Navegação de Cabotagem
Praia, 1986.
O requebro
Encam inham o-nos para a sala onde se dará o banquete oferecido pelo Presidente da República de Cabo Verde ao Presidente da República do Brasil: Sarney veio a Praia em visita oficial.
Zélia aperta-m e o braço, faz-m e parar, sorri. Em nossa frente no corredor, a senhora Aristides Pereira, m ulher do Presidente prim eira-dam a do país, a sim patia em pessoa. Não se im aginando seguida, ouvindo a m úsica que vem da sala, antes de nela penetrar, executa um passo de dança, parece um gingado de sam ba, é um requebro de m orna, ritm o e baile de Cabo Verde, o m esm o dengue, idêntico m eneio de ancas, a bunda em vaivém .
Ulan Bator, 1952.
O diretor de divisão
Apenas desem barcam os as confusões linguísticas com eçaram no aeroporto de Ulan Bator repleto de autoridades: m em bros do Governo, dirigentes do Partido, representantes da União de Escritores, do Movim ento da Paz, da União das Mulheres para saudar Zélia e Rosa, da Juventude Com unista, dos Pioneiros e por aí vai. Nossa visita à Mongólia é acontecim ento nacional sem precedentes, ninguém dem onstra interesse pelo m ais antigo e m enos im portante país de dem ocracia popular. Encravada entre a URSS e a China, dois terços do território constituídos pelo deserto de Gobi, nação de pastores suj eita ao regim e do socialism o real, desconhecida e m enosprezada, a ex-Mongólia Exterior, desde 1921 independente, ignorada pelos intelectuais com unistas, proibida aos turistas, recebe a visita de um m em bro do Bureau do Conselho Mundial da Paz. Mais do que isso, de personalidade condecorada com o Prêm io Internacional Stalin, no caso eu próprio, e de um poeta fam oso, Nicolás Guillén. Lem bro-m e das delegações, das bandeiras, dos aplausos à descida do avião, m as o que guardo até hoj e no fundo dos olhos é a visão do im enso vale gelado, em derredor as m ontanhas altíssim as, cenário tão esplendoroso poucas vezes vi em m inha vida. Faz um frio de trinta graus abaixo de zero.
O Ministro da Cultura, futuro prim eiro-m inistro, aproxim a' se do m icrofone, discursa em m ongol, um intérprete traduz para o russo, vocês estão em minhas mãos, gaba-se Zélia, única de nós quatro a saber um as quantas palavras da língua russa. Segue-se a tradução para inglês, o intérprete é um baixinho, engrola rápido as palavras, continuam em minhas mãos, em boas mãos, sussurra Zélia, única de nós quatro a entender e a m altratar a língua inglesa, de lá para cá seu inglês fez-se opulento, não o era quando baixam os do avião em Ulan Bator, m uito ao contrário, era bem barco. Cobro da poliglota a tradução, Zélia responde-m e im pávida: deu-nos as boas-vindas, ranj o-lhe os dentes, devolvo-lhe o gracej o, estam os em boas m ãos, não é? Estam os é no m ato sem cachorro.
Desconhecendo o m ongol, o russo e o inglês, não m e esforço para agradecer em francês, faço-o em português, m as term ino vivando em russo: za m ir! viva a paz! Não houve tradução, im agino o espanto dos radiouvintes que m e escutaram em baianês, em hom enagem a eles gastei a saudação soviética, aprendida nos congressos.
Os carros nos conduzem ao hotel, nas ruas o povo se exibe em traj es m ongóis, casacos, gorros, botas, peles de carneiros, cores vivas, os hom ens se nos afiguram altos, as m ulheres lindas. O Ministro, as autoridades, os representantes das organizações sociais que nos acom panham vestem -se à europeia, fazem triste figura nos traj es ocidentais, dim inuem de estatura, perdem a personalidade. Creio que as roupas europeias, peças de alfaiataria m oscovita, pertencem ao governo para uso acidental, quando indispensável, é o caso.
No hotel som os apresentados a estram bótico personagem , enverga um a espécie de guarda-pó branco sobre a calça e o paletó de defunto bem m enor. Não conseguim os saber quem tosse, por m ais Zélia se esforçasse, Rosa Guillén pensa que sej a um barbeiro, aconselha: aproveita, Nicolás, para podar as melenas. O intérprete sobra nas roupas em prestadas, o grandão não cabe nas que lhe tocaram , am bos de m eia-idade, todos os m ongóis, exceto as crianças, aparentam estar entre os trinta e os quarenta anos.
Lá vam os em com panhia oficial e num erosa visitar a cidade, o intérprete traduz para o inglês as explicações do Ministro diante dos poucos edifícios de tij olos ou de cim ento, Zélia se em penha, dá para reconhecerm os os palácios do governo e do parlam ento, a sede do Com itê Central, a universidade. Bem m ais do que as contadas construções de arquitetura soviética, m edonhosa, nos interessam as tendas espalhadas no vale, centenas e centenas, de lã espessíssim a de cam elo, redondas, am plas, confortáveis, a cham iné no centro, pastores bigodudos, m ulheres gordas: a outra cidade, a provisória, m uito m aior e m ais atraente do que a de pedra e cal.
Durante o inverno os pastores acorrem do deserto, erguem suas tendas, a população da capital duplica. Naqueles com eços de 1952 o censo acusava cinquenta m il habitantes perm anentes em Ulan Bator, no inverno ultrapassava os cem m il: a população total da República não atingia um m ilhão de pessoas. Detem o-nos diante do palácio do Deus vivo — antes da invasão dos j aponeses a Mongólia era um a teocracia governada por Buda redivivo —, construção chinesa, de m adeira, bela, existe ainda outro convento budista na cidade. O Deus vivo aliou-se a Sukh Bator para expulsar os russos brancos que haviam substituído os invasores j aponeses na opressão ao povo m ongol, após a vitória m anteve-se no poder até m orrer, em 1924, quando a Mongólia independente proclam ou o regim e socialista. Os cem m il m onges dos tem pos passados reduziram -se a m il, dos m il m osteiros sobraram cem . Ao fim de nossa estada visitam os o Buda vivo, m ais que vivo, vivíssim o, se não está inscrito no Partido é sim patizante, faz-nos o elogio do governo com unista.
