Navegação de Cabotagem
Lisboa, 1980.
Carlos Lacerda e eu éram os íntim os, m as o m eu am igo do peito, de todos os dias, não tinha etiqueta política: Haroldo Aguinaga, boêm io, filho de pai ilustre e rico. Varávam os a noite de Copacabana na conquista de dom ésticas — algum as deslum brantes: a m ulata Conceição, noiva dele e m inha, deixou a vassoura e o ferro de engom ar, a cam a dos estudantes, para casar-se com um português com erciante rico, quase m orrem os de dor de corno.
A esquerda na Faculdade contava com o apoio de um grupo de professores em inentes: Castro Rebelo, Herm es Lim a, Carpenter, os três acabaram na cadeia em 1935 em consequência da intentona com unista. No lançam ento da Aliança Nacional Libertadora, em com ício na Esplanada do Castelo, coube a Carlos Lacerda a prerrogativa de ler o m anifesto de Prestes, com Roberto Sisson e vários outros soltei o verbo, depois fom os com em orar em casa de Álvaro Morey ra.
Eu ingressara na Faculdade para fazer o gosto a m eu pai que queria o filho com diplom a de doutor, naquele então dizia-se doutor a todos os que com pletavam curso universitário. Passei o exam e vestibular com m édia alta pois um dos exam inadores foi o professor Porto Carreiro, tradutor de Cirano de Bergerac de Rostand. Devorador de literatura francesa, eu conhecia a tradução, sabia versos de cor, declam ei-os, desdobrei-m e em elogios. Tive dez em literatura, nota m áxim a, som ada às notas de história e de filosofia fiquei com oito e m eio de m édia, o coronel João Am ado vibrou, aum entou-m e a m esada.
Não seio que foi feito de Galo Doido, que fim levou, com o andará sua exaltação, seu fanatism o? Não consigo sequer recordar-lhe os nom es de batism o e de fam ília, a glória é passageira. Não a glória de Vinícius, ainda na Faculdade ganhou o louvor da crítica e das elites com os poem as católicos, odes e elegias, ganhou o povo com os versos de am or, com o poem a O operário em construção, publicado no prim eiro núm ero do Paratodos, conquistou o m undo com o cancioneiro m usicado por Tom Jobim Vinícius de Moraes dito o poetinha por ser o poeta bem -am ado E porque hoj e é sábado, dia da criação, recordam -se do poem a? Eu m e recordo: Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas / Porque hoje é sábado.
Lisboa, 1980.
O gigolô
Desem barco no aeroporto de Lisboa, acom panho Zélia que vem participar do lançam ento da edição portuguesa de seu prim eiro livro, Anarquistas, graças a Deus. Os j ornalistas m e atropelam , m ostro-lhes Zélia:
— Hoj e é com m adam e. Venho na qualidade de esposo da escritora com a esperança de em breve aqui chegar na qualidade de gigolô.
Im prensa pudorosa, a portuguesa, nenhum dos repórteres presentes deu curso à m inha perspectiva de vadiagem , pretensão ao ócio, à boa vida, não m e levaram a sério.
Bahia, 1966.
Os tamarindeiros
Conduzo Maureen Bissiliat a recantos da cidade que m e parecem m erecedores do enfoque de sua câm era m ágica, Maureen veio levantar um painel fotográfico da Bahia na intenção de um livro: lugares e figuras. Já fez a Ram pa do Mercado, os saveiros, as frutas e os peixes, Cam afeu de Oxóssi, m estre Pastinha, Olga do Alaketu, o casario do Pelourinho, as putas do Maciel, os Filhos de Gandhi.