uísque escocês legítim o, Zélia trata bem os j ornalistas e os atores.