Navegação de Cabotagem

Jorge Amado · Capítulo 108 de 262

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Praga, 1951/1952.

Nossa m istura é a m esm a, é idêntico o nosso sincretism o cultural, digo a Fidel, e lhe proponho sej a feito um esforço de conhecim ento e de aproxim ação entre os valores negros da cultura brasileira e da cultura cubana. Constato com prazer a existência em Cuba de um a abertura religiosa, padres brasileiros estão sendo esperados em Havana, e a santeria j á não é perseguida e condenada por bárbara e contra-revolucionária — com Julie e Harry Belafonte, Zélia pôde assistir, na véspera, a um a festa de iaôs. Por que não iniciar então intercâm bio entre o candom blé e a santeria, am bos de origem iorubá, são idênticos os deuses da Bahia e os de Santiago de Cuba. Se vão chegar sacerdotes católicos para dizer m issas nas igrej as da ilha, por que não trazer a Havana, para a festa de Xangô, as iy alorixás: Stela de Oxóssi, Olga do Alaketu, Creusa do Gantois? Por que não enviar aos terreiros da Bahia para a festa de Yem anj á, no dois de fevereiro, os babalorixás cubanos? Ou será que as religiões populares, desem barcadas dos navios negreiros, valem m enos para os barbudos do que a Igrej a de Cristo aportada nas caravelas de Colom bo?

Solto na sala do Com itê Central os orixás para a reflexão de Fidel Castro naqueles dias em fase de abertura do regim e farto de problem as, com eles se defronta o visitante em cada esquina de Havana.

Praga, 1951/1952.

O medo

Posso tocar o m edo com a m ão. Erguido em nossa frente o m uro da devassa na visitação do Santo Ofício com unista. Separa vida e m orte, a m orte infam ante dos traidores, ninguém está a salvo das am eaças, nem o m ais ilustre nem o m ais poderoso: bocas trancadas, olhares fugidios, a dúvida, a desconfiança, o m edo.

Nas forcas stalinistas balouçam os cadáveres dos m ais poderosos dos principados tcheco e eslovaco, ainda ontem senhores da corda e do baraço, Slansky , Clem entis, Gam inder, a cúpula do Partido. Antes j á tinham executado Raj k na Hungria, a onda de processos e purgas se alastra no m undo socialista, as confissões e as sentenças. Em Praga Arthur London escapou da m orte, pegou prisão perpétua: tam bém ele confessara os crim es m onstruosos. Certam ente os renegados o enganaram , pois é-nos im possível, a Zélia e a m im , acreditar que Gerard*, herói da Espanha e da Resistência, o m ais leal dos com unistas, sej a um traidor.

*Gerard, nome de guerra de Arthur London.

Nós o conhecem os, a ele e a Lise, sabem os que são gente de bem , incapaz de felonia, a palavra traição não cabe no vocabulário de quem dedicou a vida à causa. Lise é posta contra a parede da fidelidade à Revolução, querem que renegue o m arido, m andam -na para o trabalho m anual num a fábrica de m aterial de aviação. A ela e a Antoinette, a brava Antoinette, am orosa de cam arada brasileiro, assessora de Gam inder.

Tratei com Gam inder, secretário de relações exteriores do Partido Com unista da Tchecoslováquia no poder, atento e am ável escuta-m e pedinte do pecê brasileiro na ilegalidade, potentado concede as graças, os favores. Lem bro o desvelo com que cuidou da viagem de Ligia e Anita, irm ã e filha de Prestes, fugitivas do Brasil para o exílio em Moscou. Antoinette m e atende na sede do Com itê Central, m e anuncia ao chefe, volta: espere um pouco, ele vai receber o cam arada, dem ora-se fazendo sala.

