Navegação de Cabotagem
Bahia, 1968.
O maldito
Por vias travessas recebo os originais de um livro de poem as, acom panhados de palavras escritas a m ão: leia, guarde, um dia conversarem os, você m e dirá o que acha. Conheço bem a letra, não faz falta assinatura: o autor dos poem as com anda a guerrilha urbana, sequestra em baixadores, liberta presos políticos, caçam -no todas as polícias, as civis e as m ilitares, torturadores e gorilas, cham a-se Carlos Marighela.
Poem as ardentes e ingênuos, m ais revolução do que inspiração, m usicaram alguns na Nicarágua: o grande poem a de Marighela foi sua vida, tem da epopeia e da berceuse, devotam ento e luta, a determ inação, a pureza, o destem or, a lealdade. Eu o conheci rapazola, cursava a Escola Politécnica da Bahia, tom ado preso ainda adolescente cum priu pena de dez anos de prisão, passou a j uventude entre as grades da cadeia, não perdeu o ânim o, não se fez am argo, conservou o riso de m enino, sabia rir com o poucos são capazes, riso franco, sadio, confiante. Hom em de ação e não teórico arrogante, a poesia m arcou cada instante de sua vida.
Depois que o assassinaram seu nom e foi tabu: m aldito, não era pronunciado nem ouvido, nem sugeri-lo se podia: censuraram m úsica de Jorge Ben, Charles Anjo 45, Charles podia ser Carlos, Carlos Marighela. Fraternos desde a adolescência, j untos prosseguim os na difícil travessia da esperança e do desespero — eu o vi chorar ao escutar o relato dos crim es de Stalin, perdêram os nosso pai —, m ilitava na determ inação e no escrúpulo, eu o sabia feito de ternura e ira. Em 1974 rom pi com o tabu, escrevi sobre ele no Bahia de Todos os Santos: "...retiro da m aldição e do silêncio e aqui inscrevo seu nom e de baiano, Carlos Marighela."