Navegação de Cabotagem
São Paulo, 1945.
A cada visita ao dúplex de Pierre Seghers*, Zélia e eu ad-m irávam os a grande tela de Di Cavalcanti*, pendurada no alto da escada, reencontrávam os o Brasil, o sol e as m ulatas, Di lhe ofertara o quadro quando da visita de Pierre ao Rio de Janeiro, em 1956.
*Pierre Seghers, editor francês.
**Emiliano Di Cavalcanti (1987/ 1976), pintor.
Um dia, enquanto o casal Seghers descansava na tranquilidade do cam po, em Creteuil, um ladrão erudito, à frente de quadrilha especializada em roubo de arte, penetrou no apartam ento, deixou as paredes nuas, levou toda a coleção. Toda, exceto o quadro de Di que restou solitário sobre a escada: a erudição do chefe da gangue não incluía a arte brasileira.
Valdem ar Szaniecki, dito Lindinho quando pobre e m alhado j uiz de futebol na Bahia, tendo vindo a São Paulo arbitrar um a partida, gostou da praça, trocou o apito pelas artes plásticas, especializou-se em Pancetti, Di e Cary bé, tornou-se logo m ilionário, possui edifícios de apartam entos, quadra de tênis, cam po de golfe, dá-se o luxo de com por m úsica popular, escrever letras, parceiro de Tom Zé, nascido na tribo de Moisés é filho-de-santo de Olga do Alaketu, Lindinho sincretizou Jeová com Oxalá! Os bolsos repletos de dólares, vasculha as capitais europeias em busca de quadros de revenda certa no Brasil, lucros polpudos. Zélia lhe contou do quadro de Di, o que sobrara da m ão baixa do ladrão, Valdem ar atacou e quando Lindinho ataca, quem lhe pode resistir? Trouxe o quadro de volta para o Brasil onde o cedeu — Lindinho não vende, cede — por preço astronôm ico.
Em term os de m ercado de arte internacional, Valdem ar o com prou barato, ainda assim pagou por ele bom dinheiro, Pierre Seghers ao em bolsar os dólares fez autocrítica:
— Não im aginei que um quadro do Di Cavalcanti valesse tanto. Nem eu nem o canalha do ladrão.
São Paulo, 1945.
Os Gattai
Celebram os Caio Prado Júnior na livraria repleta de adm iradores. Paulo Mendes de Alm eida aponta-m e Wanda m eio escondida à som bra de um a estante: — Vej a com o é bela! Repare no rosto, rosto de escudo, um a beleza hereditária, de séculos.
Os poetas sabem , eu apenas confirm o: a irm ã m ais velha de Zélia é realm ente bela, o rosto plácido, sonhador, escudo de Veneza. Não tive tantas oportunidades com o desej aria de conviver com Wanda, com seu m arido José, com seus filhos, m as ouço-lhe a cada dia o louvor na boca da irm ã caçula. Zélia guarda-lhe intacta a adm iração de m enina, para ela Wanda sim boliza a perfeição.
Tam pouco conheci de perto os irm ãos, Rem o e Mário, Tito de apelido, não foram de m inha intim idade. Radical, Tito cultivava da boca para fora a aspereza e a intransigência, m antinha correspondência com Zélia, estivesse ela onde estivesse cobrava-lhe a fidelidade com unista. Da boca para dentro era protético de fam a e clientela. Seu cliente Jam es Am ado o prom oveu a dentista — alm as irm ãs, confraternizaram na m á-língua, línguas de trapo —, até hoj e faz o elogio do profissional e do cidadão. Levou-lhe clientes, Ricardo Ram os entre outros — no atelier do perito cresceu a anim ação do bate-boca, o ranger das dentaduras em roda de sotaque.
Quem eu conheço de sobej o é Vera, a irm ã do m eio, privei com ela, com seu m arido Paulo, hom em bondoso, inteligente e lido, fom os am igos. O filho único do casal, m eu sobrinho Fábio, está na relação dos seres de m eu carinho, trata-se de um a espécie de força da natureza desencadeada na fam ília. Igual a m im , nasceu destinado à carreira cinem atográfica, igual a m im as agruras da vida im pediram -no de realizar a vocação. Ainda assim foi m ais longe do que eu, não passei de obscuro coadj uvante do cinem a nacional na fase heróica das chanchadas, fase áurea: não havia subvenções oficiais, m as havia público, espectadores.
