Navegação de Cabotagem
Bahia, 1935.
É isso aí. A baixaria dos literatos de plantão nas colunas da im prensa escrita esteve à altura dos duzentos m il exem plares vendidos em dois m eses e dos direitos autorais correspondentes. Adem ais Fernando exibe saúde de ferro e é escritor agradável, o antichato por excelência, com o aguentar tanta coisa sem explodir de invej a?
Fernando Sabino, escritor profissional em país de am adores, trinta anos de sucesso, desde o lançam ento do rom ance de estreia, O encontro marcado, publicado em 1956. Êxito tão grande, o autor se assustou, ficou com m edo que um segundo rom ance não saísse à altura do prim eiro, em igrou para a crônica, gênero do qual fez-se m estre, crônica sem pre m arcada pelo ficcionista em férias. O susto durou vinte e cinco anos quando por fim o estreante de O encontro marcado publicou O grande mentecapto, o segundo rom ance repetiu o sucesso do prim eiro. Seguiu-se um terceiro, O menino no espelho, obra-prim a, o livro de Fernando Sabino de m inha preferência. Três rom ances, dúzia e m eia de volum es de crônicas, contos, viagens, entrevistas deram a Sabino posição excepcional em nossas tetras, público enorm e e fiel, sem pre crescente. Tanta fam a, um a fábula de direitos autorais, traduções, adaptações, viagens aos States, à Europa e para culm inar o indivíduo se anuncia baterista de j azz, ah, insuportável! A ordem correu entre a gentalha: vamos acabar com ele.
Não foram razões literárias, discordâncias estéticas que ditaram a opinião dos críticos, quem a com andou foi a invej a cum prindo a ordem em anada dos calhordas: vamos acabar com ele. Aliás alguns dos articulistas escreveram horrores do livro, do autor e da biografada, declarando ao m esm o tem po que por precaução não haviam lido Zélia, uma paixão. Boa crítica é isso se querem saber, o resto é bobagem , atraso de uns pobres-diabos por aí.
Bahia, 1935.
O preço da glória
Dirigida por Dias da Costa, a revista O Momento, de inflam ado conteúdo antifascista e evidente influência do Partido Com unista, no âm bito da luta contra o integralism o, divulga em suas páginas centrais entrevista de Pedro Rego, ilustrada com o retrato do filósofo.
Tipo de rua, vagabundo profissional, achacador im penitente, Pedro Rego é o criador do m ovim ento filosófico intitulado "nossism o", de concepção m ística e de positivas consequências para as finanças do aliciante Pedro Rego — vive dos em olum entos (parcos) com que os sim patizantes contribuem para a expansão da nova doutrina. Pedro Rego com anda o Nosso, navio que navega numa lágrima e se dirige ao fim do m undo onde, em data a ser m arcada, correrá a loteria instituída pelo criador do nossism o e os prêm ios serão distribuídos. Pedro Rego vende a preço razoável — não há preço fixo, depende do freguês — bilhetes para a viagem no oceano da lágrim a com direito a concorrer aos prêm ios funam bulescos quando chegar o dia do sorteio, ou sej a, o dia do j uízo final. O filósofo não intenta enganar quem quer que sej a nem criar seita ou organização partidária, apenas recolhe uns trocados para a cachaça quotidiana, copiosa.
Estava na ordem do dia naquele ano de 1935 a fam osa tôm bola lançada pelo escritor Plínio Salgado, Chefe Nacional da Ação Integralista, m ovim ento político de corte fascista: influências do salazarism o e do corporativism o rom eno. A tôm bola destinava-se a fortalecer as finanças do partido dos galinhas-verdes (assim nós, os da esquerda, designávam os o m ovim ento de direita). A entrevista com Pedro Rego era um a gozação em regra na teoria e na ação dos integralistas, a tôm bola denunciada com o assalto à bolsa dos incautos. Pedro Rego estabelecia as diferenças entre sua honrada loteria e a fraudulenta do Chefe Nacional, entre a filosofia liberal do nossism o — cuj o Mestre e Guia era o general Juracy Magalhães, àquele tem po Governador do Estado — e a doutrina reacionária do integralism o. Pedro Rego lavava a égua, Dias da Costa m andava brasa.