Navegação de Cabotagem
Bahia, 1990.
— Em 1950, faz disso m ais de quarenta anos, você devia ser m enino de calças curtas.
Fui a Tirana para o Congresso Albanês pela Paz, a Albânia m e conquistou, a paisagem de olivais, o porto de m ar no Adriático, não m aior do que o de Ilhéus, o povo orgulhoso dos feitos ainda recentes na guerra contra Hitler e Mussolini, a pobreza e a esperança. A pequena capital, m enor que Feira de Santana, em com panhia de Wanda Jacubowska eu a percorri de ponta a ponta, na sola dos sapatos. Escrevi na época páginas líricas dando conta do m eu entusiasm o. Conheci Enver Hodj a, conversei com ele...
— Ele o recebeu? — adm ira-se Kadaré recordando-se da grandeza do tirano.
— Eu representava o Conselho Mundial da Paz — esclareço. Até que Hodj a m e deu um a colher de chá, prendeu-m e a conversar por m ais de um a hora, a contar glórias, a desvendar proj etos, a enaltecer Stalin, m as, hum anizando-se, recordou o m édico Fuad Saad, de São Paulo, com quem dividira quarto de estudante em pensão pobre de Ly on (ou de Marseille?) quando bolsistas na França, os dois. Na despedida, de novo herói, m anda recado para Prestes:
— Diga ao cam arada Luiz Carlos para não esquecer que a Revolução para surtir efeito e se consolidar deve ser sangrenta. Sem correr m uito sangue, nada feito.
Onde quer que esteja levo o Brasil comigo mas, ai de mim, não levo farinha de mandioca, sinto falta todos os dias, ao almoço e ao jantar.
Bahia, 1990.
O porquê das coisas
Meu neto Jorginho, filho de Rízia, aquela m ãe!, caçula de João Jorge, às vésperas de com pletar seis anos, constata a coincidência de nom es, parece-lhe estranha, m e interpela no desej o de entender o porquê:
— Vô, você tam bém se cham a Jorge — com o eu?
Rio de Janeiro, 1979.
Contagem de votos
Pedro Costa* nos espera com Palom a na descida do navio, regressam os da Europa, Zélia e eu, m e com unica que José Sarney é candidato à Academ ia Brasileira. Lastim o, m as não poderei lhe dar m eu voto, j á estou com prom etido.
*Pedro Costa, arquiteto, genro de J. A.
Fui um dos que incentivaram Orígenes Lessa a se candidatar à vaga aberta com a m orte de José Am érico. Sou leitor e adm irador do paulista, contista adm irável, valorizo o espírito profissional, ainda tão raro no Brasil, que condiciona sua criação literária. Voto em Orígenes com alvoroço, poucos m erecem com o ele ocupar cadeira na Academ ia.
Tam bém com satisfação votaria em José Sarney. Não o conhecia pessoalm ente quando saiu a prim eira edição do Norte das Águas, m andou-m e um exem plar, li os contos, escrevi-lhe para dizer quanto estim ara o livro. Encantou-m e o conhecim ento íntim o que revelava da vida popular da gente m aranhense, ele a recriou num a escrita rica de invenção. Não fosse Orígenes o outro candidato, eu teria sido seu eleitor de cabresto.