Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 79 de 262

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Navegação de Cabotagem

Rangoon, 1957.

Zélia se apronta às pressas, recolhe a chave do carro, diz-m e até logo:

— Onde vais?

— Se você pensa que vou deixar m inha filha sozinha na passeata você não m e conhece.

Sorrio, eu a conheço, e com o! Lá se vai ela, entre preocupada e álacre, de retorno aos dias paulistas de 1945, ao fim da guerra. Passeatas, com ícios, Zélia era a própria anim ação, subia nos palanques, discursava, porta-bandeira nos desfiles. A paixão ela a herdou do pai anarco-com unista, vítim a da ditadura, saiu da prisão para m orrer em casa, cham ava-se Ernesto Gattai, técnico e piloto de autom óveis.

No Colégio de Aplicação a Diretora apavorada tenta im pedir que os alunos tom em parte na m anifestação. Patética apela para Palom a, exem plo de bom com portam ento:

— Pensa em tua m ãe, Palom a!

Zélia salta do carro na porta do Colégio, a diretora exulta:

— Tua m ãe veio te buscar, graças a Deus. Palom a grita sua decepção:

— Mãe!

— Vim para a passeata, vam os.

Os m eninos despencam com o frutos m aduros de um a árvore que alguém sacudisse. Ao lado da filha estreante, a veterana subversiva faz o percurso de perigos, entoando hinos, gritando slogans, reclam ando dem ocracia. Na j anela, na casa do Cam po Grande, Nair e Genaro de Carvalho* reconhecem , assom brados, Zélia em m eio à m eninada. João Jorge vai na frente, na prim eira fila a dos com andantes, aponta a irm ã e a m ãe aos cam aradas: minha mãe!

*Genaro de Carvalho (1921/ 1971), tapeceiro, Nair, sua mulher, pintora.

Mãe e filha chegam em casa num a alegria de prim avera, com entam os lances do percurso, têm os olhos inj etados. Os soldados desem barcaram das viaturas brandindo os cassetetes, atirando bom bas de gás lacrim ogêneo, dissolveram a passeata. Zélia m e avisa:

— Não perco m ais nenhum a.

Rangoon, 1957.

 

A bagagem

Dou dois conselhos e não cobro por nenhum dos dois. Aprendi às m inhas custas, e no caso referido em prim eiro lugar aprendi às custas de Zélia: ao se ver à venda obj eto que se desej a com prar, deve-se com prá-lo de im ediato. Deixar para depois, para m ais adiante, corre-se o perigo de nunca m ais encontrar o que tanto se queria possuir.

Em Karachi, no Paquistão, Zélia descobriu na vitrine o par de sapatos de sua vida: desej ados, lindos, exatam ente iguais aos que vira nos pés da grã-fina do Itam arati cuj o m arido servira na Índia, desde então sonhara um dia desfilar calçando m aravilha sem elhante. íam os apressados, ela ainda quis parar, efetuar a com pra, forcei a m ão. Argum entei: recém -desem barcados no Paquistão, viaj aríam os a índia, o Ceilão, a Birm ânia — sapatos com o aqueles sobrariam nas loj as, ainda m ais bonitos e com certeza m ais baratos, Zélia conform ou-se, desistiu. Rodam os Paquistão, Ceilão, índia, Birm ânia, de norte a sul, de leste a oeste, vinos coisas de assom brar, nunca m ais encontram os sapatos iguais aos que não deixei Zélia com prar. Ainda hoj e não esqueceu, de quando em vez m e cobra os sapatos de sua vida.

Aconselho igualm ente não se deixar bagagem seguir viagem desacom panhada, corre o perigo de perder-se, conosco aconteceu na índia e dessa desdita Zélia teve culpa, não som ente ela, tam bém Pablo Neruda. Vindos de Colom bo, baixam os do avião em Madras, a vacina contra o cólera nos derrubara, a alfândega superlotada. Estávam os m ortos de cansaço, viaj áram os de m adrugada, desem barcáram os doidos para o repouso no hotel. Percorreríam os a índia, nos deteríam os em Bom baim e Nova Delhi, em Calcutá tom aríam os o avião para Rangoon. Arriado num banco assisti Zélia e Pablo confabularem com os guardas alfandegários: deixaríam os com eles a bagagem , para recebê-la em Calcutá, ao fim da excursão. Protestei, protesto débil de m oribundo, não tive sucesso, apelei para Matilde, absteve-se, vi com olhos de despedida m inha m áquina de escrever ser entregue a destino incerto. Pablo, vais perder o pacote com os originais de teu novo livro de poem as. Homem incrédulo, não confias no terceiro mundo? — acusa-m e de reacionário.

Para cada casal pequena bolsa de viagem , o espaço m aior, m ais do dobro, destinado aos trapos da senhora: com binações, cam isetas, blusas, foulards, anáguas, cintas, sutiãs. Ao cavalheiro coube o direito a um a cam isa, um a cueca, um par de m eias, dois lenços e olhe lá.

Lá fom os nós pela Índia a nos abarrotar de beleza e de m iséria, em certo m om ento, em m eio a tanta m iséria, eu j á não conseguia vislum brar a beleza. No hotel de Bom baim , vendo-m e chegar sozinho ao quarto, a cam areira m e propôs m enina de doze anos por não sei quantas rupias, poucas, diante de m inha recusa inform ou que em vez da m enina podia ser m enino da m esm a idade, os ingleses por vezes preferiam . Estendeu-m e a m ão de bruxa, cobrava a proposta e a inform ação. Em Nova Delhi, as crianças m iseráveis nos acom panhavam pelas ruas cantando cantigas de esm oler, Zélia ainda guarda a m elopeia nos ouvidos, havia um aleij ado, igual a um sapo, andava sobre as m ãos, m ais rápido que os dem ais — voltávam os correndo para o hotel. Em Calcutá os m onges budistas e os crentes em geral defecavam nas aforas do tem plo, cada pedra um a obra de arte, cada passo um m onte de m erda.

Quanto à bagagem , com o eu previra, desaparecera nos cam inhos da índia, prolongam os nossa estada em Calcutá para esperá-la, não chegava — as vacas sagradas ocupavam a via pública, os m osquitos tam bém sagrados alim entavam -se de nosso sangue ateu, e os m acacos ah, os m acacos eram os reis da índia, m andavam e desm andavam , subiam em nossas costas, tentavam arrancar nossas gravatas, m etiam a m ão nos bolsos, nos pescoços, puxavam os pêlos do peito, só faltavam nos enrabar.

Cúm plices, responsáveis pelo sucedido com as m alas — m alas, bolsas, sacos de viagem , m áquina de escrever, m anuscrito de poem as —, Zélia e Pablo concluíram que a bagagem fora enviada para Rangoon. Por que haviam de enviá-las a Rangoon, procurei saber, não via m otivo nem m aneira, não m e responderam , ao chegar a Rangoon lá não estavam , por que haviam de estar? De m au hum or, sem roupa para m udar, infeliz, tão por baixo eu estava que m e faltava ânim o até para atirar o m alfeito na cara de Zélia, cara que a coitada não sabia onde esconder. Na de Pablo não adiantava, os poetas são seres superiores, colocam -se acim a dessas contingências.