Navegação de Cabotagem
Praia de Maria Farinha, 1960.
Morreu Giocondo Dias, agora sou m etade apenas. Penso em Anna Seghers: a escritora e o m ilitante, a alem ã e o brasileiro, cravej aram a certeza no peito, j am ais renegariam m esm o se a evidência os deixasse — e os deixou — sozinhos em m eio à m ultidão de cam aradas. Soldado, com os galões de cabo, com andou o levante m ilitar de 1935 em Natal, deram -no por m orto com não sei quantas facadas, não o levaram preso, não se prende defunto, Giocondo segurou o fio de vida, costurou as feridas, m archou em frente, sustentado por Lurdes prenha de m eses.
Viveu clandestino boa parte de sua existência, na Bahia com nom e falso era o cabeça do pecê, quem de fato o dirigia, sob a cobertura do operário m andado do Rio pela direção, tinha bom senso, ouvia e aprovava, e a algaravia dos arruda-boy s que arrotavam m arxism o — alguns ainda o arrotam e peidam . Só nós dois, ele e eu, sabíam os por fora e por dentro e poderíam os conta a saga daqueles anos da guerra na Bahia, Giocondo colocou de pé e pôs a andar o m aior m ovim ento de m assas pela dem ocracia) contra o fascism o, até então visto no Brasil, o povo desfilou nas ruas conduzindo os retratos de Churchill, Roosevelt, Stalin, gritava viva Stalin, por m ais que desej assem não foi possível im pedir. Giocondo com andou do esconderij o, seu esconderij o era o m eio da rua, o povo em torno.
Após a breve vida pública na legalidade, dirigente, deputado, ouvido e acatado, desceu de novo aos porões de clandestino, por m ais de dez anos cuidou da segurança de Prestes. No im pério dos m ilitares, com andou m ais um a vez da ilegalidade, nos encontrávam os nas esquinas do m undo, nas encruzilhadas do Brasil, j á então sabíam os com o as coisas eram e se passavam , m odesto e discreto Giocondo sorria, ternura e desengano, j am ais o desencanto pela vida: abandonar, isso nunca, tom ava-m e do braço, afirm ativo: mais além da merda chegaremos à relva de flores, ao rio de águas puras, à decência do homem.
Na prim avera eu o vi enam orado, Lurdes era insubstituível, ele sabia, m as Giocondo não abria m ão de viver em plenitude. No com ício de Lisboa, ele observava a reação de Maria, a m ilitante vibrava a cada palavra de Cunhal, o orador perorava estreitezas definitivas do com eço do m undo leninista, nada aprendera. Giocondo sorria, conhecia o enredo da prim eira à últim a linha, m as o ardor dos cam aradas portugueses, o entusiasm o de Maria o com oviam .
Sou m etade de m im m esm o, tom o dos braços de Gilberto, coloco sobre os om bros a m orte de Neném . Sua m ãe, la m am m a italiana, sua m ulher Lurdes e eu próprio, os três e m ais ninguém , o tratávam os por Neném .
Praia de Maria Farinha, 1960.
Cansaço
Encostado no coqueiro, Am aro Am arelo louva a nudez da alem ã: estendida ao sol, na popa do barco, os pêlos loiros, ela e o m arido rum am para o m ar largo. Am aro Am arelo aj uda o alem ão a colocar a em barcação em ordem enquanto a gringa despe o m aio e assum e o sol para doirar o corpo, bunda, seios e ventre, brancarrona. Se Deus quiser e o aj udar, Am aro Am arelo ainda há de com er um a brancarrona, Nosso Senhor não irá abandoná-lo para todo o sem pre no alvéo. Am aro tam bém cristão e batizado, no entanto som ente doutor Paulo m erece regalias do céu, um a atrás da outra, cada qual m ais loira: o dia de sorte de Am aro chegará. Inform a sobre o regim e dos ventos, os cuidados a tom ar na navegação, não cobra pela estafa m as aceita a m oeda de níquel que o cabrão lhe dá, sendo um esteta considera-se pago com a visão do xibiu de frau Katherina, m oedas de ouro.