Perdem os boa parte das explicações do Ministro. Com a aj uda do baixinho Zélia consegue transm itir-lhe nosso apelo angustiado: um intérprete de francês, pelo am or de Deus, de Marx e de Lenine, nossos deuses, se houver de espanhol m elhor ainda, pois Rosa não fala outra língua. Voz de lástim a, o Ministro confessa: não existe na República quem dom ine o francês, espanhol nem sonhar: gestos expressivos de im potência, sinto-o hum ilhado, causa-m e dó. Devem os nos contentar com o intérprete de inglês na tradução de Zélia, continuam os em suas m ãos: reconhecido eu as beij o, ao senti-la deprim ida.
Jantar pantagruélico sob o olhar atento do senhor do guarda-pó, de pé em nossa frente. Quem será ele, que função exerce? Não é barbeiro com o o viu Rosa, Zélia o enxerga diretor do restaurante. Nicolás e eu, a seu convite, provam os a bebida nacional, cachaça feita de leite de j um enta, acham os abom inável, m as com o ele insiste na dose, repetim os, de gole em gole com eçam os a apreciá-la.
O program a m arca para a m anhã seguinte encontro com os m em bros do Governo, no Palácio, e visita à sede do Com itê Central, à tarde sessão no Parlam ento, ida à Universidade, com o farem os para entender e responder saudações, m anter conversa?
Estam os a findar a prim eira refeição do dia, não m enos pantagruélica, eis que surge o Ministro da Cultura acom panhado por um senhor de m eia-idade (com o todos os m ongóis) apresenta-o aos gritos: françuski! françuski! Bonjour!, exclam am os em uníssono, bonjour contesta em voz baixa, quase inaudível o tradutor de francês tão reclam ado, haviam -no descoberto, existia.
Já atrasados partim os a correr para o Palácio do Governo, tentei puxar conversa com o intérprete, m as ele não deu trela. Sentam o-nos em torno à m esa de reuniões do Ministério, ao lado das m ais altas figuras da Mongólia, os chefões, os grandes do Partido, o prim eiro-m inistro inicia a saudação. O intérprete traduz lentam ente, palavra por palavra, no rosto m ongol insondável, im perscrutável, percebo a tensão que lhe vai no peito. Voz m onocórdia, francês correto com o acento russo dos locutores soviéticos. Nicolás e eu agradecem os, contam os de Cuba, a Cuba de Batista, e do Brasil, em m ongol o intérprete é rápido e vibrante. Partim os para o Com itê. O Ministro exulta.
Fazem o-nos am igos do intérprete, ele nos narra sua história: os anos tranquilos de professor prim ário, de repente o terror, os suores frios, o pânico daquela m adrugada quando a polícia política invadiu sua habitação, despertou-o e o levou sem lhe dar qualquer explicação. Nosso pedido de um tradutor francês pusera os órgãos de inform ação em polvorosa, busca aqui, busca acolá, interroga nos quatro cantos da cidade, de casa em casa. term inaram por obter da boca de um a funcionária da Biblioteca Nacional inform ação da existência de um professor de prim eiras letras, m odesto cidadão, conhecido por o francês, por se dedicar ao estudo dessa língua: infelizm ente m e esqueci com o se diz o francês em m ongol, Zélia tam pouco se recorda.
Na ocasião decorei a expressão e a usava para falar com ele, não consegui j am ais pronunciar-lhe o nom e, só m esm o Zélia foi capaz de guardá-lo e repeti-lo.
Sozinho, sem professor, sem escola, sem Aliança Francesa sem curso de qualquer espécie, aprendera a língua que o seduzira ouvindo as transm issões em francês da rádio soviética. Descobriu na Biblioteca Nacional um a gram ática francesa — de tanto a estudar ele a sabia inteira, de m em ória — e três livros em francês dois rom ances de Alexandre Dum as, Os três mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo, o terceiro era um tratado de vinhos e queij os. Ele os lera e relera dezenas de vezes, os decorara, conhecia na ponta da língua d'Artagnan e Edm ond Dantes, o cam em bert, o roquefort, o chèvre, as m elhores safras dos bordeaux e dos bourgognes. Cada noite escutava as transm issões em francês da Rádio de Moscou, não perdia um a.
Por pouco m orre de susto quando os agentes da polícia política invadiram -lhe o quarto e o levaram . Considerou-se perdido: m oeda corrente do stalinism o, as denúncias e as condenações, os processos políticos sucediam -se nas dem ocracias populares. Quando o interrogaram sobre seu interesse pela língua francesa com preendeu que ao estudá-la e ao escutá-la com etera crim e contra a Pátria e o Partido a ser punido com a m orte. Confessou.
Para surpresa sua, em vez de m eterem -no no xadrez, m eteram -no em traj es europeus, m al cabia nas calças, o paletó com prim ia-lhe o peito, não abotoava. Conduziram -no à sede do Com itê Central onde lhe deram a tarefa de servir de intérprete a um detentor de Prêm io Internacional Stalin, a um poeta fam oso e às suas m ulheres. Estavam com pressa, aproxim ava-se a hora do encontro no Palácio do Governo, arrastaram -no para o hotel, na porta entregaram -no ao Ministro da Cultura.