Navegação de Cabotagem
Rio de Janeiro, 1953.
*Paulo Cavalcanti, escritor.
Anna na roda de am igos, quem m ais devota da am izade, quem m ais fraterna? No picadeiro da ação política, na tentativa de vislum brar o futuro, Anna, gentil dom adorar dança com seus três ursos, assim dizia de Ily a, de Pablo e de m im , confiava em m im , acreditava-m e capaz de desatar o nó, de indicar a rota e resolver o problem a. Roda de am igos, tantos, a vida inteira, um deles se cham ou Gy orgy Lukács, filósofo, quis traçar os rum os da literatura com unista na incerteza das circunstâncias, nos currais do pecê ousou pensar por sua cabeça, tentou acender um a lanterna na escuridão do stalinism o, pagou caro a audácia do pensam ento e da ação, penou m isérias. Ministro da Cultura no governo de Im re Nagy foi condenado à m orte com o os dem ais, não se atreveram a enforcá-lo, viveu prisioneiro o resto de seus dias, no opróbrio, na solidão, pregada ao peito a estrela da traição, j udeu, dissidente, renegado, hom em livre. No degredo afirm ava a liberdade, Gy orgy Lukács.
Ao ver-m e aparecer na fím bria do j ardim , Anna suspende a escrita e propõe: vamos escrever uma carta a Gyorgy? Vive tão abandonado, quem sabe a carta chegará às suas mãos? Redigim os a m issiva de carinho e de saudade. Soube por Anna que o condenado a recebeu, sentiu o calor da am izade, havia quem pensasse nele e o sustentasse. Anna m e explica num gorj eio:
— Cada qual seu erro, o de Gy orgy é a dúvida, o m eu é a certeza. Ele deixou de acreditar, eu acredito e acreditarei m esm o contra a evidência.
Mesm o contra a evidência, assim Anna m archou soldado raso até a m orte: cada qual seu erro, m e disse no j ardim . Anos depois, um dia, seu filho Pierre* buscou no j ardim da casa do Rio Verm elho, à som bra do sapotizeiro, o rastro da m ãe: a doçura, a intransigência, a lealdade, tudo nela foi por dem ais.
*Pierre Radvanyi, físico.
Rio de Janeiro, 1953.
Direitos autorais
Recebo um a carta de Howard Fast, trata de direitos autorais, ao que parece a ele os devo e não lhe pago. Conheci Howard Fast em Paris, em 1949, no Congresso Mundial dos Partidários da Paz, ele e Paul Robeson eram os expoentes da delegação norte-am ericana. De Robeson fiquei am igo e o fui enquanto ele viveu, com Howard Fast tratei pouco, apesar de ser adm irador babado de Spartacus e de Meus gloriosos irmãos. Em 1956, com o resultado da denúncia do stalinism o por Kruchev, escreveram -se num erosos livros, sobretudo dois deles m e agradaram : O retrato, de Oswaldo Peralva — tudo que nele está contado é a expressão da verdade —, e O Deus nu, de Fast, sofrido e em ocionante.
Em 1953 eu criara a coleção Romances do Povo na editora do pecê, dirigida à época por Alberto Passos Guim arães, escolhia os livros, os tradutores quando era o caso. Inaugurei-a com a tradução de Les Seigneurs de la Rosée (Os donos do orvalho), de Jacques Roum ain, publiquei Dalcídio Jurandir, Alina Paim , Anna Seghers, Halldor Laxness, Ting Ling, Boris Polevoi, Ferreira de Castro, entre outros bons autores. Dois livros de Howard Fast: Spartacus e Sacco e Vanzetti.
A carta de Fast relata que seu agente literário com unicava-lhe a existência de edições piratas no Brasil, de dois livros tem certeza, obteve exem plares, um a das obras vítim as da vigarice, Spartacus, anda pela segunda tiragem . O agente cita os nom es da editora e do diretor da coleção, anuncia processo, providências drásticas, ao ler m eu nom e Fast pede-lhe que espere, vai m e escrever, perguntar o que se passa. Escreve-m e, pergunta-m e o que se passa, respondo-lhe: a coleção existe, sou o diretor, escolho os títulos, os tradutores, aí term ina m inha responsabilidade, o estabelecim ento dos contratos, o pagam ento dos direitos são assuntos que com petem à editora, o agente deve se dirigir à em presa, nada tenho a ver. A Editora Vitória, aviso, pertence ao Partido Com unista Brasileiro, solicito um favor a Howard Fast: se conseguir receber um tostão que sej a, m e avise por telegram a, a Vitória m e deve um a fortuna, cinco edições do Mundo da Paz, não sei quantas do Cavaleiro da Esperança, nem um vintém furado de direitos autorais.