Navegação de Cabotagem
Paris, 1992.
Tendo lido Manhattan Transfer em tradução espanhola, j uro por John dos Passos: para puxar conversa com o ídolo pergunto-lhe por sua ascendência portuguesa, o sangue luso nos aproxim a. Não o sensibilizo, responde-m e com o que m e parece ser a repetição de um a boutade:
— Meu avô era português, m eu pai falava português, eu sou um am ericano de Chicago.
Fala em espanhol, acento carregado, m orre a tentativa de aproxim ação, nunca m ais voltei a vê-lo, lim itei-m e a leitor apaixonado do rom ancista que abriu novos espaços à ficção contem porânea.
A partir de certo momento passamos a viver mais com os mortos do que com os vivos, a ter mais amigos do lado de lá do que do lado de cá.
Paris, 1992.
Miná
Ao ver que a escrita destes apontam entos aproxim a-se do fim , Zélia cham a-m e a atenção: não fazias questão de falar no nome de Miná? No entanto ainda não o citaste. Tem razão, sem pre tem razão, j am ais a tenho eu, o desm em oriado.
É agora e j á, lhe respondo. Antes que sej a tarde, aqui escrevo com estim a o nom e de Gianni Miná, um varão italiano de m uita picardia. Hom em de variados afazeres e m últiplas com petências —j ornalista, personalidade da televisão, autor de livros, perito em futebol, em m ulheres belas, em culinária, com panheiro de causas e andanças.
Escrevo-lhe o nom e e fim de papo, se eu fosse contar as em preitadas em que m e m eteu, dobraria o núm ero de páginas deste livro em dem asia volum oso.
A últim a teve a ver com Cuba e com Fidel, custou-m e esforço, tive de apertar o crânio para atender a pedido seu, prefácio Para um segundo livro de conversações com o líder dos barbudos. Não foi tarefa fácil pôr no papel, com pensam ento livre e língua solta, tudo de bom que penso da revolução cubana e as restrições e críticas que faço ao regim e, à falta de liberdade característica das ditaduras m arxistas. Suei sangue, não sei se consegui m e explicar com o devido.
Tarrafal, 1986.
O candomblé marxista
Faço questão de conhecer Tarrafal, digo a Jorge Miranda Alfam a*, a negregada fam a do presídio de Salazar m e persegue há m uitos anos. Quero ver o lugar onde penaram Luandino Vieira, Chico Ly on de Castro e tantos outros am igos, lá vam os nós da cidade de Praia a Tarrafal.
*Jorge Miranda Alfama, diretor, na época, do Instituto do Livro de Cabo Verde.
Estam os na República de Cabo Verde, não são onze ilhas com o ensinam os com pêndios, são províncias da lua ancoradas no m ar Atlântico, paisagem de vulcão extinto, a terra é negra, não chove nunca, árvores raras. Quando os prim eiros navegadores chegaram não existiam habitantes, apenas o oceano, os peixes e o sal, lua m inguante, despovoada.
Antes de visitar o presídio desativado, à espera de ser m useu, avistam os a praia, poucas serão tão suntuosas. No cam po de concentração m ostram -nos a cela onde o poeta Agostinho Neto cum priu sentença: m orreu Presidente de Angola.
De volta à capital, param os para alm oçar em m eio do cam inho, na cidade de Santa Catarina.
O prefeito providenciou com ida e bebida, dança e canto para os viaj antes. Na praça pública exibe-se o corpo de bale form ado por m ulheres do povo, cabrochas caboverdeanas iguais às m ulatas caboverdes do Brasil no requebro e na graça. Roda de candom blé em plena rua, filhas-de-santo que não cum priram obrigação na cam arinha, não rasparam os pêlos da cabeça, do sovaco e do xibiu, nem por isso os encantados deixam de baixar à terra e possuí-las na vertigem da dança, ao som do canto. Zélia aponta um a das form osas: olhe como aquela parece Olga do Alaketu*. Estam os na Bahia, o ritm o e os deuses são os m esm os, no Brasil e na África.
*Olga do Alaketu, mãe-de-santo da Bahia.
As cantigas porém não são as m esm as, na Bahia se canta em iorubá, em cabinda, cantos rituais em honra aos orixás, aos inkices, em Cabo Verde se canta em crioulo, hinos políticos m arxistas-leninistas em honra do Partido, deus único, todo-poderoso. Não im porta, é tudo a m esm a coisa: o baile recrudesce, os encantados dançam acim a e além das ideologias.