Navegação de Cabotagem
Bahia, 1970.
Candidato a deputado por São Paulo, em 1945, não juntei a caderneta militar à documentação exigida para a validação da candidatura. Prometi fazê-lo em vinte e quatro horas, não o fiz, como poderia fazê-lo se não a possuía? Salvou-me a eleição a falta de seriedade — a boa falta de seriedade — com que as coisas são feitas no Brasil: jamais alguém reclamou a falta do documento.
Cassação de mandatos à vista, perseguição provável a Prestes, o Partido decidiu minha ida para a Europa em missão de denúncia e protesto; como viajar se não tinha passaporte e como obtê-lo sem o indispensável documento militar? Giocondo Dias propôs-me ir tirá-lo na Bahia, onde presidia a Comissão de Recrutamento o famoso general Lobo, na época coronel, creio, o mesmo capitão Lobo que foi carcereiro de Graciliano em Recife e mereceu do escritor perfil definitivo nas Mem órias do Cárcere: o Lobo é bom suj eito, Giocondo conhecia a vida e os homens.
Ao ver-me o comandante Lobo riu com gosto: tive em mãos seu dossiê, devia lhe prender, mandei arquivar, você já passou dos trinta e cinco anos, tem direito a carteira de reservista de última categoria. Já está preparada, faltando apenas o retrato, trouxe?
Entregou o retrato ao ordenança:
— Só que você vai jurar a bandeira em ato público, com direito a ombro-armas dos soldados, toque de cometa e discurso meu.
Assim foi: tropa em posição de sentido, as cometas, os tambores, a bandeira desfraldada, discurso anticomunista do comandante, jurei fidelidade, recebi a caderneta de última categoria, deixei de ser insubmisso, continuei antimilitarista, ainda o sou.
Bahia, 1970.
Revelação
Regalado escuto Stela Maris, o nom e da cantora de blues no rádio carioca substituiu o de Adelaide Tostes que um dia Sam uel Wainer* e eu dem os em casam ento a Dorival Cay m m i num a vara de fam ília no Rio de Janeiro. Cercada de parentes e aderentes, na casa baiana da Pedra da Sereia, Stela revela que um prim o qualquer — a fam ília Tostes é inum erável — fizera a caridade a um a prim a de quinze prim averas, incom pletas e urgentes. A ex-estrela da Rádio May rink Veiga usa para contar o conto a língua clássica de Gregório de Matos:
*Samuel Wainer, (1912/1980), jornalista.
— Com eu-lhe os tam pos todos, a boceta e o cu, não fez por m enos...
A velha tia, Tostes m ineira, hóspede dos Cay m m i, m aior de sessenta anos, há m ais de vinte viúva de leito papai-m am ãe, dedicada desde então a novenas e trezenas, desconhece tais hábitos das cidades grandes, se assom bra:
— E cu se com e, m inha filha?
— Com e, m inha tia, cu se com e...
O corpo da beata estrem ece sob o im pacto da revelação: — Virge! Só de ouvir m e arrupeio!
Bahia, 1964.
Língua portuguesa
Em Lisboa disseram a Luís Forj az Trigueiros que na Bahia o calor, além de tórrido, é constante, j am ais faz frio. Luís viaj a ao Brasil em m issão cultural, pede a Maria Helena que coloque na m ala apenas roupas leves, as m ais leves. Assim desem barcou desvestido com elegância para o verão feroz.
Ora, em lugar de calor senegalês, um a onda fria abateu-se sobre a cidade, frio ainda m ais difícil de suportar devido à um idade, o escritor sentiu-se enregelar. Dado que o inverno se m anteve, não lhe coube opção senão ir à com pra de agasalho. Luís se inform ou, rum ou para a rua Chile, a de com ércio fino e caro de prendas de vestir cavalheiros e senhoras. Deteve-se ante um a loj a: ali se exibia a peça exata que buscava para com ela resguardar o peito, evitar o resfriado, a gripe, a pneum onia: Luís Forj az pretende-se chegado a enferm idades nos brônquios e pulm ões, o perigo de gripe o horroriza. De lã, chique, discreta, na cor preferida, estava à sua espera. Luís adentrou o estabelecim ento, o vendedor acorreu solícito, colocou-se a seu serviço.
— Desej o com prar um a cam isola — inform ou o literato luso, sorrindo com a delicadeza que o caracteriza.
Não m enos delicado o balconista:
— O cavalheiro se enganou, aqui só vendem os artigos m asculinos, m as na loj a em frente, de artigos para senhoras, o senhor encontrará variado estoque de cam isolas... Não tendo entendido, algum engano havia, Luís insistiu:
— Eu disse cam isola...
— Já lhe disse que não tem os. — O caixeiro elevou a voz desconfiando que o sim pático freguês fosse surdo de nascença.
— Com o não tem , se acabo de ver na m ontra um a cam isola castanha na m edida própria?
— Onde disse ter visto cam isola?
O balconista sentiu-se perdido, além de surdo o freguês falava língua desconhecida, nem espanhol, nem francês, m enos ainda inglês, dialetos que o rapaz identificava, fam iliar de sotaques e pronúncias. Não sabendo o que dizer, riu e cocou a cabeça. Um parvo persuadiu-se Luís Trigueiros, e, sem m ais delongas, tom ando-o gentilm ente pelo braço — aos parvos deve-se tratar com firm eza sem no entanto abandonar a cortesia —, levou-o até a porta de onde triunfante, m ostrou-lhe na m ontra a cam isola castanha:
— Ali está ela, a cam isola, quanto vale?
A risada do rapaz não era m al-educada, m as continha um a ponta de deboche:
— Ilustre cavalheiro, fique sabendo que em bom português o senhor quer com prar um pulôver m arrom igual ao que está na vitrine, não é isso? Por que não disse logo? Um suéter porreta e o preço é de arrasar...
Encontrei Luís no hotel envergando a cam isola castanha, ou sej a, o pulôver m arrom , não sendo ainda o brasileiro com petente que viria a ser anos depois devido aos azares da política, o escritor estava indignado:
— O gaj o diz-m e duas palavras em francês, um a em inglês e afirm a estar falando em português, em bom português.
— Em nosso bom português, Luís, o do Brasil.
Hoj e Luís Forj az Trigueiros traça na m aciota nosso m isturado português de m estiços, m as, para escrever sua prosa escorreita, forte, terna e colorida, conserva-se fiel ao português de Portugal, à língua de Cam ões.