Navegação de Cabotagem
Bahia, 1969.
O soluço
Dário Castro Alves sabe Lisboa de cor e salteado, as ruas, os becos, as ladeiras, palácios e igrej as, m onum entos, os restaurantes de luxo, as tascas, com eçou a aprender Lis-boa lendo Eça de Queiroz, com pletou o curso ao servir com o Em baixador do Brasil em Portugal. Leva-m e a beber licores esquisitos, vinhos do porto divinos em tabernas conhecidas apenas pelos requintados, é recebido de braços abertos, freguês preclaro e assíduo.
Não conheci em baixador m ais com petente, creio que sob todos os aspectos, posso dar testem unho da solidariedade hum ana. Durante o dram a de Glauber m orrendo num quarto de hospital Dário não cum priu apenas os deveres do cargo, foi presença constante ao pé do leito. Casado com Dinah Silveira de Queiroz*, ele a fez feliz todos os dias, todas as horas desde que a conheceu e por ela se apaixonou. Enferm a, Dinah foi encontrar-se com a m orte no Brasil, Dário ia e vinha, entre São Paulo e Lisboa, acom panhei seu calvário.
*Dinah Silveira de Queiroz (1910/ 1984), escritora.
Dem orara-se no Brasil ao lado de Dinah, encargos inadiáveis da Em baixada exigiam sua ida a Portugal, os m édicos lhe disseram que poderia viaj ar se fosse por alguns dias, Dinah estava condenada m as o desenlace não seria assim tão rápido, Dário tom ou o avião para Lisboa, ao desem barcar soube no aeroporto que o estado da esposa se agravara, estava por um fio. No próprio aeroporto m arcou a volta pelo avião da noite, o prim eiro a sair para o Brasil, foi à chancelaria despachar os assuntos urgentes, alm oçam os com ele na residência, nos telefonem as de São Paulo a vida de Dinah se esvaía.
No cam inho para o aeroporto se deteve no Casino Estoril Para cum prir obrigação de diplom ata: a inauguração de um a exposição de artesanato português, com um a única representação estrangeira, a do Ceará, terra de Dário.
No hall de entrada Dário Castro Alves, Em baixador do Brasil, ao lado de Manuel Telles, diretor da em presa concessionária do Casino, aguardava a chegada de Manuela Eanes, senhora do Presidente da República, seria ela a inaugurar a exposição. Engolindo o sofrim ento, Dário recebia convidados, saudava-os, desculpava-se, vinha para onde estávam os, Zélia e eu, abraçava-nos, continha a duras penas o soluço e as lágrim as.
O em baixador não poderia partir antes que a prim eira-dam a do país percorresse a exposição de ponta a ponta: para destacá-lo dos estandes portugueses, haviam situado o cearense no fim da m ostra. Quando a senhora do Presidente chegou, ao cum prim entá-la, eu lhe pedi que, rom pendo o protocolo, com eçasse a visita pelo fim , para libertar o em baixador, deixá-lo partir para o aeroporto, o rosto belo de Manuela Eanes cobriu-se de tristeza. Ladeada pelo Em baixador do Brasil e pelo Diretor do Casino inaugurou a exposição, abreviou o ato, dem orou-se um m inuto diante do artesanato cearense, com palavras de afeto liberou o diplom ata.
Acom panham os Dário ao autom óvel, olhou para Zélia e para m im , cobriu o rosto com as m ãos, deixou que as lágrim as escorressem , que o soluço escapasse do peito.
Bahia, 1969.