Navegação de Cabotagem
Rio, Paris, 1991.
Logo que viem os m orar na Bahia, durante m eses e m eses um sapo-cururu habitou no j ardim , num a espécie de tanque ali existente. Tam bém ele enorm e, quase do tam anho do que roubei de Cary bé, desm edido. Só que o de Cary bé é de barro, o nosso era vivo e nos dias de m uita chuva abrigava-se na varanda onde cantava sua alegria de viver.
Cary bé m orria de invej a de nosso sapo-cururu, a cobiça transparecia-lhe no rosto ao ver Zélia cocar as costas do bicho que inflava de contentam ento. Zélia gravou-lhe o coaxar poderoso num pequeno aparelho portátil que levam os escondido à casa de Cary bé em dia de chuva. Conversávam os no atelier, Nancy servia gostosuras, bebíam os um trago, Zélia achou m aneira de colocar o gravador em funcionam ento no interior da bolsa sem i-aberta, o canto do sapo-cururu ressoou, os olhos de Cary bé se ilum inaram :
— Tão ouvindo? Tem um cururu vivendo no j ardim ...
Precipitou-se escada abaixo, sob a chuva, até hoj e procura seu sapo-cururu.
Rio, Paris, 1991.
A estátua
Utilizo pela prim eira vez o direito que m e cabe, na qualidade de prem iado, de indicar candidato ao Prêm io Internacional Lenine, indico o nom e do com positor (e escritor) Chico Buarque de Holanda.
Do Rio, de onde m e dirij o ao Júri, escrevo a Chico que está em Paris com unicando-lhe ter levado seu nom e à consideração dos j urados do Prêm io Lenine. Quais serão esses j uízes, quem o Presidente? Não tenho a m ais m ínim a ideia. Naquele tem po antigo, presidia o Júri o Presidente da Academ ia de Ciências da URSS, os vice-presidentes eram o sábio chinês Kuo-Mo-Jo e o poeta francês Louis Aragon, dele faziam parte, entre outros, Anna Seghers, Ily a Erem burg, Pablo Neruda, Alexandre Fadeev, hoj e todos m ortos. Mem bro do Com itê Central do PCUS*, Fadeev era o m anda-chuva.
*PCUS — Partido Comunista da União Soviética.
Ao chegar a Paris encontro na secretária eletrônica recado de Chico, pergunta-m e com o se cham ará o Prêm io Lenine em dezem bro, data em que deve ser concedido: Prêmio Petrogrado, Prêmio São Petersburgo?
Acabo de ver, na televisão, a estátua de Lenine sendo derrubada do pedestal, em Vilnius, na Lituânia. Em Moscou passaram -lhe a corda no pescoço, não a derrubaram porque o buldôzer não chegou a tem po, a estátua é enorm e, pesada dem ais para m ãos nuas, m esm o raivosas. Leningrado voltou a ser São Petersburgo, creio que não m ais haverá prêm io coisíssim a nenhum a: a outrora im ensa consagração que com eçou sendo Prêm io Stalin que eu e Oscar Niem ey er recebem os... quando? No século passado? Nem Prêm io Lenine, tam pouco Prêm io São Petersburgo, cheguei atrasado pois o com boio da História som e na distância em velocidade m aior que a da luz. Com a corda no pescoço, vacilo sob o peso da estátua em m eu cangote, digo a Zélia: