Navegação de Cabotagem
Rio de Janeiro, 1930.
Presente do Coronel encantado com os palavrões e as cantigas de deboche, Floro veio viver comigo minha vida incerta, levei-o para São Paulo, fomos casal feliz. Aprendeu linguagens finas, fez-se militante, repetia slogans políticos, vote em Fiúza!, abaixo Dutra!, dava vivas a Prestes e ao Partido Comunista, substituiu as modinhas pornôs por composição eleitoral: ai Maria, ai Maria, vam os votar / ai vam os votar / com Prestes votar no Partido Com unista. No Peji de Oxóssi assobiava chamando os cães, ciscava convocando as galinhas, parecia regenerado, abandonara a bandalheira. Mas de quando em quando, ao ouvir certas palavras — cabaré, por exemplo —, voltava-lhe o passado inteiro: a má vida, o raparigal, os palavrões, as cantigas porcas, de letra fescenina: ai que cheiro de cu, ai que cu m ais cheiroso, nunca vi tanto cu, se lhe desatava a língua suja: o xibiu de Felipa é de chupeta, com i o eu de Laura no curral, gritava chamando por Betinha, Betinha não respondia, Floro se zangava: cadê tu, Betinha, puta descarada? Um show, Marighela teve ocasião de ouvi-lo, se encantou. Na Bahia, acompanhava Carybé e João Ubaldo na melodia do capim barba-de-bode, afinadíssimo.
Depois da morte de Capitu e Pickwick decidi não ter mais nenhum bicho em minha companhia, quando um deles se finava meu sofrimento era por demais terrível, igual ao que sinto com a morte do amigo mais querido.
Rio de Janeiro, 1930.
O brocha
Brochei, não um a, várias vezes, hum ilhação suprem a. Acontece a intensidade do desej o resultar em inibição, quase sem pre m e recuperei a tem po de afirm ar-m e m acho garanhão. Algum as vezes, porém , não teve j eito, gram ei a vergonha da bandeira a m eio-pau, pururuca, quando não arriada sobre os ovos, inútil, incapaz.
De um fracasso j am ais m e esqueci, ainda ressoa em m eus ouvidos a voz do infante despertado do sono. Conheci Maria de Montevidéu na praia de Copacabana, infalível por volta das nove da m anhã, m aio pudico, de sam ba, pela m ão o filho de três anos. Enquanto a criança ia e vinha nas proxim idades, cavava túneis na areia, Maria de Montevidéu nam orava, não tinha outra hora para o galanteio: o m arido, representante de firm a da República Oriental, trabalhava em casa, transform ara a sala de visitas em escritório. Ela não era aquela beleza fatal m as bonitona e audaz ria com os dentes brancos e trauteava tangos: o tango nasceu no Uruguai, os argentinos nos roubaram, dava detalhes.
Deitava-m e a seu lado, havia apertos de m ão quando o m enino se afastava, beij inhos, ela m ostrava a língua de todas as prom essas, só que não m arcava encontro para os esponsais. Tinha m edo do m arido, poço de ciúm es, am eaçava-a com chicote se a visse sorrir para terceiros. Além do chicote, exibia revólver com oito balas, gaúcho cam peão de tiro ao alvo: se desconfiar nos mata, a miy a vos!
Um dia, por fim chegara o dia, m e com unicou a boa nova: a cham ado da firm a o Otelo do Uruguai em barcaria naquela tarde para Montevidéu, ela o levaria ao cais, para com provar assistiria à partida do navio, teríam os duas sem anas para a desobriga. Deu-m e o endereço, se não houvesse transtorno m e esperaria às nove da noite j unto à porta apenas encostada, eu só teria de em purrar. Entrasse com cuidado para não acordar o m enino, dorm ia na sala de j antar.
Na Avenida Fon-Fon, beco sem saída, a casa m odesta, toquei a porta com a m ão, abriu — o m arido viaj ara, respirei com alívio. Estava retado de tesão, penetrei no pequeno corredor, Maria de Montevidéu prendeu-m e em seus braços, senti-lhe o corpo sob a cam isola, trocam os o prim eiro beij o de verdade. Na pressa esqueci-m e da recom endação de não fazer barulho, pisei forte, da sala de j antar chegou a voz da criança despertada: papá, papá, dizia e repetia, fiquei gelado. Maria de Montevidéu em purrou-m e para o quarto, foi à sala acalm ar o filho, o choro triste do m enino sucedera à esperança de ver o pai de volta. Maria de Montevidéu dem orou uns m inutos, cantava um acalanto em espanhol, canción de cuna de m elodia e palavras preciosas, aqueceu-m e o coração, enregelou-m e de todo a estrovenga.