Fábio iniciou com brilho o que deveria ter sido ininterrupta cadeia de sucessos, assistente de direção de Mário Brazini em dois film es na década de cinquenta, nos dois figurou de ator, dem onstrou aptidão, sobrava-lhe bossa, iria longe com certeza não fosse tão frágil a estrutura da cinem atografia brasileira. Mário Brazini gabava a qualidade do assistente, eu enalteço os m éritos do ator.
No prim eiro film e um a aparição fugaz, apenas, não deu para guardar m em ória. No segundo, porém , coube a Fábio viver o papel — curto m as inesquecível — de repórter fotográfico: em m eio à m assa de fãs, espreitava a chegada de fam osa estrela para fotografá-la à sua revelia. Quando a gloriosa desceu do carro, Fábio gritou-lhe o nom e para tê-la de frente para a obj etiva: Gilda! Sua única aparição, sua única fala, m as que aparição, que fala! Quem viu O filho do cangaceiro j am ais esquecerá aquele grito saído das entranhas, Gilda!, j am ais esquecerá a expressão do repórter fotográfico no m om ento de acionar a câm era, realm ente o ponto alto da película. Quem viu o film e? Se desej am saber, Zélia e eu o vim os ao m enos três vezes, Janaína, João Jorge, Palom a, levados pela tia Vera, m ãe coruj a, foram à m atinê durante todas as tardes enquanto a película de Brazini ocupou a sala do cinem a Ricam ar, em Copacabana. Mas, ah, que vocação resiste às inconsequências do Brasil? Um a lástim a, não m e conform o.
Vera foi perfeita na dedicação a Zélia, não a desam parou j am ais. Enquanto a caçula vivia o exílio nos descam inhos da política, ela a substituiu nos cuidados com Luiz Carlos; no Rio tom ou conta de João Jorge e de Palom a, possibilitando à irm ã a circunavegação pelos avessos do m undo.
Um dia Zélia decidiu contar suas m em órias de filha de im igrantes italianos, ao tom ar da m áquina de escrever levava na retina a im agem de dois heróis de sua infância: o pai Ernesto, revolucionário, preso político, cam peão de corridas de autom óvel, a intrepidez e a flam a, e a irm ã Wanda, a do rosto de escudo, a bela de Firenze nascida em São Paulo. Ao term inar a escrita de Anarquistas, graças a Deus, a esses dois heróis se haviam som ado as figuras, quem sabe ainda m ais sedutoras, da m ãe Angelina, operária, e da irm ã Vera, a do m eio; haviam crescido nas páginas do livro para o prim eiro plano na foto da fam ília.
Quem definia Vera com precisão era dona Angelina — quando alguém vinha com entar as viagens da filha m ais m oça, andanças europeias, africanas, asiáticas, do Bósforo ao m ar Báltico, do rio Am arelo ao m ar Negro, ela repetia a afirm ação: Zélia nasceu com a estrela, mas Vera, essa sim, é um colosso. Está em casa bem do seu, eu digo: Vera, vamos a São Caetano visitar tia Joana e ela em dois tempos está pronta, de chapéu na cabeça e sombrinha na mão. Um dia eu lhe disse: Vera, tenho necessidade de ir a Santos, não sei como fazer, pois acredite o senhor: não passou meia hora estávamos as duas no ônibus para Santos, imagine! Vera, sim, é um colosso! Concordo e dou testem unho, Vera é poderosa.
Nenhum dos cinco filhos paridos do m atrim ônio da vêneta D'Acol com o toscano Gattai perm aneceu no gueto da im igração, europeus de olhos azuis, casaram -se todos eles com gente de outras procedências. Não apenas os cinco irm ãos Gattai: os italianos aqui chegados em busca de trabalho ou de liberdade logo m isturaram sangues e costum es com os nacionais. Para m e lim itar à fam ília, um a filha do Tito, Marice (Ma do pai Mário, rice da m ãe Clarice, adoro esses nom es estram bóticos, afirm ação pública do am or dos cônj uges), Marice casou-se com um filho de árabes, a prim a Odila uniu-se em m atrim ônio a um j aponês, o citado Fábio tom ou de esposa a cabocla Carm em no interior de Minas — a relação da m istura ocuparia páginas e páginas, m esclam -se sangues europeus, africanos, asiáticos, indígenas, forj am a raça brasileira, evviva! axé!