Navegação de Cabotagem
Bahia, 1989.
A herança
A pedido de Sérgio Machado telefono para Paulo Niem ey er*, no Rio de Janeiro, Alfredo vem de term inar os exam es m édicos a que se suj eitou, solicito o diagnóstico, recebo a confirm ação terrível: tum or no cérebro. Caso difícil, escuto e esqueço nom es de sarcom as cada qual m ais m aligno, caso perdido. A Paulo Niem ey er não lhe parece que operação possa resolver, ele não operará, m as se Alfredo e a fam ília quiserem tentar clínica norte-am ericana...
*Paulo Niemeyer, médico, neurocirurgião.
Quem não quer tudo tentar, o possível e o im possível, da quim ioterapia aos ebós de candom blé, cirurgia se for o caso, na luta contra a m orte? Lá se vai Alfredo para os Estados Unidos apoiado no braço de Glória, os doutores ianques confirm am a decisão do sábio brasileiro: inútil operar, vão experim entar tratam entos novos, quem sabe, pode ser. Inicia-se um período de viagens sucessivas entre Rio e Nova York, Alfredo não perde o ânim o, lutador incorrigível. Zélia e eu telefonam os diariam ente, ele próprio atende, fala de sua luta contra o m al, conta a últim a anedota, a am eaça e a esperança — a esperança, ai, dim inui a cada dia.
Por m ais de um ano, a m orte de Alfredo nos faz com panhia, não consigo escrever, perco o gosto da conversa e do riso. Saio do Brasil para não ter que ir ao Rio visitá-lo. Escondo-m e no tum ulto, na correria de um lado para outro, de cidade em cidade, de país em país, congressos, sem inários, sim pósios, vou de evento em evento.
A m orte de Alfredo é prolongada e m undial. Am igos de toda parte telefonam por notícias, Herbert Lottm an, Jean-Claude Lattès, Ray -Gude Mertin, Carm en Balcells, Jean Rosenthal, Tom Colchie, os Raillard, Jurgen Gruner, dos Estados Unidos, da França, da Alem anha, Nurchian Kesim telefona de Istam bul, de Rom a Luciana Stegagno Picchio, de Lisboa João Conde em pranto. Alfredo tem am igos no m undo inteiro, escuto-os ao telefone, a voz aflita, à espera de um m ilagre. Mais que todos telefona o próprio Alfredo, no passar dos dias a conversa vai-se fazendo penosa, interrom pida de silêncios, recebo pelos ares o cansaço e a m ágoa.
Eu transm itira a Alfredo a ideia de um rom ance contando as atribulações de j ovem brasileiro na circunstância da ditadura m ilitar, década de 60 com os hippies, faça o am or não faça a guerra, a revolução sexual, a prom iscuidade, a m aconha, a guerrilha urbana, a contestação geral, aquela confusa atm osfera. Rom ance na linha das histórias de Quincas Berro d'Água e do Capitão de Longo Curso, ou sej a, a identidade discutida, onde a verdade, onde a m entira? Da ação nada sabia, nunca sei a não ser quando m e ponho a escrever e os personagens com eçam a viver. Mas j á tenho o título, o nom e do herói, causa de equívocos: cham ar-se-á Bóris, o Verm elho.
Alfredo, editor por excelência, não m e largou m ais o pé, queria o livro a todo o preço. Durante os quatorze m eses da m archa im piedosa cobrou-m e o rom ance que, a partir de certo m om ento, perdera para m im todo o interesse. Um dia Sérgio telefona: o fim se aproxim a. Zélia liga para Alfredo, diz-lhe que estou trabalhando no rom ance de Bóris, não tardarei a lhe enviar os originais. Contém o choro, inventa: a m entira sai-lhe correntia, a ela que não gosta de m entir. Alfredo ainda tem forças para pedir detalhes.
Dias depois, esperada, incrível, a notícia do falecim ento. Alfredo deixa-m e de herança a ideia do rom ance, a prom essa de colocar no papel as atribulações do j ovem brasileiro. Vou para a m áquina de escrever, a som bra de Alfredo m e acom panha, vai com igo, de fiscal. Quatro vezes com ecei, quatro vezes desisti, m as um dia hei de term inar a história de Bóris, o Verm elho, m ais de Alfredo Machado do que m inha.