Certa feita apresentei-m e acom panhado de com panheiro paulista, trocaram olhares, a labareda crepitou, j uraram -se am or eterno, prom eteram -se em esponsais. Coisa m ais difícil do m undo, casam ento de russa ou de nacional de qualquer dem ocracia-popular com estrangeiro, aconteciam paixões, a batalha pelo casam ento um a epopeia. Que o diga Otávio Araúj o*, viveu anos em Moscou antes de obter consentim ento, disso sabe tam bém Guido Araúj o**, atravessou os círculos do inferno para levar Mila de esposa de Praga para a Bahia. E os que tentaram e não conseguiram ? Conheço ao m enos duas dúzias a com eçar por Fernando Santana*** até hoj e um a tcheca loira sonha com o m ulato inzoneiro. Im agine-se então se a presum ida noiva se cham a Antoinette, está sob suspeita, posta em castigo, pretensão absurda m ais que im possível. Recolhi lágrim as e bram ido: as que ela chorou, o grito que ele não pôde reprim ir.

*Otávio Araújo, pintor.

**Guido Araújo, cineasta, Mila, sua mulher.

***Fernando Santana, político, dirigente comunista.

Esforço-m e para cum prir com m eu dever, não é fácil ser digno, decente, quando o m edo ergue a m uralha da desconfiança e do equívoco, cada palavra, um sim ples gesto, pode levar ao Tribunal da Inquisição. Tam bém eu tenho m edo, não estou isento, não sou Bay ard, le chevalier sans peur et sans reproche. Sans reproche sim , pois m e sinto acim a de qualquer suspeita, considero-m e m ilitante devotado, leal, fiel, intransigente, considero a União Soviética a pátria de todos os oprim idos e vej o em Stalin o pai dos povos e de cada um de nós. Que posso tem er, se é assim ? Não, porém , sans peur: quando penso em London que acredito inocente, o pavor m e invade. Mas vou em frente, não intim orato e, sim , apreensivo, sustenta-m e o ânim o o fato de ser Prêm io Internacional Stalin, recom pensa m aior à fidelidade incondicional. Me atrevo, m as o faço encagaçado, e o faço porque se não o fizesse perderia o gosto de viver e de certo perderia Zélia. Vou em frente, creio possuir certa m argem de im unidade que m e perm ite a honradez, m oeda rara.

Em Budapeste peço para visitar Gy orgy Lukács* caído em desgraça, retiraram -lhe postos e honrarias, exigência dos ideólogos soviéticos do realism o-socialista, o filósofo m agiar é um herético form alista, m as eu o adm iro e estim o desde nosso encontro em Wroclaw, seguido da leitura de livro seu sobre teoria literária. O secretário do pecê húngaro, responsável pelas relações com os partidos estrangeiros, olha-m e com estranheza, prom ete providências para atender-m e, cum pre o prom etido, encontro-m e com Lukács, falam os disso e daquilo, nenhum a referência à situação em que se encontra. No edifício do Com itê Central, ao estender-m e a m ão, o cam arada secretário m urm ura, inesperado: quero lhe agradecer por seu pedido — agora sou eu quem olha com estranheza o dirigente.

*Gyorgy Lukács (1885/1971), filósofo húngaro.

Em Bucareste faço pedido idêntico com m aior afoiteza, pois a contingência é m enos grave: consigo ver e abraçar o rom ancista Zaharia Stancu, destituído da secretaria-geral da União de Escritores Rom enos e do Com itê Central do Partido. Stancu passou a vida a subir e descer a escada do poder, ora nas alturas, ora na m erda.

Zélia encontra Lise na rua, em Praga, convida-a a vir nos ver em Dobris: a solidão das fam ílias dos condenados é total, o m edo destrói relações, apreços, am izades. Gesto de m aluca, aí, som os um pouco loucos, Zélia e eu, não conseguim os conter im pulsos. Acolhem os Lise, a m ulher do renegado, veio alm oçar conosco num dom ingo, no Castelo dos Escritores onde habitam os. Ela chega com os filhos e a m ãe, indom ável espanhola, quando transpom os a porta do restaurante em tão reprovável com panhia, cessa o ruído das conversas, m orre o riso das facécias, silêncio tum ular. Som os irresponsáveis, irresponsável é o term o que em prega, m enos a m e censurar do que a m e j ustificar, a escritora tcheca Marine Puim anova, Prêm io Nacional: você é estrangeiro, por que se mete em assunto nosso? Está se expondo.