Navegação de Cabotagem
Paris, 1991.
Álvaro Salema
A m orte de Álvaro Salem a chega-m e pelo telefone, repetida: prim eiro Nuno*, logo José Carlos**, por fim Celestino, solidários, tristíssim os, um telefonem a atrás do outro. Ai, m eu Deus! exclam o quando Nuno m e diz: desculpa chamar-te para má notícia, Salema morreu. Quem foi? — pergunta Zélia ao escutar m eu lam ento: a cada sem ana pelo m enos um am igo vai-se em bora, o vazio se torna m aior.
*Nuno Lima de Carvalho, jornalista português.
**José Carlos de Vasconcelos, jornalista português, diretor do Jornal de Letras.
A partir de agora Portugal será m enos ensolarado, m enos alegre, m enos fraterno. Perco o am igo português de toda a m inha vida, o am igo perfeito, o de todos os instantes, aquele que tudo sabia e tudo podia entender. Os acontecim entos dos últim os anos, a crise da sociedade soviética deixavam -no enferm o, num silêncio doloroso, percebi que ia se retirando da vida, sem alarde, na discrição com que vivera. Quando estivem os j untos em agosto deste ano aparentava m elhor saúde, estás ótim o, eu lhe disse, estou no fim , m e respondeu. Senti que não voltaria a vê-lo, ainda bem que vim a Lisboa a tem po de encontrá-lo, de com er à m esa de Elisa*, de com ele recordar Ferreira de Castro, Fernando Nam ora, nossos m ortos.
*Elisa, mulher de Álvaro Salema.
Eu proj etara ir a Portugal nesse outubro assistir à posse de Marcos Vinícius Vilaça na Academ ia de Ciências, aplaudir o colega de duas Academ ias, Calá e Auta Rosa** estarão na festa, será alegre patuscada. Já não irei, cadê coragem de olhar para o rosto de Elisa, de pronunciar o nom e de Álvaro?