Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 104 de 262

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Rio de Janeiro, 1952.

Por duas vezes Malraux teve influência decisiva em minha travessia francesa. Foi dele, segundo me consta, a opinião que levou a Editora Gallimard a publicar, em 1938, a tradução de meu romance Jubiabá*; os tradutores, Michel Berveiller e Pierre Hourcade, haviam sujeitado o manuscrito à sua leitura e aprovação. Foi ele igualmente que, acionado por uma carta de Guilherme Figueiredo, se moveu e obteve a anulação das medidas tomadas contra Zélia e contra mim, em dezembro de 1949, quando nos vimos postos fora da França e impedidos de voltar. Por que não fui procurá-lo para lhe dizer muito obrigado, se tanto desejei fazê-lo? Chegava a Paris, pensava: desta vez vou vê-lo, mas em seguida me perguntava: com que direito irás, pequeno escrevinhador, um joão-ninguém no rol das coisas, com que direito irás incomodar quem dirige um ministério ao sol da glória? Nunca consegui a coragem necessária, capaz de vencer o temor de ser chato, o horror de ser inoportuno.

*Bahia de Tous les Saints, Gallimard, Paris.

Não sei sequer como ele era no trato com as pessoas, mas sei que o cidadão esteve à altura do criador, penso em André Malraux e o vejo na cabine do avião nos céus da Espanha em guerra.

Rio de Janeiro, 1952.

O Mundo da Paz

Tarefa política, de volta da União Soviética e dos países de dem ocracia popular do leste europeu, escrevo livro de viagens, o elogio sem vacilações do que vi, tudo ou quase tudo parece-m e positivo, stalinista incondicional silenciei o negativo com o convinha. Para falar da Albânia plagiei título de Hem ingway : A Albânia é uma festa. Em verdade ainda não era o pesadelo em que se transform ou, estava com eçando.

Publicado no Brasil pela editora do pecê, O Mundo da Paz vendeu cinco edições em poucos m eses, valeu-m e processo na j ustiça, acusado de autor subversivo. Convidei João Mangabeira para m eu advogado, m as não cheguei a ir a j uízo, o m agistrado a cargo do processo m andou arquivá-lo com sentença repleta de sabedoria: de tão ruim, o livro não chega a ser subversivo, é tão-somente sectário. Em verdade, não escreveu "de tão ruim ", o acréscim o quem o faz sou eu, autocrítica tardia m as sincera.

Dei razão ao m eritíssim o, retirei O Mundo da Paz de circulação, risquei-o da relação de m inhas obras, busco esquecê-lo m as, de quando em vez, colocam em m inha frente um exem plar com pedido de autógrafo. Autografo, o que posso fazer se o escrevi?

Rio de Janeiro, 1966.

Subilatório

Miécio Tati* m e telefona, ninguém sabe m ais do que Miécio sobre m eus livros, m eu trabalho literário, sabe m ais do que eu. Pede o significado exato da palavra subilatório, que m ais um a vez vem de encontrar em Dona Flor e seus Dois Maridos, m as j á a lera antes em outros rom ances de m inha lavra.

*Miécio Tati (1913/ 1980), escritor.

Subilatório, m eu com padre: palavra m ais pedante, m ais fidalga, m ais excêntrica, m ais singular, popular e erudita, m ágica para tudo dizer, longa de escrever, difícil de pronunciar, palavra m ais que baiana, soteropolitana, significa ânus ou sej a cu.

Deve-se usar de preferência, com o ensina m estre Edison Carneiro em seu Vocabulário do falar baiano, para designar o fiofó de m ulher loira, negra, m orena, m ulata, cabo-verde desde que sej a bela e tenha o cu em flor.