Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 209 de 262

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Rio, 1967.

Os cadernos de estudante

Em 1967 com pus com Guim arães Rosa e Antônio Olinto a com issão j ulgadora do Prêm io Walm ap, prêm io dotado com vinte m il cruzeiros — ou vinte m ilhões, na escalada da inflação, quem sabe a verdade da m oeda brasileira? Cruzeiro, cruzado, cruzeiro novo, centenas, m ilhares, m ilhões, hoj e se conta em dólar — dez m il dólares para o prim eiro colocado, cinco para o segundo, três para o terceiro, os últim os dois m il divididos em quatro prêm ios de consolação. Ganhou os dez m il um rom ancista m ineiro, nom e para nós tão desconhecido que ao anunciar o resultado aos j ornalistas dissem os tratar-se de um estreante. Inform ação inexata. Oswaldo França Júnior j á havia publicado um Pequeno (e ótim o) rom ance, O viúvo, a crítica o desconhecera, o público não o lera, em verdade a carreira literária que o levaria a leitores de várias línguas com eçou com Jorge, um brasileiro, o livro prem iado.

Havíam os com binado, no alm oço do banqueiro que pagava o prêm io, ler os originais em nossas casas, não nos reunirm os a não ser com a leitura concluída, não discutir durante, não confrontar opiniões. Ao térm ino da tarefa cada um de nós três poria no papel os títulos e os pseudônim os dos concorrentes de nossa preferência, nos reuniríam os no Rio, cotej aríam os as listas, discutiríam os, escolheríam os os prem iados. Assim acertado, viaj ei para a Bahia, onde certa tarde um cam inhão descarregou na porta da casa do Rio Verm elho um a tonelada de rom ances, se não chegavam a quinhentos, andavam perto. Com prei um caderno de estudante, iniciei a m aratona, de nenhum li m enos de cinquenta páginas, foi de lascar. Nas páginas do caderno eu escrevi o título do livro, o pseudônim o do autor, o núm ero de inscrição, seguia-se breve com entário, por vezes reduzido a um a ou duas palavras: porcaria, nada de interessante, ruim dem ais. Tivesse o original qualquer interesse eu o consignava no caderno.

Acordava cedo para cum prir a tarefa, enfrentava a m ontanha de originais: havia um de m il e trinta páginas, três de m ais de oitocentas, uns retados, os autores. Certa m anhã quando Zélia chegou para o café com inham e e aipim , com fruta-pão e cuscuz de m andioca — atochava-m e de com ida para dar-m e as forças necessárias à faina do prêm io — eu lhe disse: hoj e li um rom ance que m e pareceu extraordinário, m oderno, brasileiro, a vida transbordando, m ostrei-lhe os originais de Jorge, um brasileiro, prossegui: com o serei o único a gostar dele vou lutar para que lhe sej a dado um dos pequenos prêm ios. Exausto, farto de rom ances, cheguei ao fim da em preitada, escrevi m inha relação, 21 títulos e pseudônim os, m eti o caderno na m ala, fui para o Rio. Reunim o-nos, as três vítim as, no gabinete de Olinto no Ministério da Viação, trocam os as listas, entreguei cópias da m inha, recebi as dos outros dois.

Percorri com os olhos a lista de Rosa para ver se dela constava o m eu livro preferido, lá estava ele, tam bém na lista de Olinto. Exclam ei: Rosa, estou feliz porque em tua lista está Jorge, um brasileiro. Ele abriu-se num sorriso:

— Se depender de m eu voto ganhará o prim eiro prêm io.

— Então j á ganhou porque eu tam bém voto nele, som os a m aioria absoluta.

Nele tam bém votou Antônio Olinto em cuj a lista o rom ance de França Júnior estava colocado em igualdade de condições com o de Maria Alice Barroso — Um nome para matar — que abiscoitou o segundo prêm io. Romance escrito por homem macho, assim Rosa classificou o livro enquanto abríam os os envelopes com os nom es verdadeiros dos concorrentes, o hom em m acho era Maria Alice. O prêm io dos três m il coube a Otávio de Melo Alvarenga, a decisão dos prim eiros lugares não custou trabalho, foi fácil, unanim idade rápida. Trabalho custou decidir sobre os quatro prêm ios de quinhentos, os de consolação, depois de m uita discussão concedidos a Paulo Jacob, rom ancista da Am azônia, hoj e autor de obra vasta, rica de interesse, consagrada, a Benito Barreto, os m ineiros levaram a m etade dos prêm ios, Benito j á era rom ancista de renom e, a Ricardo Dicke, um desconhecido, e a Paulo Rangel. No m om ento de se escolher o últim o prem iado, eu disse a Rosa, que com andara a escolha dos laureados anteriores: Rosa, j á dem os quase todos os prêm ios a rom ancistas que são de nosso gosto literário, vam os dar pelo m enos um a quem não sej a de nosso partido, Olinto concordou, fom os atrás de um rom ance intim ista, decidim os pelo de Rangel.