Navegação de Cabotagem
Rio, 1961.
O colarinho e a proposta
Ao ingressar na Academ ia Brasileira o im ortal (sic) recente, de fardão novinho em folha, tem a ilusão que irá reform ar a instituição, lim par-lhe o ranço, acabar de vez com os preconceitos e as pequenezes, fazê-la com o ela devia ser, a Academ ia, e não será j am ais.
Eleito em 1961, ao vestir o fardão para ir tom ar posse da cadeira cuj o prim eiro ocupante foi Machado de Assis, tendo com o patrono José de Alencar, cadeira para rom ancista, sentindo-m e afogar pelo infam e colarinho de celulóide, peço a Zélia um a tesoura, com urgência, e o reduzo a m etade da altura, posso respirar. Tão grande a surpresa de Zélia, não lhe deu tem po de protestar e im pedir o sacrilégio.
Nessa ocasião o Prêm io Machado de Assis, o m aior do cenáculo, destinado a recom pensar a cada ano a obra com pleta de um escritor, tinha a m ísera dotação de 25 m il cruzeiros. No m esm o ano de 1961 a Editora Nacional, de Othales Marcondes, criara, para com pensar livro de poesia inédito, prêm io de 400 m il cruzeiros, dezesseis vezes m aior que o Machado de Assis. Não tive a m enor hesitação: na prim eira sessão a que com pareci após a posse redigi, assinei e entreguei à Presidência proposta form al aum entando a dotação de nosso prêm io para quinhentos m il.
Austregésilo de Athay de recebeu o papel, leu, balançou a cabeça, disse: remeterei ao plenário em tempo útil. Até hoj e, trinta anos depois, m inha prim eira e única proposta não chegou ao plenário para discussão e votação. Tem po útil da Academ ia Braseira.
Lisboa, aeroporto, 1953.
O jantar
Se m e perguntassem qual o prêm io m aior que m e foi dado receber em m inha vida de escritor, o m om ento culm inam eu responderia sem vacilar:
— O j antar na sala de trânsito do aeroporto de Lisboa.
A foto do fam oso j antar, publicada no livro de Álvaro Salem a*, foi reproduzida por José Carlos de Vasconcelos no Jornal de Letras de Lisboa: apareço sentado entre Ferreira de Castro e Maria Lam as**, vê-se ao fundo o fam igerado inspetor da PIDE, Rosa Casaco, envolvido depois no assassinato do general Delgado. Mário Dionísio***, um dos presentes, recordou em artigo no m esm o Jotaele os detalhes daquela prova de am izade, de solidariedade, ação de luta contra o salazarism o no apogeu, quem a consideraria possível?
*Jorge Am ado, Presença em Portugal, editora Europa-América.
**Maria Lamas (1893/1983), escritora portuguesa.
***Mário Dionísio, escritor e pintor português.
Voltando de Moscou, via Estocolm o, telégrafo a Ferreira de Castro pedindo-lhe que venha m e ver no aeroporto de Lisboa, onde dem orarei um a hora na sala de trânsito durante a parada do avião. Escritor m aldito, sem direito a visto de entrada, via-m e lim itado à sala de trânsito nas sucessivas viagens que entre 1952 e 1960 realizei à Europa.
Fora encarregado de consultar Ferreira de Castro sobre a possibilidade de lhe ser conferido o Prêm io Mundial da Paz. Contava com o prestígio do rom ancista para que pudesse rom per o cordão de isolam ento que a polícia política estabelecia em m eu redor, m as não confiava dem asiado, o salazarism o não era de brincar em serviço. Daquela vez brincou. Ou apenas quis utilizar o j antar com o um a tram pa para identificar, confirm ar, observar inim igos do regim e capazes de audácia tal, tem erários?
Im agine-se m inha surpresa e m inha com oção ao deparar-m e na sala de trânsito não só com o autor de A lã e a neve: vários escritores portugueses — alguns rostos conhecidos, a m aioria conhecida só de nom e — ali m e esperavam para saudar e abraçar o com panheiro com entrada proibida em Portugal. Sentaram -m e ao centro da grande m esa, de um lado Ferreira de Castro, na cadeira do outro lado iam -se revezando os dem ais, um de cada vez, para duas palavras de afeto. Rápida hora de exaltação, ninguém com eu os m anj ares servidos, era outro o alim ento com que se alim entavam a luta e o sonho.
Adm iro-m e com a quantidade de fotógrafos, acionam as câm aras sem parar, insistindo em registrar todas as presenças, com ento com Alves Redol*: — Muitos fotógrafos, hein...
