Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 246 de 262

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Rio de Janeiro, 1957.

O prêm io se decidiu, na últim a votação, entre Onetti e o rom ancista italiano Vicenzo Consolo. Quando recebi da União Latina a lista de candidatos — nela figurava pelo Brasil m eu com padre João Ubaldo Ribeiro —, pensei que a decisão se daria entre Onetti e o português Miguel Torga, para surpresa m inha Torga foi elim inado no prim eiro escrutínio, o único voto que teve foi o m eu.

Vem -m e à cabeça um a pergunta: se am anhã os suecos derem o Prêm io Nobel a escritor português que o ganhe por estar em m oda e o m ereça por ser de fato grande, m e pergunto se sua grandeza o levará a proclam ar que, antes dele e de qualquer outro escritor das línguas portuguesas, m ereceria recebê-lo o poeta e prosador Miguel Torga, face e culhões de Portugal. Tão grande quanto o escritor deve ser o cidadão, a grandeza não com porta lim ites, não possui duas m edidas.

Rio de Janeiro, 1957.

Acervo

A cam panha de desestalinização com e solta na União Soviética, não vai durar por m uito tem po, a m em ória dos tiranos encontra sem pre fanáticos a sustentá-la. Kruchev m uda o nom e do Prêm io Stalin, passou a se denom inar Prêm io Lenine, decreto com efeito retroativo.

Fui stalinista de conduta irreprochável, subchefe da seita, se não bispo ao m enos m onsenhor, descobri o erro, custou trabalho e sofrim ento, deixei a m issa em m eio, saí de m ansinho. Nem por haver-m e dado conta e abandonado o redil escondi ou neguei ter recebido, em dia de glória, com honra e em oção inim agináveis, o Prêm io Internacional Stalin*.

*Na segunda entrega da láurea, em 1951.

Eis que m e chega às m ãos carta do Com itê do Prêm io, com unicando-m e a m udança, deixo de ser Prêm io Internacional Stalin para ser Prêm io Internacional Lenine, a carta vem acom panhada de m edalha de ouro com a efígie de Vladm ir Ilitch para substituir a prim eira, a de Joseph Vissarianovitch, de diplom a recém -passado a pendurar na parede em lugar do anterior. O presidente do Com itê pede devolução urgente da m edalha e do diplom a que na solenidade de Moscou m e foram entregues por Ily a Erem burg.

Arrecado j á sem entusiasm o m edalha e diplom a e os rem eto à gaveta onde se encontram os antigos. Não atendo porém ao pedido de devolução, guardo uns e outros: concederam -m e o Prêm io Stalin, m om ento culm inante de m inha vida, por que m andar de volta a m edalha de ouro, o pergam inho do diplom a?

As duas m edalhas, os dois diplom as estão hoj e no acervo da Casa do Largo do Pelourinho* na Bahia — lá podem ser vistos j unto a outros param entos e ornatos.

*Fundação Casa de Jorge Amado.

Viena, 1991.

Protesto

Os j ornalistas que cobrem o Congresso Internacional do Pen Club querem saber m inha opinião sobre o caso Salm an Rushdie, não posso conter a indignação. De Rushdie li um rom ance, Les Enfants de Minuit, gostei, e um pequeno livro sobre a Nicarágua sandinista, páginas de solidariedade. Onde se esconde a solidariedade ao escritor am eaçado?