Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 106 de 262

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Navegação de Cabotagem

Ilha de Marajó, 1977.

*Antônio dos Reis Vinagre.

Com o disse, por m ais de um a vez tom ei da m áquina de escrever para redigir um apontam ento sobre o Tivoli, por que não o fiz? Creio que por puro e sim ples preconceito: vão pensar e dizer que não m e cobram a estadia ou que m e fazem abatim ento, puxo o saco dos proprietários para levar vantagem , sei lá que m ais. Assim sendo com eço por dizer que pago o preço do quarto, não gozo de redução nem de outras m ordom ias, fico à vontade para proclam ar que o Tivoli é o único hotel do m undo no qual o hóspede encontra, ao m esm o tem po, conforto das cinco estrelas m áxim as e o calor hum ano de um a pensão fam iliar. Disse conforto, digo luxo pois a tapeçaria de Lurçat no restaurante é um , luxo de nababos. O Tivoli é o oposto desses hotéis am ericanos, frios e solitários, onde o cliente é um a coisa, um a conta, um cartão de crédito, não é um a pessoa. O Tivoli é hotel e casa de fam ília, aqui vai de graça a propaganda pois o louvor é m erecido e o velho m arinheiro desej a consigná-lo na escala de Lisboa, entre as boas lem branças da navegação de cabotagem .

Ilha de Marajó, 1977.

Chove nos campos de cachoeira

O m onom otor sobrevoa a Ilha de Maraj ó, dia encoberto, céu de nuvens, chove sem parar, som os convidados dos Steiner, Ruth e Rodolfo, vão conosco no avião.

Os Steiner, nossa fam ília paraense — tem os parentes em todas as com arcas do Brasil —, possuem fazendas em Maraj ó, criam búfalos, zelam pelas tartarugas. Nossa am izade se iniciou com o cruzam ento de cachorros pugs, coube a Mister Pickwick, m acho de nossa criação, ser de m inha m aior estim a, com er o cabaço da m ais linda cadelinha carlin, chegou donzela ao Rio Verm elho, voltou prenha para Belém — devo a Picuco e a Popota o conhecim ento desses Steiner do Pará, gente de prim eira.

Dádiva do rio Am azonas ao m ar Atlântico, situada entre águas que se chocam e se m isturam , a doce e a salgada, solo encharcado, j am ais terra firm e, tam pouco superfície líquida, território de m angue, pasto de lam a onde os pés se afundam , a Ilha de Maraj ó, diferente de tudo quanto eu vira. O gado pasta na planície a perder de vista.

De súbito, com o se a violência da chuva o atirasse de encontro à terra, o aparelho desce sobre um a povoação construída em cim a de palafitas: cabanas, casas pequenas, quase um a taba de índios. Rodolfo m e diz o nom e do lugar, cham a-se Cachoeira, ali se desenrola a ação de rom ance de Dalcídio Jurandir, Ruth com pleta a inform ação: o romance de estreia, Chove nos campos de cachoeira.

Sei do livro, não só por tê-lo lido em originais com o porque fui eu quem criou o Prêm io de Rom ance Dom Casm urro quando redator-chefe do sem anário de Brício de Abreu. Não tínham os dinheiro para dotação da láurea m as obtive com Om er Mont'Alegre, diretor literário das Edições Vecchi, contrato de publicação do rom ance vencedor e constituí j úri m ais valioso do que um cheque m agro: Álvaro Morey ra, Jorge de Lim a, Oswald de Andrade, Erico Veríssim o, José Lins do Rego, j á não lem bro todos. Júri num eroso e consagrador. Concorrendo com m ais de cem candidatos, o rom ance de Dalcídio foi escolhido por unanim idade, o prêm io revelou ao público brasileiro um dos grandes de nossa ficção. Com Chove nos campos de cachoeira, Dalcídio iniciou a saga do Extremo Norte, dez volum es, dez obras-prim as.

O avião volta a subir, a chuva engrossa, tento abafar o m edo para adm irar a paisagem onde o gado pasta. Descem os na pista da fazenda, a única de cim ento em toda a Ilha. Espera-nos a m ontaria, veículo extraordinário, canoa feita para navegar no rio, desliza em terra sobre a lam a do m angue puxada por três cangas de búfalos. Saí de Maraj ó onde se m isturam m ar e rio alguns quilos m ais gordo, culpados os pitéus da cozinha paraense, do pato no tucupi ao sarapatel de tartaruga. De lem brança levei com igo carga com pleta de bicho-de-pé, eu andava descalço no m angue, no pasto e no curral.