Navegação de Cabotagem
Rio de Janeiro, 1953.
*Ariovaldo Matos (1926/1988), escritor e jornalista.
Acom panhado por Matilde, Pablo desce do avião, nos abraçam os peito contra peito, face contra face, faz tem po que não nos vem os. Tendo vindo para o j úbilo do reencontro fraterno na cidade predileta — o casario, a m úsica, a capoeira, o vatapá, o cam arões e as lagostas — e não para a m asturbação dos funerais, Pablo sussurra-m e ao ouvido, a voz m agoada:
— No m e preguntes por nadie, com padre, se m urieron todos. Restam os solam ente nosotros.
Sob a batuta de Ariovaldo, as baianas cercam o poeta, atam -lhe ao pulso a fita do Bonfim , a branca, a de Oxalá, dão-lhe as boas-vindas.
Rio de Janeiro, 1953.
Exposição
Pancetti* zanga-se com igo, am eaça rom per relações, fazer escândalo, considera-m e um ingrato, não m ereço a fam a de bom am igo, não adianta dar-lhe explicações, não as aceita. Exige que eu intervenha j unto ao pecê e j unto às autoridades soviéticas para que sej a realizada em Moscou um a exposição de suas obras — considera m inha intervenção decisiva, ai de m im !
*José Pancetti (1904/1959), pintor.
Bem que gostaria de ver a pintura de Pancetti exposta não apenas em Moscou m as em todas as capitais do m undo, m as o reconhecim ento internacional das artes plásticas brasileiras torna-se difícil por se encontrarem lim itadas aos cânones da Escola de Paris. Será que existe pintor nacional, à exceção de Lasar Segall, tão j udeu alem ão quanto brasileiro, capaz de interessar os críticos e os colecionadores europeus? Refiro-m e à pintura e à escultura, não falo do desenho e da gravura: Aldem ir Martins obteve o grande prêm io de desenho da Bienal de Veneza. Para a repercussão m undial falta aos nossos pintores realizar pintura brasileira, não apenas na tem ática e nas cores, m as tam bém na inventiva plástica, deixar de copiar a Escola de Paris, fazer com o fizeram os m exicanos: a pintura do México é nacional, não está presa às m odas da Europa. Por isso m esm o que original e própria, se Proj eta, se im põe m ais além das galerias e das coleções do país. Falta aos nossos artistas criar a expressão brasileira das artes Plásticas. Enquanto não o fizerem som ente os naïfs existirão no m ercado internacional. O em buste do sucesso e das vendas em m ostras na Europa, em galerias alugadas pelos artistas, retum ba no noticiário da im prensa brasileira, nas colunas sociais: a arte de Fulaninha, de Sicrano ou de Beltrano conquistou Paris.
No caso da União Soviética a coisa se com plica devido a razões ideológicas: as teses de Zdanov, o teórico de Stalin para a literatura e as artes, consideram arte degenerada tudo quanto foge aos lim ites da academ ia. As telas de Picasso, de Chagall, de Matisse, de toda a grande pintura m oderna, estão trancadas em salas do Erm itage*, proibidas ao público, não são m ostradas nem expostas. Exposição de Pancetti, nem pensar.
*Museu do Ermitage, em Leningrado.
Basta que fales com Eremburg e estará tudo resolvido, decreta o pintor, dou-m e conta que realm ente acredita em sabotagem de m inha parte, fico indignado, ele não tem direito de duvidar de am izade tantas vezes com provada. Ao m esm o tem po não posso lhe dizer a verdade sem lhe ferir a vaidade: duvido que Ily a aprecie sua pintura. Quanto às autoridades soviéticas j unto às quais Pancetti valoriza m inha influência, para elas a pintura de nosso m arinhista está condenada pelo regim e, excluída das salas de exposição: se não exibem Picasso por que irão exibir Pancetti?