— Um é nosso, os outros são da PIDE — m e explica.
Noite sem com paração, essa da sala de trânsito em Lisboa, em barquei no avião de coração repleto, no aeroporto a polícia salazarista cerca, detém , interroga prom otores e convivas do j antar.
*Alves Redol (1911/ 1969), escritor português.
Leitores me interrogam, por carta ou de viva voz, querendo saber o que penso das adaptações de romances de minha autoria para o cinema, o rádio, o teatro, a televisão. Vários livros meus foram transformados em cenários para filmes, peças de teatro, novelas e séries de tevê, deles foram extraídos bales, histórias em quadrinhos.
Repito o que já disse e escrevi: a adaptação de um romance para qualquer outro meio de comunicação é sempre uma violência contra o autor. Por melhor que seja a adaptação, haverá sempre algo fundamental que se modifica, diminui ou cresce, se deturpa ao ser transferido das páginas do livro para o palco ou para as telas, a grande dos cinemas, a pequena das televisões.
É natural que assim suceda. Ao escrever um romance realizo trabalho artesanal, sou um artesão tentando alcançar a arte literária. Quando inicio um livro somos apenas eu, a máquina de escrever, o papel em branco. Esse caráter artesanal desaparece quando o romance é adaptado: cinema, rádio, televisão são o oposto do artesanato, são indústria e comércio, o produto a ser oferecido, a ser visto ou ouvido (e não lido) deve corresponder às exigências do mercado. Para realizar um filme não bastam o autor, o papel em branco, a máquina de escrever (máquina de escrever no meu caso de velho atrasadão, os jovens escritores como dona Zélia Gattai, Fernando Sabino, João Ubaldo Ribeiro utilizam computadores, salve eles!). Da realização de um filme participa pequena multidão: o produtor, o diretor, o cenarista e o cenógrafo, os diretores de fotografia e de som, o compositor, os músicos, os intérpretes, os técnicos de toda espécie, de iluminação, de vestuário e bote gente nisso, um nunca acabar. Na televisão acrescem a audiência, o público, os telespectadores que, sentados ante os vídeos, assistem os episódios da novela e sobre ela, sobre a história e os personagens exercem influência decisiva: um simples figurante cai no gosto do público pode passar à personagem principal, as tramas se desdobram em função da audiência. O autor do romance sente-se agredido a cada instante, de repente não mais reconhece sua obra
Por que então você aceita que adaptem seus romances, se sabe que irá se chatear, se aborrecer, sofrer? Por três motivos, volto a responder, os três de igual importância. Começo por constatar que mesmo nas piores adaptações, naquelas que mais se distanciam da obra original, de seu conteúdo, de sua verdade, algo resta daquilo que o escritor quis dizer, da emoção que desejou transmitir, algo permanece, se reafirma, quase sempre o essencial Esta a primeira razão.
Em segundo lugar porque a obra escrita alcança um público de alguns milhares de leitores, a tiragem de dez mil exemplares já é considerável, um best-seller brasileiro anda pelos vinte mil e olhe lá, existem os casos excepcionais, os exageros de cem, duzentos mil, bem raros os verdadeiros. Enquanto isso os filmes, as novelas e séries de televisão são vistos por milhões de espectadores, incluindo milhares e milhares de analfabetos sem possibilidade de acesso ao livro. Tieta — falo da novela de televisão escrita por Aguinaldo Silva baseada em meu romance — era vista cada noite por cinquenta milhões de apaixonados, segundo me informam. Aquele algo que restou de meu romance alcançou essa massa imensa.
Para ser honesto devo acrescentar o terceiro motivo, também ele substancial. Sou um escritor que vive exclusivamente dos direitos autorais provenientes das edições, traduções e adaptações de meus livros, não tenho outra fonte de renda.
Aproveito para responder a outra pergunta: se acompanho o trabalho do adaptador, se com ele discuto, concordo, discordo, exijo modificações, fidelidade etcetera e tal. Nada disso, não me envolvo com a adaptação, deixo inteira e completa liberdade ao adaptador não quero saber de nada, de nada, absolutamente. Penso que uma adaptação para ser boa deve ser recriação e não pastiche da obra adaptada. Se o autor se mete vai dar em droga.
Para terminar, um conselho dado de graça, fruto da experiência. Se você não quer sofrer com a adaptação de seu romance, meu confrade, não assista ao filme, à novela, à peça, à desgraceira. Receba os direitos autorais adiantados, cobre alto, o mais alto que puder, é uma compensação — e não assista, recuse ir ao cinema, ao teatro, evite a televisão, se não quer se aporrinhar.